25.3.05
Beatniks - os vagabundos da estrada.

legenda: Portrait of Jack Kerouac w/ Bohemian Manual in Pocket, 1953, Allen Ginsberg

Pergunta-me o Zé Filipe "O que raio é isso de beatnik?" Não sei o bastante para ser rigoroso no conceito, mas vou pegar no que sei. Os Beatniks foram um movimento dos anos 50 nos EUA reconhecido pelo movimento Beat, que foi suficientemente importante para ser estudado em alguns manuais de Introdução às Ciências Sociais actuais.
Movimento boémio, espanta-me que o seu nome não seja mais reconhecido por tantas pessoas das novas gerações que, se fossem enquadradas nos anos 50 americanos, seriam certamente apelidadas de Beatniks na sua forma de viver. Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs e o seu encontro são os grandes fundadores deste movimento.

Falam de liberdade e da beleza da estrada "de ir pela noite dentro em estradas desertas com os faróis do carro a engolirem as marcações do centro da estrada de forma tão rápida como a velocidade do carro, a beleza que isso tem só é comparável à liberdade de poder fazê-lo" (cito de cor). De uma solidão do viajante só própria da amizade, das boleias como método para ir sem destino, ir apenas pelo mundo; do Jazz (na altura o livro levou-me a comprar cd's de Charlie Parker) do sexo, do alcoól e das drogas como fontes de libertação. A vida intensa é o seu princípio primeiro e único e talvez sejam eles os precursores do que veio a ser o movimento hippie.

Jack Kerouac e o Pela Estrada Fora é o que conheço melhor:

Jack Kerouac: "Jean-Louis Lébris de Kerouac, Jack para o mundo, não foi o único derrotado na vida e vitorioso na criação literária. Essas contradições, impasses e paradoxos não são apenas um drama pessoal. Sua obra, por mais particular que fosse, também é universal, espelho de todos nós. Em cada um de seus leitores está, talvez adormecido, o beat aventureiro e o adulto que deseja recuperar a infância."(...) "Para as adolescentes ele foi o Poeta Louco, o primeiro amor que nunca esqueceram, com a sua conversa sobre boleias em comboios de carga e carros, estrada fora. Kerouac criou um herói de estilo moderno em Pela Estrada Fora; inventou a Geração Beat, originou um estilo de viver e um estilo de escrever"

Pela Estrada Fora: "A primeira exploração da prosa romântica americana desde Hemingway, cheia de louca comédia sexual, de belas passagens de viagens e longas evocações líricas da infância da América e memórias de adolescência." "Energia poética espontânea... celebrativa e desafiadora."

Espero que compreendam agora porque falei em "transtornar" no pequeno post anterior sobre Kerouac. Para um adolescente esta forma de viver a vida suscita questões e dá que pensar.

nota: desta vez não peço desculpa pela resposta aos comentários em forma de post. É que a caixa de comentários para certos assuntos parece-me pequena.

Boa Páscoa
II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

XIX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.



Três partes do poema “Uma didática da invenção” de Manoel de Barros, a parte VII foi-me oferecida por uma amiga a desejar a Boa Páscoa, as outras escolhi-as eu. Boa Páscoa!

24.3.05
fazes-nos falta


Asas de anjo penduradas na parede
esta constante sensação de ter sede...


Já há três anos que nos deixaste. Reli recordações, abri fotografias, recordei momentos, sorri-me com sorrisos teus. Chorei.

«Mas dir-se-á: Como ressuscitam os mortos? Com que corpo regressam? Insensato! O que semeias não volta à vida, se primeiro não morrer. E o que semeias não é o corpo que há-de vir, mas um simples grão, por exemplo, de trigo ou de qualquer outra espécie.(...) Nem toda a carne é a mesma carne, mas uma é a dos homens, outra a dos animais, outra a dos pássaros, outra a dos peixes. Há corpos celestes e corpos terrestres, mas um é o esplendor dos celestes e outro o dos terrestres. Um é o esplendor do Sol, outro o da Lua e outro o das estrelas, e até uma estrela difere da outra em esplendor.»

Há estrelas que brilham mais... já sabíamos.



«Assim está escrito: o primeiro homem, Adão, foi feito um ser vivente e o último Adão, um espírito que vivifica. (...) Vou revelar-vos um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados; num instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final - pois a trombeta soará - os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados (...). Então cumprir-se-á a palavra da Escritura:
A morte foi tragada pela vitória.
Onde está, ó morte, a tua vitória?
Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
»

"Morte!
Onde estás ó morte?!"
Assim cantou o cântico ousado aquela mãe. Continuamos a não acreditar no vazio, embora ele se tenha de súbito instalado num pedaço de todos nós. Releio as metáforas de São Paulo. E os poemas da Rita.

«Saber esperar o que já veio
Saber ter o que há-de vir
é mais do que pôr uma
esperança desmedida no futuro
e ir saboreando o hoje
e o amanhã...

Saber ter olhos para ver o invisível,
e ouvidos p'ra escutar
o que ninguém nos diz,
mas nós queríamos tanto...
Vale a pena sorrir
Quando o que esperam de nós são lágrimas
Vale a pena ver o pôr-do-Sol
e pensar na próxima manhã.

