28.6.05
41º Comtextos
MÃE DAS FONTES E DOS RIOS



descomtexto:

PALHAÇO, NÃO!... DOUTOR PALHAÇO
Pedro Fabião: Palhaço de hospital pela Operação Nariz Vermelho


nocomtexto: Ásia

1- UMA HISTÓRIA DE ETERNOS CONFLITOS
Lúcia Oliveira: Pertence ao departamento Internacional da AMI e esteve em vários países como coordenadora de projectos, nomeadamente no Iraque e na Jordânia

2- CHINA: UMA SOCIEDADE (NO) PLURAL?
Maria Trigoso: Docente de Língua e Cultura Chinesas do Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica. A sua área de investigação é, actualmente, a da prática de nomeação pessoal nas famílias da diáspora chinesa.

3- O AMOR DA ÍNDIA

Paulo Varela Gomes: Historiador da arquitectura e da arte, ensina na Universidade de Coimbra, foi durante dois anos (1996-1998) delegado da Fundação Oriente na Índia (em Goa), desenvolveu / desenvolve projectos de divulgação cultural e investigação científica sobre alguns aspectos das relações históricas entre Portugal e a Índia.

4- IMPRESSÕES DE UMA PORTUGUESA EM GOA
Sofia Martinho: Directora do Centro de Língua Portuguesa de Newcastle. Foi Directora do Centro de Língua Portuguesa de Goa, entre Setembro 2003 e Agosto 2004.

5- TIMOR: COMO DE REPENTE SABER CONSTRUIR?
Mariana Malta: Professora no Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto. Esteve em Timor por duas vezes: de Janeiro de 2003 a Março de 2003 e de Outubro de 2003 a Março de 2004 onde leccionou na Universidade Nacional de Timor Leste (UNTIL) ao abrigo do protocolo existente entre a Federação das Universidade Portuguesas e a UNTIL. É membro do Graal. É associada do Movimento de Campos de Férias (MOCAMFE).

6- TAILÂNDIA. BELEZA ESPIRITUAL

Rita Mateus: Licenciada em Jornalismo pela Universidade de Coimbra. Viajante inveterada.

7- DEUS E O TSUNAMI

José Filipe Pina: Estudante do 5º ano de Engenharia Electrotécnica na Universidade de Coimbra. Militante do MCE na diocese de Coimbra

8- PORTUGAL – VINHO – CEBOLA

Seiji Furuya: É natural de Tóquio, Japão, cidade onde viveu e trabalhou como arquitecto paisagista durante aproximadamente meio século. Em 1992, sentindo vontade de encontrar uma vida mais tranquila, mudou-se com a família para Portugal.



comactualidade:

DESAFIOS PARA A IGREJA NO PONTIFICADO DE BENTO XVI
Anselmo Borges: Padre da Sociedade Missionária da Boa Nova. Docente de Filosofia (Antropologia Filosófica e Filosofia da Religião) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

e ainda as secções: textosoltos, semtexto (imagem) e textoscom (crónicas)


Saíu o 3º volume deste ano e quem gostar de conhecer ou assinar esta revista (5 euros ou 10 euros se for assinatura de apoio - 4 volumes) basta escrever para comtextos@gmail.com. Teremos todo o gosto em vos apresentar, ou quem sabe apenas lembrar.

