16.4.05
Parabéns a você - DOIS
Pode alguém ser quem não é?

“Fez-me mergulhador e viajante, ensinou-me que só o olhar não mente e que todo o real é verdadeiro.”
(Miguel Sousa Tavares sobre a sua mãe Sophia)

Woody Allen no seu filme “Holywood Ending” conta a história de um realizador de cinema que, perante o facto de ter uma cegueira (ainda que psicossomática), esconde a sua deficiência com medo que isso fosse estragar a sua carreira de realizador e o lançasse na miséria. Assim, esse realizador faz-se passar por uma pessoa que vê e realiza o seu filme cego, sem nunca revelar a sua verdadeira condição. No final, o filme foi alvo de duras críticas mas acabou por ser elogiado por críticos franceses, pelo que o realizador tem a sua carreira assegurada (entretanto já recuperara a visão). Neste filme, Woody Allen caracteriza muito bem a postura de algumas pessoas perante a deficiência, que fazem tudo para a esconder, justamente por medo do miserabilismo (nomeadamente nos casos de deficiência mental) principalmente porque na generalidade dos países (e Portugal não foge à regra) os cidadãos com deficiência têm muitos poucos apoios. A história de Woody Allen tem um final feliz, pois trata-se de uma comédia, mas na vida real em geral isso não acontece, pois a realidade é bem mais dura. Foi o que aconteceu em França em 1993. Um jovem estudante de medicina, uma vez adormeceu e faltou a um exame. Foi este o pormenor. Filho de uma mãe frágil que ele não queria decepcionar e de um pai muito exigente que ele devia satisfazer, mentiu aos pais e disse que tinha passado no exame. E assim se passou com todo o resto dos anos: disse aos pais que tinha passado e tornou-se para os pais médico e investigador da Organização Mundial de Saúde. Tudo falso, obviamente, ele passava os dias em negociatas duvidosas com amigos, sentado no carro à espera que o tempo passasse. Depois casou-se e teve dois filhos, sem nunca revelar a ninguém a sua verdadeira história. Viveu esta vida dupla durante 18 anos. Ao fim de 18 anos, planeou o seu suicídio e um vídeo onde contava toda a verdade. Mas não foi isso que acabou por fazer. Assim que percebeu que a verdade estava prestes a eclodir, em vez de pedir ajuda, incapaz de enfrentar as pessoas mais próximas e de quem mais gostava, matou os pais, a mulher e os dois filhos, para depois fazer uma tentativa falhada de suicídio. No fim, foi condenado a prisão perpétua. Esta história foi depois imortalizada em livro por Emmanuel Carrère e em filme por Nicole Garcia sob o título “O adversário” (“L’adversaire” no original). Eu vi o filme e li o livro. Posso dizer que foi dos filmes mais deprimentes e mais impressionantes que eu já vi em toda a minha vida. O livro também não lhe fica atrás. Fui ler o livro para tentar perceber o que se passa na cabeça de uma pessoa que comete um acto desses. Confesso que a minha curiosidade não ficou totalmente satisfeita.
Emmanuel Carrère escreve a determinada altura: “Jean-Claude sabia que a única solução lógica para a sua vida seria o suicídio”. Não posso aceitar uma afirmação destas. Desde quando é que o suicídio é solução para quem quer que seja?! Há sempre uma solução alternativa à morte, uma solução de vida. O erro e o azar de Jean-Claude foi nunca ter pedido ajuda a nenhum especialista. Infelizmente, esta é uma posição que muita gente adopta.
O que Emmanuel Carrère não escreveu e devia ter escrito é que as pessoas matam quando estão convencidas de que têm a razão do seu lado. Como escreveu Eduardo Prado Coelho no “Público” sobre o caso francês: “O que é estranho não é que uma borboleta em Pequim possa provocar um tufão em Nova Iorque. O que é estranho é que as pessoas vivam de tal forma as suas existências exíguas que estejam dispostas a desfazê-las e a liquidá-las por uma manhã na cama ” (citação evocada de memória).
Por fim, faço aqui um apelo: se conhecerem alguém que não assuma a sua deficiência ou que tenha uma vida dupla, convençam-no a procurar ajuda junto de especialistas antes que aconteça mais alguma tragédia. Porque não há nada pior do que a mentira. Porque só a verdade liberta. Como confessou posteriormente Jean-Claude:“Nunca na minha vida fui tão livre, nunca a minha vida foi tão bela. Sou um assassino, tenho a imagem mais baixa que pode haver na sociedade, mas tudo isso é mais fácil de suportar do que os anteriores vinte anos de mentira.” Esclareço: ninguém é obrigado a assumir uma deficiência. O que não é justo é que terceiros paguem por tabela os erros dos outros.

Clara Belo



HaloScan.com