Enchamos tudo de futuros
como se eles espreitassem
das nuvens, ou estivessem
à nossa espera para nos dizer
bom dia e para esperarem
até chegarmos lá.

Vale a pena acreditar nos sonhos
e palpá-los, mais do que numa esperança vã!
»

Incrível como Ela continua a fazer parte das nossas vidas, não é?

Kerouac


À procura de uma imagem que acompanhasse o próximo post encontrei Jack Kerouac e lembrei-me de como me transtornou, e suscitou conversas empolgantes, há uns anos atrás a leitura do seu livro (de culto na filosofia beatnik) On the Road (Pela Estrada Fora). Livro que aconselhava aos amigos na altura; aconselho-o agora a vocês, amigos.

Million Dollar Baby
É difícil aqui respeitar quem ainda não viu o filme. Mesmo assim tentarei fazê-lo (quem mais do que eu detesta que lhe contem um filme?)
Posso dizer que é um filme onde a dureza se transforma em delicadeza, sem que nunca nenhum destas sensações desapareça.
Há crueldade, sim, mas num jeito de filmar e de contar uma história que vai muito além do que é o mundo do boxe (que eu prefiro dizer que não compreendo).
Fica a noção de que todos os dias morre gente a fazer a tarefa repetida de toda uma vida, uma tarefa nunca desejada sem nunca encontrar a sua oportunidade. Onde podemos encontrar a nossa oportunidade: "A magia de arriscar tudo por um sonho que ninguém vê senão tu." ?
Mo Cuishle. Só descobrimos no final.


Frankie Dunn (CLINT EASTWOOD) e Scrap (MORGAN FREEMAN) vale a pena ouvir com atenção.

HILARY SWANK tem o dom de ter feito dois filmes que marcam a minha vida.


boy's don't cry de kimberly peirce

Quando a morte é um acto de amor

Rámon Sampedro

Há 20 anos atrás a minha avó teve uma trombose que lhe paralisou o lado esquerdo do corpo e levou para a cama. Sempre lúcida, a minha avó esteve três anos nesse terrível sofrimento até morrer. Por muito que gostássemos da minha avó, quando ela morreu sentimos todos que tinha sido uma libertação para ela. Por isso, não consigo conceber que uma pessoa esteja 30 anos agarrado a uma cama sem se poder mexer (como foi o caso de Rámon Sampedro) ou que seja mantida em estado vegetativo durante 15 anos (como acontece com Terri Schiavo). Acho que em situações de sofrimento extremo, sem qualquer qualidade de vida, a pessoa em causa deve ter o direito de decidir sobre a sua própria vida/morte. Ou quando ela não pode decidir, decidam por ela. Tanto no caso de Rámon Sampedro, ou de Terri Schiavo, quem de facto gosta deles são aqueles que os ajudam a morrer dignamente e a acabar com um sofrimento sem sentido. Também no caso dos doentes com cancro em estado terminal, o estado de sofrimento e de degradação é de tal forma grande, que mesmo os familiares só desejam que esse sofrimento acabe rapidamente, para que finalmente a pessoa descanse e fique em paz.
Clara Belo



imagem do filme Mar Adentro com Javier Bardem (Rámon Sampedro) e Belén Rueda (Julia): duas interpretações geniais.

Texto recebido no nosso e-mail enviado pela leitora e comentadora Clara Belo. Aproveitamos por desafiar os nossos leitores a que, sempre que tenham vontade, enviem textos vossos que publicaremos sempre que o entendermos (sem compromisso). Teremos todo o gosto em contar com os vossos pensamentos escritos.

23.3.05
a Páscoa
É Páscoa na Terra da Alegria.


21.3.05
personalismo e transcendência


(Editorial do número 8 da revista "Egoísta", para apresentar o meu texto de hoje na Terra da Alegria)

bright moments
«Bright Moments is like hearing some music that ain't nobody else heard, and if they heard it they wouldn't even recognize that they heard it because they been hearing it all their life but they nutted on it, so when you hear it and you start popping your feet and jumping up and down they get mad because you're enjoying yourself but those are bright moments that they can't share with you because they don't know even how to go about listening to what you're listening to and when you try to tell them about it they don't know a damn thing about what you're talking about!»
(Rahsaan Roland Kirk)

Bright Moments is like when you're drivin' down the highway and you can't listen to your stereo because it's a shit stereo and no music will come out of it, so you decide to start singing something you haven't heard a long time ago, and you sing as lousy as your stereo would but even though all of a sudden the guys in the car start singing too just because they want to cheer up a little, and they sing as bad as you do, but you all keep doin' it until you crossed the damn country singing!


20.3.05
e Deus criou a mulher
Em fim de quaresma, nada melhor que um bocado de contemplação.

