30.5.05
a Europa de molho
O "Não" ganhou. Não há volta que se lhe dê — depois do Não fica menos Europa. Fica a Europa de molho, sem saber bem para onde se há-de virar:

«Os dilemas pela frente não são fáceis de resolver e, desta vez, a construção europeia não deverá seguir a "regra da bicicleta", isto é, o princípio de que é mantendo-se em movimento que se evita a queda. Porque desta vez os problemas não podem ser resolvidos com um novo salto em frente.
O que o referendo, mas sobretudo o debate francês revelaram é que existem visões diferentes sobre o futuro da Europa que são cada vez mais difíceis de conciliar. Grande parte dos franceses que votou "não" fê-lo contra a Europa "neoliberal". Grande parte dos ingleses que deveriam de votar o Tratado Constitucional temem, em contrapartida, os excessos de regulação da Europa continental. Os franceses estiveram contra as deslocalizações e a livre circulação de trabalhadores, algo que os países mais pobres do Leste europeu desejam. Os franceses receiam que um dia a Turquia faça parte da União Europeia, mas que sentido fará esta se não reconhecer os esforços dos turcos para adaptar a sua economia e o seu regime às exigências que lhes têm sido feitas?
»
(José Manuel Fernandes no editorial de hoje do "Público")

Eduardo Lourenço vai mais longe: «A França que certamente votará "não" na noite de 29 de Maio, não vota nada contra a Europa, mas contra si mesma, num "remake" suicidário que só tem paralelo simbólico na "débacle" de 1940. Claro que nem os tempos são os mesmos, nem esse espúrio gesto revolucionário, com que está sendo vivido em França a campanha do "não", retirará agora a pátria de Victor Hugo da cena da Europa. Será apenas uma grave e dramática paralisia do sonho europeu para quem o tem mal sonhado durante os últimos cinquenta anos. Será, sobretudo, uma vitória à Pirro para a mesma França que imagina que o seu "épico" sobressalto lhe poupará a crise de identidade clamorosa e inédita que está vivendo há muito. Em grande parte pela sua incapacidade de se situar no novo contexto mundial de hegemonia norte-americana, mas também de se pensar em relação a essa Europa da sua invenção mas não tem sua como histórica e idealmente a sonhou.»

Apenas uma grave e dramática paralisia do sonho europeu, enquanto a França resolve a sua crise de identidade. Resta-me partilhar a fúria de Ana Gomes: «Andei por França, nos debates pelo OUI de 23 a 26 deste mês. E quis convencer-me que a inteligência, o bom-senso, o pragmatismo, o europeismo, o sentido da História dos franceses acabariam por vencer.» E volto a Eduardo Lourenço:

«Por falta de confiança em si mesma, sem saber contra quem deve voltar-se, a França exorciza o seu pânico retirando-se do jogo europeu que ela própria inventou e sustentou. É possível que acorde - e depressa - desta euforia paranóica pseudo-revolucionária aberrante no conteúdo e surrealista na forma, com Le Pen e a senhora Buffet [secretária nacional do Partido Comunista Francês] - como nos velhos tempos do pacto germano soviético - de mãos dadas e com o suplemento da bênção dos que já esqueceram o Congresso de Tours. Nós, não. Esperamos que a "débacle branca", o balde de água fria do "não" francês, seja para a Europa adormecida nas suas ilusões, menos um futuro pesadelo anti-europeu que um começo de um repensamento da mitologia europeia que tem presidido à construção empírica e aleatória da Europa.»



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