15.7.05
Horas
Horas a ouvir pormenores dos tempos que se seguiram ao 25 de Abril. Fixamos esta data e pensamos que tudo mudou naquele dia, no vermelho daqueles cravos, no som daqueles tanques contra o quartel, no júbilo registado em fotografias. Hoje sabemos. Na altura não se sabia. Acreditava-se. A luta continuou. O medo estava lá. O não saber como fazer. A esperança sempre.

Ouvi Eugénia Cunhal na televisão e impressionou-me pensar naqueles que viveram a clandestinidade, a prisão, anos… os 11 anos de Álvaro… onde só a pintura, só a escrita, só a profunda convicção das causas podia fazer suportar, transbordar a vida dali para fora. E quando se sai, preservar o amor por essa mesma vida. Nunca fomos de falar do passado, da dor, nós queríamos pensar o presente, o futuro… (não tenho as palavras exactas, mas os olhos de Eugénia brilharam).
Falou também do despertar “para a vida no sentido de olhar para fora de si ao mesmo tempo que se constrói interiormente, que se tenta ser coerente, ser honesto consigo próprio, ter certas características humanas" (ela não gosta de dizer qualidades!)

Encontrei num livro aberto ao acaso, uma flor de buganvília vermelha e já não sei se fui eu que a ali deixei mas imagino que sim… é um delícia encontrar assim objectos nos livros. E nessas páginas li…

“Não era de noite nem de dia quando a morena, nua e tremendo, depois dos primeiros interrogatórios, ergueu ao de leve a venda que lhe cobria os olhos. Tempo morto. Tempo sem medida. A morena viu-se suja de hematomas causados pelas pancadas, de queimaduras deixadas pelos eléctrodos. Então mordeu os lábios e com todo o amor do mundo murmurou:
«Não falei, não lhes disse nada, não me venceram».”


No livro: As rosas de Atacama.



E quieta, muito quieta voltei a pensar na revolução e na Eugénia. Voltei a pensar em mim. Encontrei depois aquela frase: “Estive aqui e ninguém contará a minha história” (frase gravada no campo de concentração de Bergen Belsen, Alemanha). Arrepio. Silêncio.
A leitura, a escrita, o cinema, a música, o teatro, as viagens, a fotografia, a pintura, o querer saber das coisas e das pessoas...tudo o que podemos encontrar para nos tornar melhores, para sermos melhores… o que estudamos e descobrimos… Vale para quê? Para passearmos isso numa sedução qualquer estúpida? Vale para quê? Que farei com isso? Que farei comigo, os meus tendões, os meus caracóis, as minhas palavras para que o mundo seja um raio de um sítio melhor? Que farei para que não se gravem mais frases assim?



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