26.6.05
A esquina
"Em […] numa data social em que a vida por si só se tornou difícil e azeda, um homem de meia-idade inventou uma profissão para si mesmo. No sorriso da sua descoberta, pintou de verde-escuro um banco pequenino, passou a manhã esperando que o sol ausente o secasse com a temperatura possível. Engomou o fato castanho e escolheu aleatoriamente uma das muitas esquinas da cidade. Num cartão pequeno escreveu à máquina: «tiram-se dúvidas».
Resistiu pacientemente aos primeiros vinte e três dias em que ninguém caiu na tentação de lhe fazer uma pergunta que fosse. É sabido que as pessoas paravam para ler o cartão, e que sorriam ou acenavam, cumprimentando-o. Está escrito que ele ripostava com a agradabilidade do seu sorriso curto, cordial, calmo. No vigésimo quarto dia uma criança sentou-se no chão ao pé dele. Ao fim de algum tempo, sorriu. O homem também sorriu. A criança, miopemente, soletrou com a boca e os olhos: ti-ram-se dú-vi-das… Fechou o seu sorrisinho e olhou-o intrigada. Quando se preparava para murmurar algo, ou quando o homem se preparava para murmurar algo de volta, um senhor prostrou-se em frente ao banquinho, à mesinha, ao homem, à criança, aos seus sorrisos parecidos.
Não havia preços. O certo é que a criança todos os dias se sentava ali, o homem todos os dias lá ia, as pessoas apareciam com mais frequência.
A esquina ficou conhecida como a esquina da dúvida, onde ainda hoje todos os cafés têm pinturas ou esculturas do homem, o banco, a mesa, o cartaz e a criança ao lado – no chão.
Se chovia retiravam-se para um parapeito. Se fazia vento aconchegavam as pernas um no outro. De longe, o que se via era o sorriso calmo, cordial, curto do homem intercalado com palavras poucas, mansas. As pessoas sorrindo se afastavam.
Numa tarde fria, bela, chegaram a acumular-se três pessoas para tirarem dúvidas. Quando o homem disso se apercebeu, enternecido, olhou a criança. A criança, surpreendida com aquele olhar extenso, olhou o cartaz. Soletrou mais alto do que da primeira vez, para que todos na fila o ouvissem: ti-ram-se dú-vi-das
O tirador de dúvidas afagou o menino. Disse-lhe um segredo: dúvida é quando não sabemos bem alguma coisa. O menino enxugou o ranho transparente do seu lábio, sorriu, procurou a orelha peluda do homem: dúvida é amanhã?
Mãos dadas, dúvida virou nome de esquina."

Ondjaki



Ondjaki explicou com o seu jeito inteligente que este conto não era para estar no livro, que para ele o texto era uma fotografia.
Mas ele gosta do final... Dúvida é amanhã?

Acordei com o meu pai a dizer "anda ver o Ondjaki, ele está na televisão" (lembro-me de uma música). No chão, ao meu lado o livro "e se amanhã o medo", também meio adormecido, viu, como eu, a luz começar, o dia entrar.

25.6.05
E assim começa a vida...
Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra desce com ela.

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos
nas suas mãos apertadas...

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
tem voz de noite descendo
de mansinho pela estrada.

(...)

Prelúdio, Alda Lara
Angola


Não encontrei nenhuma imagem que cantasse... nenhuma imagem que trouxesse a notícia deste ventre.
Uma imagem para o embalar suave para sempre.

24.6.05
Confidências
Chama-se Confidências. Fala de viagens.
Viagens e confidências.
E naquele momento, com o dia a fechar-se lá fora,
na rua, antes de sentirmos o frio nas roupas leves...
ali, mesmo ali.
Podemos querer misturar a dor e a alegria,
a manha e a graça, viver profundamente.
Tudo o que queremos ser nesta vida
Ganas ou delicadeza.
Conforme.



"Senta-te ao meu lado, que eu vou contar-te a viagem que eu fiz. Dá-me a tua mão para que eu a conte bem!
Dei a volta ao mundo, fiz o itinerário universal. Tudo consta do meu diário íntimo onde é memorável a viagem que eu fiz desde o universo até ao meu peito quotidiano. Vim de muito longe até ficar dentro do meu próprio peito e defendido pelo meu próprio corpo.

