21.5.05
O truque
"O gringo subiu no morro e bebeu cachaça. Fumou maconha e obteve a graça. Depois do samba nunca mais a sua vida foi a mesma" (Marcelo D2)

Quando andrajava triste ou sem saber por onde ir raramente parava para pensar, seguia em frente. Ia rosto baixo que em pequenos passos começava a olhar para o alto. Distraído e entretido a olhar deixava lentamente o pensar vir ao de cima. Acreditava que pensar era para os atrevidos e media nessa curiosidade as inteligências das boas perguntas. Não fora feito para pensar, sempre fora do sentir. No sentir era simples acreditar nele: bastava-lhe recordar-se dos pais já mortos. Filho de quem era não podia ser grande estupor e sabia que no amor deles lhe estava prometido qualquer coisa. Dessa identidade do "sou filho de" tinha tido sempre medo, sempre tinha tentado demarcar-se disso por isso mesmo. Agora que os tinha enterrado aceitava melhor o "sou filho de": estava grato pela vida que tinham tido. Havia uma foto guardada no seu caderno das recordações, nela eles estavam jovens namorados, ela de tranças e ele de barba comprida. A foto fora tirada ainda antes de ter nascido. Quando olhava para ela onde estavam os dois com olhos vivos de paixão sabia-se importante: nele, eles eram imortais. Imortais como ele só era nos amigos.

Solto e sozinho, deixara de andrajar triste e parara para pensar.
Era nisto que ele se embriagava quando subia ao morro sempre a direito, nos outros e nele. Para onde ia? não sei.



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