15.5.05
"por um catolicismo como o mundo moderno espera"
Ainda aqui não fiz referência à intervenção de João Lobo Antunes num congresso integrado nas iniciativas do Patriarcado de Lisboa sobre a nova evangelização. Agora que me rendi ao capitalismo da imprensa e me tornei assinante do "Público online", não hesito em partilhar convosco:

«Aqueles que, como eu, vão entrando no Outono da sua existência não podem deixar de olhar com natural perplexidade para este mundo em que vivem e interrogar-se sobre as razões por que não é este um tempo de celebração das vitórias que pareciam afinal estar tão à mão: o triunfo sobre ignorância com as armas de uma educação que as novas formas de comunicar deveriam levar a todos; o triunfo sobre a doença com o progresso quase mágico de armas que curam ou previnem os males do corpo; o triunfo sobre a fome com as novas engenharias capazes de produzir alimentos para todas as bocas do mundo; o triunfo sobre a pobreza com a distribuição equitativa da riqueza gerada pelas economias mais robustas; o triunfo sobre os totalitarismos com a extinção das ideologias que os sustentavam; o triunfo sobre a violência com a compreensão dos mecanismos sociais que a fazem nascer; o triunfo sobre o enfado com a multiplicação das formas de entreter; o triunfo sobre a monotonia do quotidiano com a imaginativa explosão da criação artística; o triunfo sobre o desleixo com que se cuidou do planeta pela intervenção avisada dos ecologistas; o triunfo sobre a guerra pelo apelo dos povos que a sentiram na carne durante todo um século.
E contudo este não é o melhor dos tempos para o espírito dos homens. A atitude confortável é dizer simplesmente que, por razões múltiplas e complexas, tudo isto resulta de uma crise de valores morais que alguns consideram resignadamente como consequência inevitável da "modernidade".
Assim se proclama o anátema da decadência espiritual de uma sociedade chamada depreciativamente técnico-científica, que cobre um novo bezerro com o ouro do êxito, do poder, do dinheiro, da exaltação da vida e do sucesso.
E de facto, parece evidente que todas as conquistas que poderiam ter levado ao triunfo incontestável sobre tantos males da civilização não foram acompanhadas de um progresso moral correlativo, e, mais do que isso, é mais tímida a afirmação dos valores de morais tradicionais em que fomos educados, e mais envergonhado o testemunho de uma cidadania na tradição cristã ocidental. E a própria Igreja não permaneceu incólume, abalada por escândalos que revelaram as chagas da sua pobre humanidade, ou pela ofensa de um silêncio quando a história parecia reclamar um grito.
É certo que o Concílio Vaticano II veio criar a esperança de uma renovação que permitia novas formas de intervenção pastoral, mas que não terão sido cumpridas na largueza que o tempo parecia exigir, em parte porque a hierarquia eclesiástica lhes não terá dado curso mais livre, em parte porque os leigos católicos não terão acorrido à chamada.
Quem, como eu, foi educado numa cristalina ortodoxia, foi-lhe explicado que a salvação da alma seria sempre numa luta solitária com o anjo, mas que seria imperdoável fugir ao testemunho de uma vida em que se entrelaçam valores intelectuais e morais que permitiam pagar a César o que lhe era devido, porque compreendíamos, como dizia Maritain, que nada era mais importante para a liberdade das almas e para o bem dos homens que a distinção dos dois poderes.
Parece hoje que apenas pagamos a César, e que já não são nossos os mártires. Se a Igreja tem decerto uma voz mais activa na intervenção política, e se se verifica o que se poderia chamar uma globalização do poder Papal, na afirmação vigilante da solidariedade e da justiça, a Igreja não se pode afastar das reais questões da sociedade do nosso tempo, a sua voz não pode ser débil quando interpelada pelas consciências inquietas, nem frágil e fragmentada a intervenção dos católicos, nem retrógrada a sua posição em relação aos desafios contemporâneos da ciência e da técnica. É que a Igreja surge por vezes como uma força que parece travar e não iluminar, como se a revolução científica a apanhasse de surpresa, e a sua resposta fosse tardia e inadequada. De facto, o progresso científico criou saberes e tecnologias cuja aplicação parece desafiar uma ordem moral sedimentada ao longo dos séculos, e a Igreja tem de desembaraçar o complexo novelo da modernidade. O próprio Papa João Paulo II reconheceu a importância destas questões e na encíclica Fides et Ratio advertia que "o movimento filosófico contemporâneo exige o empenhamento solícito e competente de filósofos crentes".
É também claro para mim que há verdadeiras diásporas no seio da comunidade dos crentes, gente que labuta como formigas cegas, perdida num labirinto sem sentido, gente a quem o rigor dos cânones obrigou a afastarem-se dos sacramentos que foram fonte de consolo durante toda a vida, gente que busca o equilíbrio tão difícil entre a beatitude e a justiça. E os críticos mais severos afirmam: guarde-se a fé, mude-se a Igreja.
Parece-me evidente que este mundo exige um catolicismo como uma nova força revitalizadora, aberto à comunicação com todos, atento à ciência e à técnica, e consciente de que continua a ser uma duradoura e consistente força do progresso moral e social dos povos, e, por isso, a si mesmo chamou sal da terra e luz do mundo. E talvez não seja preciso ir muito mais longe; talvez baste apenas recordar a serena mensagem do Sermão da Montanha, que mantém a sua perene modernidade, neste tempo tão interessante de viver.
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