Durante a viagem encontrei tudo disposto de antemão para que nunca me apartasse dos meus sentidos. E assim aconteceu sempre desde aquele dia inolvidável em que reparei que tinha olhos na minha própria cara. Foi precisamente nesse dia (…) que eu soube que tudo o que há no universo poderia ser visto com os dois olhos que estão na nossa cara. Não foi, portanto, sem orgulho que constatei que era precisamente por causa de cada um de nós que havia o universo.
E assim foi que, todas as coisas que a princípio me pareciam tão estranhas, começaram logo desde esse dia (…) a dirigirem-se-me e a interrogarem-me, quando ainda ontem era eu que lhes perguntava tudo. (…) Muito maior foi o meu orgulho, portanto, quando tive a certeza de que hoje o universo esperava ansiosamente por cada um de nós. Ontem, cada um de nós viajava por todas as partes do universo, com aquele desejo legítimo de se encontrar, e se a viagem demorou mais do que devia é porque não seria fácil acreditar imediatamente que cada um de nós, estava, na verdade, em todas as partes do universo. Confesso que não pude supor logo de entrada que o papel de que seríamos incumbidos cá na terra fosse precisamente o mais importante de todos. (…)

Todas as coisas do universo aonde, por tanto tempo, me procurei, são as mesmas que encontrei dentro do peito no fim da viagem que fiz pelo universo."

almada negreiros

21.6.05
A MINHA VEZ
"O desenho das creanças é como o das pessoas que não sabem desenhar – ambos dizem, mas não sabem o que dizem. Não sabem desembaraçar as linhas de uma coisa das linhas das outras coisas que veem ao mesmo tempo dentro da mesma palavra. A prova é que não são capazes de imitar o que da primeira vez lhes escorregou do corpo pela mão para o papel.
Eu-próprio, apenas agora começo a recordar o que foram os meus desenhos de ha dez e vinte annos, quando fiz uns traços em pedaços de papeis que guardaram.
Escuto estes desenhos como a um homem do campo que diz, sem querer, coisas mais importantes do que está a contar, e que põe tudo á mostra sem dar por isso. Atravez d’estes desenhos sigo grafologicamente o meu instincto á espera da minha vontade, - a minha querida ignorância a aquecer ao sol e a transformar-se na minha vez cá na terra."


almada
a invenção do dia claro
(transcrito fielmente)

O homem do campo. Tive a sorte brincar muito junto a homens e mulheres do campo.
Homens de mãos muito ásperas mas de olhos verdes, rugas verticais, um colo pronto mas apenas quando me desse vontade… talvez no fim do dia, talvez farta de brincar sozinha e fazer perguntas.
Mulheres de pernas fortes, poucas palavras, olhar imerso. Blocos de notas onde cada celamim era apontado, decisões seguras. Apenas amolecendo com uma breve folia daqueles homens.
Sempre dizendo, "sem querer, coisas mais importantes do que estavam a contar".
Sempre respeitando o meu jeito de ser, sempre certos de que a minha vez aqui na terra seria um caminho feito de mim.

20.6.05
arqueologia de Deus
Hoje há Terra da Alegria, com muitas colaborações: comentários a uma ida à missa; reflexões sobre o simbolismo; um olhar sobre a Igreja; a esperança e a resignação; arqueologia de Deus. Esta último é da minha lavra — continuo a falar do livro de Régis Debray "Deus um Itinerário".


(West Semitic Research Project)

19.6.05
"Tempo dos Tempos"
Este é mais canónico, mas o meu verdadeiro credo é o Jazz. Poema para ser lido obrigatoriamente em voz alta:

Se nos tempos da Bíblia houvesse Jazz!
Ah! Se nos tempos da Bíblia houvesse Jazz!
Se nos tempos houvesse Jazz
o ritmo renovado do Jazz
o ritmo sincopado do Jazz
o ritmo sanguíneo do Jazz.

Se nos tempos da Bíblia
e pelas páginas da Bíblia
e pelos versículos da Bíblia
o sincopado, o rag-time
o humano liberto do Jazz
fossem bíblicas parábolas!

Se nos tempos dos tempos
da Bíblia sincopada de gritos
da Bíblia renovada de espantos
da Bíblia dos mistérios do Homam
da Bíblia tal como é
e do Jazz tal como é!

