14.6.05
O jogo de saber olhar



"Como olhar claramente sem pretender encontrar nas coisas o que nos disseram que lá devia haver, mas sim o que simplesmente lá há?
Eis um jogo inocente que vos proponho jogar.
Quando olhamos, normalmente só vemos o que nos é dado à nossa volta: duas ou três coisas às vezes muito pobres apenas vistas por cima no meio do infinito.
Olhem para o objecto mais simples. Peguem, por exemplo, numa velha cadeira. Parece que não é nada. Mas pensem em todo o universo que ela contém: as mãos e o suor cortando a madeira que um dia foi uma árvore robusta, cheia de energia, no meio de um bosque frondoso nas altas montanhas, o trabalho amoroso que a construiu, o entusiasmo que a comprou, os cansaços que aligeirou, as dores e as alegrias que terá aguentado, quem sabe se em grandes salões ou em pobres casas de jantar de um bairro... Tudo, tudo participa da vida e tem a sua importância! Até a mais velha cadeira traz dentro de si a força inicial daquelas seivas que subiam da terra, lá nos bosques, e que ainda servirão para dar calor no dia em que, cortadas em lenha, ardam nalguma lareira.
Olhem, olhem a fundo! E deixem-se levar completamente por tudo o que faz ecoar dentro de vós o que o olhar nos oferece, como quem vai a um concerto com uma roupa nova e o coração aberto com o entusiasmo de ouvir, de sentir simplesmente com toda a sua pureza, sem pretender à força que os sons do piano ou da orquestra representem uma certa paisagem, ou o retrato de um general, ou uma cena da história, como se gostaria muitas vezes que apenas fosse a pintura.
Aprendamos a olhar como quem vai a um concerto. Na música existem formas sonoras num pedaço de tempo. Na pintura, formas visuais num pedaço de espaço.
É uma brincadeira. Mas brincar não significa fazer as coisas “só porque sim”. E como em todas as brincadeiras de crianças, os artistas também não fazem as coisas “só por que sim”. A brincar.., a brincar, em pequenos, aprendemos a ser grandes. A brincar.., a brincar fazemos crescer o nosso espírito, ampliamos o campo da nossa visão, do nosso conhecimento. A brincar.., a brincar, dizemos coisas e ouvimo-las, despertamos aquele que adormeceu, ajudamos a ver aquele que não sabe ou aquele a quem taparam os olhos.
Ao olhar não se deve pensar nunca naquilo que a pintura — como todas as coisas deste mundo — “deve ser”, ou no que muitos querem que apenas seja. A pintura pode ser tudo. Pode ser um clarão solar no meio de uma ventania. Pode ser uma nuvem de tempestade. Pode ser uma pegada de homem pela vida, ou um pontapé porque não?
— que diga “chega”! Pode ser uma brisa suave da manhã, cheia de esperanças, ou um bafo azedo saído de uma prisão. Pode ser as manchas de sangue de uma ferida, ou o canto em pleno céu azul ou amarelo de todo um povo. Pode ser o que somos, o hoje, o agora e o sempre.
Convido-vos a brincar, a olhar atentamente… convido-vos a pensar."


Antoni Tàpies



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