18.4.05
Eu fui ao fim do mundo
O que mais deixei para trás, em cada viagem que fiz, foram os amigos que não voltei a ver. Amigos verdadeiros, instantâneos, instintivos, amigos do peito, para toda a vida. Cá dentro, sou um português macambúzio, fechado sobre si mesmo, frequentemente de mal com Portugal e com os portugueses. Lá fora, sobretudo quando viajo sozinho, sou um homem novo, sem país, sem destino, sem passado nem futuro: apenas o tempo que passo. E assim, porque sou verdadeiramente livre e desconhecido, acontece-me frequentemente tornar-me íntimo de pessoas que acabei de conhecer há meia dúzia de horas. Tudo é genuíno e generoso nesses encontros e, quanto maiores são as diferenças, mais evidente se torna o que é essencial nas relações entre as pessoas. Não esperamos nada dos outros, apenas o privilégio de viajar juntos, beber uma cerveja juntos, ficar à conversa por uma noite adiante.

Miguel Sousa Tavares, Sul


Muitas vezes tenho pensado no que é viajar. Oiço relatos, oiço as pessoas falarem de locais que não conheço, encontro livros que falam de aventuras extraordinárias. Sou um bocado teimosa, é um defeito, e penso muitas vezes que preciso mais de aprender a viajar em mim, aprender a viajar nos outros, saber reviver a minha cidade, saber reconhecer sinais de esperança e de desventura em mim mesma e em quem passa por mim, principalmente em quem fica. Uma conversa com alguém pode ser uma viagem sem destino, sempre novidade. Um passeio por um local que conheço e que assim me acompanha no pensar em quem sou, nas coisas que me fazem ser gente e em que formas fazer com que outros sejam pessoas e se sintam, quem sabe, mais aconchegados comigo.


David Plowden

A viagem com uma mochila pequena, uma muda de roupa, um caderno, uma máquina fotográfica manual, um livro, um canivete também me encanta. Nenhuma ideia de viagem, para mim, pode prescindir de praças, terraços, varandas, esplanadas, nem que seja um simples monte de areia. (Também diz o Miguel). E eu posso acrescentar Pessoas. Sim, a fuga dos hotéis, a fuga da facilidade dos locais a que toda a gente vai, a fuga dos roteiros organizados por empresas que não deixam as pessoas OLHAR para o que visitam.

Por enquanto viajar ainda é uma dificuldade porque não tenho o meu dinheiro e assim vou viajando nesta descoberta infinita que são as pessoas. Tenho descoberto quantas ideias erradas se pode ter. Principalmente aquelas "muito certas e absolutas". Às vezes encontramos grandes teorias para as explicar e falta-nos OLHAR para elas. Únicas. Lá está a viagem outra vez.

Nota: o título é da música: Espalhem a notícia, Sérgio Godinho, que continua depois muito bonita.



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