Nós precisamos de qualquer coisa alarmante
de arrepios vindos das vísceras banais
de confronto de bocas
chegadas de todos os continentes
nós precisamos dos negros
dos brancos, dos comerciantes.

Nós precisamos dos tempos da Bíblia
da placidez de David
e do erotismo divino de Salomão.
Nós precisamos de uma satânica expressão
nós precisamos do Jazz
nós precisamos do Jazz!

Não faz mal que nos tempos da Bíblia
o Jazz não existisse.
Nos nossos tempos há,
tem que haver erotismo e santidade
tem que haver tudo o que houver:
o homem com a sua idade.

Nos nossos tempos necessitamos
de nos sentirmos simplesmente velhos
de vinte séculos de esmagamento
e acreditando na ingenuidade de um nascimento.
Senão estamos perdidos!
Precisamos que tudo, que tudo seja novo.

Precisamos de mulheres, lobos e idealismos.
Precisamos de religiões, ateus e despotismos.
Precisamos de nuvens, noites e lantejoulas.
Precisamos de paixões, precisamos de paixões.
Precisamos de soluções intermédias.
Mas tudo erguido, vivido e destruído de novo!

Precisamos de política.
Precisamos que não haja política.
Precisamos de negras, amarelas e crioulas.
Precisamos de superar as igualdades.
Precisamos da Bíblia.
Precisamos de Jazz.

Ah! Se nos nossos tempos soubermos a Bíblia
de cor na nossa pele, na circulação,
nos músculos e na nossa transpiração.
Se nos nossos tempos em que nada sabemos de nós,
soubermos o Jazz dos negros e das consciências,
o Jazz a ritmar até ao desmaio de morte.

Se nos nossos minutos de existência
não pensarmos em nada, não soubermos de nada
não quisermos nada com todas as ignorâncias divinas.
Se nos nossos segundos de existência
não nos entregarmos a nada
que não sejam os décimos de segundo da existência.

Então sim! A Bíblia terá Jazz!
A Bíblia terá o que sempre teve.
Seremos todos bíblicos.
A Bíblia será bíblica.
A vida inteira será bíblica.
E tudo será bíblico. Tudo será bíblico!

Porque o Homem quis o nada
e quis-se além de si, e a si próprio.
Porque desprezei, desprezaste, desprezamos
o desprezo e não soubemos nada.
Porque depois de um nascimento que era uma vida
pudemos gritar que não nos bastava a vida!

E todas as bocas o dizem
sem dizerem nada.
Todos os olhos o vêem
sem avistarem nada.
Todos os sentidos inominados
todos os milhões de sentidos esquecidos

sabem, na ignorância dos séculos
o sincopado da existência
o sincopado da Bíblia
o rag-time das nossas vidas diárias
do nosso esmagamento diário
e do canto bíblico das noites esfarrapadas.

(EM de Melo e Castro)

18.6.05
a chapada
Se não fosse de luva branca diria que o Manuel se tornou violento. Comentando o perdão da dívida externas dos países pobres pelo G8, aproveita para dar uma chapada aos "senhores da ortodoxia económica que bradavam, há muito pouco tempo, contra o infantilismo irresponsável do perdão". Ora tomem pois!


15.6.05
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

Eugénio de Andrade


Lembrar. Um dos poetas que mais admiro. Simplicidade.



«O ano dos centenários»
A Terra da Alegria com a sua centésima edição na passada segunda-feira passa a incluir-se entre as notáveis efemérides que, por um ou outro motivo, comemoram o número 100 este ano. Vejam a lista do José e digam lá se não é bem merecida a inclusão.

