14.4.05
Música para os meus ouvidos


Temos música, não sei é se temos Casa!

Tiro o palito da boca e inspiro fundo…
Casa que se constrói torta nunca mais se endireita, já outras direitas tornaram-se tortas. Caso paradigmático, o da torre de Pisa. Não vou questionar formalismos, estejam descansados, pois a expressão do belo só em Portugal é que não é questionável ou não tivéssemos todos nós uma costela de “pato-bravismo”. É incrível como todo o processo da concepção do projecto até à sua construção é indiscutivelmente reflexivo da nossa vivência do portuguesismos saloio e rural.
Saco da pedra e afio a faca…
Não é questionável um concurso desta envergadura pelas suas exigências de prazos de concepção apenas tenha quatro propostas para análise final, devido a seis desistências. O projecto vencedor, para além de na sua génese destruir a leitura urbana de escala e carácter da Rotunda da Boavista evidencia de um protagonismo exacerbado que a rotunda na sua génese não necessitava. Mais, um projecto que antes era uma habitação unifamiliar para um jovem casal que se divorciou, agora é a sala de espectáculos mais famosa do país. Com sorte o mesmo projecto podia ter sido o centro de mesa da sala de reuniões da nova embaixada da Holanda em Berlim. Todo e qualquer processo de concepção de formas de artes, desde Marcel Duchamp, é difícil de questionar. Não estamos a falar de rodas de bicicleta sobre bancos de cozinha, mas sim de um equipamento com um custo elevado que tem como fim a optimização e rentabilização do uso dos espectadores. Um edifício que se rendia pela transparência ao abrigo das exigências dos prazos estabelecidos dotou-se de betão branco, branco de mais para rotunda tão taciturna.
Estendo o braço e lanço a faca …
Aquilo que de interessante se revia no edifício, eram as relações que os auditórios constituíam com a envolvente. Se por um lado o pequeno auditório nem com a abertura no edifício de Ginestal Machado consegue realizar tais relações. O grande auditório que no alto da sua imponência em tosco enquadrava com brilhantismo o leão da rotunda, agora apresenta vidros ondulados (interessantes mas pouco eficazes para o efeito) que não aproveitam a luz natural e disformam a "fotografia" que se tinha do exterior da rotunda.
Quanto aos interiores deixo para outras facadas.

Contudo não poderei deixar de dizer que entendo o edifício como uma obra extraordinária da nossa arquitectura contemporânea, mas que nem o país nem a cidade do Porto necessitam. Um edifício pósmodernista que marca um tempo que ainda não é nosso…



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