4.5.05
Parabéns a você - QUATRO
FUTUROARMA

Que o futuro tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o futuro cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o futuro esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o futuro invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o futuro corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o futuro se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês

Que o futuro se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o futuro cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o futuro seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o futuro seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.

Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas.
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas.

Que o futuro assalte esta desordem ordenada
que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!
Que faça ginástica militar aplicada
e não vá como vão todos para França.

Que o futuro fique. E que ficando se aplique
a não criar barriga a não usar chinelos.
Que o futuro seja um novo Infante Henrique
voltado para dentro. E sem castelos.

Que o futuro vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o futuro vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o futuro faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar.

Que o futuro diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o futuro diga: o longe é aqui.


Manuel alegre. In: O Canto e as Armas

nota: "convirá dizer que no poema original Manuel Alegre escreveu POEMA onde eu alterei para FUTURO"

Enviado por José Carlos Patrício.



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