14.6.05
O jogo de saber olhar



"Como olhar claramente sem pretender encontrar nas coisas o que nos disseram que lá devia haver, mas sim o que simplesmente lá há?
Eis um jogo inocente que vos proponho jogar.
Quando olhamos, normalmente só vemos o que nos é dado à nossa volta: duas ou três coisas às vezes muito pobres apenas vistas por cima no meio do infinito.
Olhem para o objecto mais simples. Peguem, por exemplo, numa velha cadeira. Parece que não é nada. Mas pensem em todo o universo que ela contém: as mãos e o suor cortando a madeira que um dia foi uma árvore robusta, cheia de energia, no meio de um bosque frondoso nas altas montanhas, o trabalho amoroso que a construiu, o entusiasmo que a comprou, os cansaços que aligeirou, as dores e as alegrias que terá aguentado, quem sabe se em grandes salões ou em pobres casas de jantar de um bairro... Tudo, tudo participa da vida e tem a sua importância! Até a mais velha cadeira traz dentro de si a força inicial daquelas seivas que subiam da terra, lá nos bosques, e que ainda servirão para dar calor no dia em que, cortadas em lenha, ardam nalguma lareira.
Olhem, olhem a fundo! E deixem-se levar completamente por tudo o que faz ecoar dentro de vós o que o olhar nos oferece, como quem vai a um concerto com uma roupa nova e o coração aberto com o entusiasmo de ouvir, de sentir simplesmente com toda a sua pureza, sem pretender à força que os sons do piano ou da orquestra representem uma certa paisagem, ou o retrato de um general, ou uma cena da história, como se gostaria muitas vezes que apenas fosse a pintura.
Aprendamos a olhar como quem vai a um concerto. Na música existem formas sonoras num pedaço de tempo. Na pintura, formas visuais num pedaço de espaço.
É uma brincadeira. Mas brincar não significa fazer as coisas “só porque sim”. E como em todas as brincadeiras de crianças, os artistas também não fazem as coisas “só por que sim”. A brincar.., a brincar, em pequenos, aprendemos a ser grandes. A brincar.., a brincar fazemos crescer o nosso espírito, ampliamos o campo da nossa visão, do nosso conhecimento. A brincar.., a brincar, dizemos coisas e ouvimo-las, despertamos aquele que adormeceu, ajudamos a ver aquele que não sabe ou aquele a quem taparam os olhos.
Ao olhar não se deve pensar nunca naquilo que a pintura — como todas as coisas deste mundo — “deve ser”, ou no que muitos querem que apenas seja. A pintura pode ser tudo. Pode ser um clarão solar no meio de uma ventania. Pode ser uma nuvem de tempestade. Pode ser uma pegada de homem pela vida, ou um pontapé porque não?
— que diga “chega”! Pode ser uma brisa suave da manhã, cheia de esperanças, ou um bafo azedo saído de uma prisão. Pode ser as manchas de sangue de uma ferida, ou o canto em pleno céu azul ou amarelo de todo um povo. Pode ser o que somos, o hoje, o agora e o sempre.
Convido-vos a brincar, a olhar atentamente… convido-vos a pensar."


Antoni Tàpies

O Futuro? XIII
"...De facto, este é um mundo sem futuro. Neste mundo, o tempo é uma linha que termina no presente, tanto real como psicologicamente. Neste mundo, ninguém é capaz de imaginar o futuro. Imaginar o futuro é tão impossivél como captar as cores para lá do violeta: os sentidos não podem conceber o que está para lá do visivél do espectro. Num mundo sem futuro, cada despedida de dois amigos é uma morte. Num mundo sem futuro, cada solidão é definitiva. Num mundo sem futuro, cada gargalhada é a última. Num mundo sem futuro, para lá do presente existe o nada, e as pessoas agarram-se ao presente como se estivessem suspensas de um penhasco."

Os Sonhos de Einstein de Alan Lightman

O Prémio "EU NÃO TENHO VERGONHA NA CARA" vai para...


