14.4.05
Parabéns a você - UM
“Enchamos tudo de futuros” é uma expressão bem estranha, sempre achei desde que a li. Se vocês me puxam pela imaginação, a questão é saber o que é que isso pode querer dizer.
A primeira hipótese, que talvez se pudesse pensar à primeira vista ser a vossa, é que o futuro é sempre uma coisa boa, e que portanto se quer que tudo seja bom, cheio de futuro. Como quando se diz de alguém a quem se reconhece qualidade: ‘este ou aquela tem futuro’. Mas para ver que não é assim, basta pensar noutra expressão um pouco maldosa, que no meu tempo se usava muito, agora não sei, quando se dizia com um sorriso irónico: ‘continua assim, que vais ter um lindo futuro’. Além do sorriso, também o ‘lindo’ era irónico e dizia o contrário, um mau futuro. Não é preciso ser muito velho, ter muito mais passado do que futuro, para se saber que o futuro não é sempre bom. Aliás acaba sempre na morte.
Então, para tentar perceber a vossa divisa, busquemos doutro lado, noutra expressão: ‘o futuro a Deus pertence’. Se não quer dizer que seja sempre bom, as tragédias bem o mostram, a do maremoto do 26 de Dezembro é das últimas que mostra que Deus não é sinónimo de ‘tudo bom’: como dizia o filósofo Lévinas, Deus tem mais a ver com ‘encher-nos de bondade’ do que com ‘encher-nos de coisas boas’. O que será então? Que o futuro ninguém o conhece, ainda que seja profeta. Aqui chegamos a uma melhor perspectiva: é que é talvez, falando um pouco depressa, uma das melhores coisas do mundo; outra é que ninguém possa ler o nosso pensamento. Ambas são essenciais ao que chamamos liberdade.
Mas se é bom não conhecer o futuro, também tem inconvenientes: seria terrível que nunca tivéssemos certeza nenhuma sobre o que vai suceder naquilo que fazemos a cada momento. Para contrabalançar esse risco, os humanos desde sempre que inventaram aquilo que nos torna humanos: as receitas, aquilo que se aprende. Desde a fala até à culinária, aos remédios e tratamentos, às técnicas todas, o saber que se aprende é para se ‘saber fazer’ numa dada situação com grande probabilidade de sair bem (savoir-faire, como dizem os franceses, ou know-how, à inglesa). Misturar farinha, água, sal, fermento em certas proporções, fazer uma boa massa e levar ao forno durante um certo tempo, quando se já tem algum treino, permite quase sempre fazer um bom pão, sem que seja necessário rezar a Deus para que isso aconteça. As receitas são para repetir, as respectivas aprendizagens são coisas óptimas, facilmente aprendemos novas que nos são muito úteis, até o caminho para ir a tal ou tal sítio: acautelamos o futuro, mas não é isso com certeza que vos interessa na vossa divisa, mas um pouco o contrário da repetição, o incerto, o tal futuro que ninguém conhece que a Deus pertence. Uma prova disso é que quase toda a gente gosta de jogos, e os jogos é uma das coisas em que, por um lado se aprende e se treina bastante, mas também em que não há receitas. O que é próprio de um jogo é que, embora haja jogadores melhores uns do que outros, nunca nenhum, nem nenhuma equipa, está certo ou certa de ganhar, tem que se esforçar constantemente, do princípio até ao fim, para o conseguir. E pode não conseguir: mas todos os seus minutos estão cheios de futuro.
De tal maneira são assim incertos, que são considerados coisas ‘não sérias’, fora da vida habitual, da vida útil como se diz dos dias que vão de segunda a sexta, divertimentos, espectáculos, passatempos. E então eu chego ao que eu julgo que vocês querem dizer com a vossa divisa: que a vida, em tudo o que ela tem de útil, e apesar das necessárias cautelas que são as inúmeras receitas que constantemente aprendemos, seja um jogo permanente, em que haja risco frequente, que puxe por nós, nos estimule, nos ‘encha’ (sem nos ‘inchar’). Como naqueles desafios apaixonantes em que se sofre muito e enfim se ganha. Ou se perde.
Acho que é uma divisa muito corajosa. Boa sorte.

Fernando Belo



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