4.5.05
o presente da Igreja
«Li com muito interesse, a sua reflexão de hoje [ontem], na Terra da Alegria. Fala do Futuro da Igreja. Se a mim não me inquieta muito o seu futuro, o mesmo não digo do presente. Incluo-me, no grupo dos cristãos, que sentiram uma amarga desilusão com a escolha deste papa.
É claro, que acredito no Espírito Santo e creio que Ele continuará sempre presente na Igreja. Mas isso não nos descarta, a nós, das responsabilidades e das opções que tomamos. Já sabemos que o agir de Deus, sendo mistério, não deixa de nos convocar, continuamente, para sermos operadores da nossa história.
Para mim, ouvir hoje, em 2005, dizer que foi Deus que escolheu, este ou aquele papa, está na ordem da heresia. É um conceito muito forte, admito, mas é o que sinto. Eu, olho para aquela eleição, e vejo uma quantidade enorme de gente, acomodada aos ritos, à ortodoxia, ao legalismo, etc., etc.
Dizia em cima, que não me preocupa o futuro da Igreja. Não me preocupa, porque olhando para toda a história do Povo de Deus, e, para a minha história pessoal, vejo como Deus está presente e nunca nos abandona. Mas, também vejo que de todas as vezes que lhe voltamos as costas, e há muitas maneiras de o fazer, perdemos o sentido e o rumo. Dizemos que vamos para Deus e vamos mas é à procura dos nossos "aconchegozinhos".


M. Conceição

Mais leituras: Deus não escolheu Ratzinger, José María Vigil (teólogo)

Também a mim esta eleição deixou descontente. Afirmá-lo não é pecado nenhum. É uma questão de cidadania. Não devemos desanimar: "importa não esgotar a esperança cristã com a autoridade de humanos eleitos por seres humanos".
Dito isto, também me preocupa o presente. O futuro é o presente a acontecer. E aí os sinais são pouco animadores. Parece que ainda continuamos à espera que o Espírito Santo resolva os problemas duma Igreja que insiste que a falta de vocações é um problema do mundo, uma Igreja que continua a rezar por si própria e a discutir demasiado os seus problemas, sem perceber que o necessário é deixar que seja o mundo a marcar a agenda. Mas há execepções — bastantes — que nos mantêm empenhados.
Eu percebo, ou melhor relativizo o que D. José Policarpo dizia no início do conclave quando afirmava que "Deus já escolheu o sucessor de João Paulo II mas quer que a sua escolha se exprima na nossa". O intuito era sobretudo colocar nas mãos de Deus a opção com que os cardeais se confrontavam. Porém, dizer que o que saiu dessa eleição foi directamente inspirado pelo Divino é heresia. O discurso do D. José não é pastoralmente muito correcto, já que leva a interpretações abusivas e confusas. Mas mais importante é que o próprio processo de eleição é pouco evangélico. Os primeiros cristãos escolhiam entre si quem presidiria à comunidade — a ordenação não começou por ser uma opção pessoal, mas uma interpelação da comunidade.



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