Ribeiro e Castro

Assombrosas… as declarações de Ribeiro e Castro, Líder do CDS-PP, à TSF, relativas a Álvaro Cunhal no dia do seu falecimento.
De um desrespeito profundo pela pessoa e seu percurso que nos conduziu determinantemente a este estado democrático. Não conseguindo citar na integra as suas palavras, Ribeiro e Castro enaltece “a coerência e a persistência como qualidades humanas positivas” de Cunhal, contudo, a “coerência e a persistência não o são quando politicamente aplicadas nos “ideias e rumos políticos de Cunhal, que eram profundamente nocivos à paz, à liberdade e à democracia.”

Ribeiro e Castro do alto do seu nariz entende que os seus ideais são a verdade e a mais pura das verdades não admitindo que outros possam ter diferentes visões na construção da nossa sociedade. Mais, tendo-as, elas por si só já são erradas, mesmo que nunca tenham sido aplicadas…

Penso que não é altura de voltar com os PREC’S, com os 25 de Novembro e com o Gonçalvismo. Espero que o Ribeiro e Castro possa entender que o Álvaro Cunhal é muito mais do que este período da história de Portugal.
- Os anos de prisão e de exílio do avo Álvaro num determinante confronto com a ditadura instalada, são quase os mesmo da idade de existência do partido e dos ideais que Ribeiro e Castro defende.
- O avozinho já era secretário geral do PCP em 61, iniciando a construção democrática que agora vivemos, e o CDS-PP ainda não existia.
- O avozinho foi mais anos secretário geral do PCP do que o CDS-PP tem de primaveras.
O PCP, o Álvaro Cunhal e família mereciam mais respeito de um líder e deputado parlamentar nesta hora tão difícil.
Meu caro Ribeiro, tome cuidado, não vá o Adelino Amaro da Costa voltar e dar-te um par de lambadas, para ver se toma juízo!!!
E como diria Adelino Amaro da Costa “…devemos ter confiança no futuro, a juventude não é instalada” na certeza que o CDS terá novas caras para enfrentar novos desafios.

13.6.05
Utopias...


Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?


Zeca Afonso : Utopia
Letra e música: Zeca Afonso
In: "Como se fora seu filho", 1983

Obrigado, Álvaro Cunhal!
Homem de utopias, construtor de sonhos... (1913 - 2005)

12.6.05
percursos do Eterno no Ocidente
Retomo a escrita na Terra da Alegria. Hoje, ao lado do Afonso Cruz e da Maria Conceição. Em jeito de introdução fica o excerto final do meu texto — Aquele que é, em discurso directo pela voz de Régis Debray, no final do livro "Deus, um itinerário. Materiais para a história do do Eterno no Ocidente":

«Desculpem ser pouco. A minha biografia, afinal, valia mais do que a minha definição. Eu ficava aquém do meu futuro com o famoso "Eu sou aquele que sou". Devia ter dito a Moisés: Aquele que morre e se transforma. Sou o Ser cuja essência consiste em jogar às escondidas, em esconder-vos o rosto e surpreender-vos por trás. Milénio após milénio. No fundo, eu era a própria poesia: um mito que diz a verdade. E a verdade, é que vocês não podem passar sem um poema, um sonho colectivo, uma faísca de outras paragens, se querem viver e não apenas sobreviver. Vocês são demasiado poucos para o conseguirem sozinhos. Esqueçam os números, Podem ser cinco, dez mil milhões nesta terra, que isso em nada alterará a vossa insuficiência de ser. Vão continuar em falta. Sugeri que a culpa era vossa, com aquela história do pecado original, para vos fazer ver e vos culpabilizar, de passagem. Não passava, acreditem, de uma força de expressão. Encontrem outras, se vos der para aí, mas nunca vão conseguir escapar à vertical. Havemos de voltar a encontrar-nos. Eu ou Outro... Adeus.»

Companheiro Vasco


«FORÇA, FORÇA, COMPANHEIRO VASCO,
NÓS SEREMOS A MURALHA DE AÇO»


Desde pequena que oiço uma tia minha cantar isto muito contente, como se só de recordar aqueles tempos nascesse uma nova garra, uma nova força imensa para pensar o presente.

