9.7.05
aquele a quem Deus ouve
(Samuel)

Não prometo que o que aqui escreva se tenha passado desta exacta forma, mas é a forma de quem olhou, de quem discreta foi fazendo parte desta história.

Começou há muito tempo. Começou por um homem de paz, um homem da terra, do moldar do chão duro, muitas vezes seco, mas fértil. Com muito trabalho o barro fazia crescer, germinava em vida. Um homem que invulgarmente, dizem, tinha a destreza de mãos e de gestos. Era ele quem, na falta frequente dos médicos, administrava as injecções, acompanhava os momentos difíceis. Homem certamente sábio, quieto, sempre no seu lugar definido na mesa… o respeito e o amor daquela mulher de metro e meio que com ele criou 11 filhos. Manuel e Piedade. Patrício.

Ontem morreu um filho. O terceiro. Hoje toda a família se juntou. Todos os amigos acorreram. E mais uma vez os mais velhos estavam lá, com a dor de uma morte que não queriam antecipada à sua. E mais uma vez as crianças estavam lá e viram tudo. Lembrei-me de mim também noutras alturas. E assim começam a entender que as pessoas não desaparecem ou viajam, as pessoas morrem e só continuam connosco se as soubermos ouvir cá dentro. Um ciclo. Um dos mais pequeninos, ao abandonar o cemitério ao colo da mãe, onde tinha feito muitas perguntas, fez o gesto de adeus à campa. Tinha percebido tudo.
Esta família, a família muito grande, que começou com aquele homem, que reconhecemos nas feições dos filhos e naquela mulher, que reconhecemos na fibra das filhas, acolhe sempre a nossa presença com uma felicidade e uma saudade imensas. Formamos uma espécie de clã, onde se espera apenas que sejamos honestos, que sejamos verdadeiros. Gente de paz, gente de força que chora muito com as partidas, mesmo aquelas que já esperávamos. Fragilidade. Uma espécie de clã onde se reconhecem os traços, onde se assiste aos crescimentos, onde se quer saber e se pergunta o que se tem vontade. Depois de muitos anos dizem-nos que estamos bonitas. Os abraços são apertados, aproximam-nos. Também existem os malandros, os que fizeram tudo errado, os que dói só de falar... mas tudo isso é vivido, é partilhado. Existe o sofrimento, mas também existe a sua superação. Sabedorias.
E sem falar de fé é impossível falar desta gente, porque a celebração foi preparada. As leituras e os textos por quem gosta. As flores por quem as cria. As músicas por quem sempre as cantou com aquele irmão. E toda a gente ouviu e rezou com a esperança de quem acredita profundamente. "Com minha Mãe estarei…" (música final) e conseguimos imaginar aqueles olhos verdes recolherem-se no seu colo.
Sinto um orgulho e um privilégio inexplicáveis.



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