21.6.05
A MINHA VEZ
"O desenho das creanças é como o das pessoas que não sabem desenhar – ambos dizem, mas não sabem o que dizem. Não sabem desembaraçar as linhas de uma coisa das linhas das outras coisas que veem ao mesmo tempo dentro da mesma palavra. A prova é que não são capazes de imitar o que da primeira vez lhes escorregou do corpo pela mão para o papel.
Eu-próprio, apenas agora começo a recordar o que foram os meus desenhos de ha dez e vinte annos, quando fiz uns traços em pedaços de papeis que guardaram.
Escuto estes desenhos como a um homem do campo que diz, sem querer, coisas mais importantes do que está a contar, e que põe tudo á mostra sem dar por isso. Atravez d’estes desenhos sigo grafologicamente o meu instincto á espera da minha vontade, - a minha querida ignorância a aquecer ao sol e a transformar-se na minha vez cá na terra."


almada
a invenção do dia claro
(transcrito fielmente)

O homem do campo. Tive a sorte brincar muito junto a homens e mulheres do campo.
Homens de mãos muito ásperas mas de olhos verdes, rugas verticais, um colo pronto mas apenas quando me desse vontade… talvez no fim do dia, talvez farta de brincar sozinha e fazer perguntas.
Mulheres de pernas fortes, poucas palavras, olhar imerso. Blocos de notas onde cada celamim era apontado, decisões seguras. Apenas amolecendo com uma breve folia daqueles homens.
Sempre dizendo, "sem querer, coisas mais importantes do que estavam a contar".
Sempre respeitando o meu jeito de ser, sempre certos de que a minha vez aqui na terra seria um caminho feito de mim.



HaloScan.com