11.6.05
O Tempo... VI


" Neste mundo, o tempo é um fenomeno local. Dois relógios colocados lado a lado batem quase ao mesmo ritmo. Porém, dois relógios separados pela distância batem com ritmos diferentes - quanto mais afastados, tanto maior a sua dessincronia. O mesmo se passa com o bater dos corações, a cadência das inspirações e expirações, a velocidade dos ventos sobre a relva. Neste mundo, o tempo flui a velocidades diferentes em locais diferentes..."

Os Sonhos de Einstein por Alan Lightman

9.6.05
o meu silêncio
Desta vez não venho anunciar a Terra da Alegria de ontem (que por acaso merece leitura). Como já dissemos há umas semanas, a bloga (desculpem mas um blog não pode ser masculino de forma alguma) tem andado calma. É o que dá jogar em muitas frentes. A última que me saíu na rifa foi falar a um grupo de estudantes do 12º ano sobre Telecomunicações. Consegui convencer um ou dois a seguirem Engenharia Electrotécnica, por isso não deve ter corrido assim tão mal. O mérito não é meu, é do senhor Maxwell e de outros tais. Por isso, e como não costumo falar de Deus por estas bandas, aqui vai disto:


6.6.05
terra da alegria
A edição das segundas, como a das quartas.

1.6.05
terra da alegria
A edição das quartas, em força.

ainda o "Não" francês
Francisco Sarsfiel Cabral analisa as consequências do voto francês:

«A rejeição do tratado tem outros e mais graves efeitos. Envenena ainda mais a negociação sobre os dinheiros da UE. Se antes eram ténues as esperanças de aumentar o orçamento comunitário para apoiar a integração dos novos, e mais pobres, Estados membros, essas esperanças são agora nulas. Aliás, o processo de alargamento parou. As portas da União vão fechar-se à Roménia, Bulgária, Croácia, Ucrânia e - sobretudo - à Turquia. Essa é uma das mensagens do "não", em França e na Holanda.
Relançar a integração europeia após este revés é tarefa impossível com os actuais líderes da União. O mais que deles se pode esperar é que tentem evitar a desagregação de muito do que já se conseguiu.
»

os argumentos do "Não"
Não assisti desde o princípio ao debate sobre a Constituição Europeia, ontem à noite, mas do que vi os argumentos de Pacheco Pereira pelo "Não":

1. na Europa os estados não se entendem;
2. a Constituição serve para obrigar os estados a entenderem-se;
3. a Constituição é má.

Outra leitura:

1. na Europa os estado tentaram entender-se ao ponto de chegarem ao tratado constitucional;
2. a Constituição serve para caminhar no sentido de haver mais entendimentos entre os estados;
3. a Constituição é boa.

À parte ser sintético, acho que retrata bem os argumentos mais insitentes do "Não". Também podemos e devemos discutir os vários aspectos bons e maus da constituição e as questões de forma e nomenclatura (em que Jorge Miranda insistiu), mas isso parece não interessar a Pacheco Pereira, que logo diz que o "Sim" está a querer marcar a agenda do debate e a apagar a política da discussão... Se não é para discutir este tratado, então é para discutir o quê?

VII Feira de Expressões Artísticas de Carnide
Começa hoje e dura até sábado a 7ª Feira de Expressões Artísticas de Carnide com o tema geral "Os Medos". É o meu projecto de final de estágio pela Junta de Freguesia e realiza-se no Jardim da Luz (em frente à Igreja da Luz e ao Colégio Militar).

É uma feira dividida em ateliers (pintura, capoeira, magia, dança criativa, etc), stands (onde as instituições locais mostram o trabalho feito ao longo do ano) e animações (um palco com teatro, música, etc).

Estão todos convidados a vir visitar-nos, vale muito a pena!

Horários:
1 e 2 de Junho das 10h às 19h
3 de Junho das 10h às 20h
4 de Junho das 14h às 22h

Espero ver-vos por lá!



HaloScan.com

presentes

passados

outras conversas

ferramentas