19.3.05
China
O crescimento económico da China, admirado e/ou receado por tantos parece fazer-se nestes moldes:

Em muitos locais da china o salário mensal dos operários é de 800 yuans (75 euros) por 10 ou 11 horas de trabalho diário e um dia livre por mês.
Não há lugar para conversar e a ida à casa de banho não deve ultrapassar os 5 minutos. Muitos assalariados de Quan An pernoitam nos dormitórios que a empresa tem num edifício anexo. Pagam 2 euros por mês num quarto infestado de mosquitos, no qual dormem seis a oito pessoas.
"Obedece e trabalha" parece ser a vantagem do trabalhador chinês, um pouco mais barato se for mulher. Quando há conflitos os líderes são presos por vários anos para servir de exemplo.
A transição económica permitiu retirar 250 milhões de chineses da pobreza nos últimos 20 anos.

Notas a partir revista Visão da última semana de Janeiro, artigo de José Reinoso.

O resto do mundo continua maliciosamente cúmplice.


17.3.05
Nós do Cinema


"O Nós do Cinema é uma organização não governamental que há três anos promove a inclusão social dos jovens de comunidades de baixa renda através do cinema e tecnologia."

"Além de criar novas oportunidades de trabalho e contribuir para a melhoria do rendimento escolar, O Nós do Cinema diversifica os olhares, revelando novos talentos, dando visibilidade e espaço para a produção juvenil. Outro objetivo é o enriquecimento do cinema através da produção de filmes feitos por esses jovens e a diminuição das barreiras entre classes sociais através de exibições em escolas privadas."

Quem viu o filme "Cidade de Deus" conheceu o trabalho que estes jovens fazem. Agora 3 deles estão em Portugal. Depois de Coimbra segue-se Lisboa. Apresentam uma longa metragem, um documentário e um episódio da série televisiva "Cidade dos homens".

Local: Escola Superior de Teatro e Cinema
DATAS: DE 16 A 18 DE MARÇO

Dia 16 de Março, 21h:

- Porto de Honra
- Making of de "Quase dois irmãos"
- Show de Semba (não é engano: é a raiz do Samba em África)

Dia 17 de Março, 14h:

- Exibição de "Vida nova com Favela" e "Crime quase perfeito"
- Debate

Dia 18 de Março, 18h:

- Exibição de "Quase dois irmãos"
- Debate

Dia 19:

- Festa

Com a presença de Luís Carlos Nascimento, Renato de Souza e Diego Baptista:


cultivo da semana
Apesar da seca, a Terra continua a dar frutos.

14.3.05
da liberdade
A edição de hoje da Terra da Alegria é pequena. Sou suspeito, mas acho que merece leitura:

«A liberdade tem muitos apaniguados. Os liberais consideram-se seus defensores acreditados. Mas os marxistas, contra quem combatem, pretendem preparar, em oposição àqueles, o verdadeiro "reino da liberdade" para lá das suas caricaturas. Existencialistas e cristãos colocam-na também no centro das suas perspectivas, embora a sua concepção não coincida, nem coincida com nenhuma das outras. Porquê tanta confusão? Porque cada vez que a isolamos da estrutura total da pessoa, exilamos a liberdade para alguma aberração.»
(Emmanuel Mounier)

11.3.05
silêncio
Hoje é dia de silêncio. Um minuto de silêncio ao meio dia, mas sobretudo um dia de silêncio.

10.3.05
Norte


Demónios interiores

Sentei à minha mesa os meus demónios interiores, falei-lhes com franqueza dos meus piores temores. Tratei-os com carinho, pus jarra de flores, abri o melhor vinho, trouxe amêndoas e licores. Chamei-os pelo nome, quebrei a etiqueta, matei-lhes a sede e a fome, dei-lhes cabo da dieta. Conheci bem cada um, pus de lado toda a farsa, abri a minha alma como se fosse um comparsa.
E no fim, já bem bebidos demos abraços fraternos; saíram de mansinho aos primeiros alvores, de copos bem erguidos brindámos aos infernos.Fizeram-se ao caminho sem mágoas nem rancores. "Adeus, foi um prazer!", disseram a cantar, mantém a mesa posta
porque havemos de voltar.

(Carlos Tê / Jorge Palma)


Chegam os leitores fartos das minhas taras à volta do Jorge Palma, alguns já satisfeitos pela minha desistência resistente em falar nele, olham para o blog confiantes e lá está ele de novo.
Pois é, voltei à carga com trejeitos de mauzinho remexendo na ferida: outro post sobre Jorge Palma. Violo o poema em prosa porque sim, sempre me soou mais a texto. É do Carlos Tê, esse endiabrado da escrita.

Buscando ao texto o vinho, tão sabedor na reunião de amizades, passo à analogia: aprende-se a gostar da música deste senhor Palma como do vinho tinto - tempero para uma boa refeição e criado sem sombra de dúvidas para parelha de um bom queijo - e enquanto o escuto bebo devagarinho.

O novo cd "Norte" embora já cá rode por casa há algum tempo entre a aparelhagem, o computador e o discman, como qualquer disco do Jorginho demorou o seu tempo, mas subtilmente, de mansinho, quase sem dar por ele ocupou o seu lugar ( um concerto no Olga Cadaval ajudou ao toque final ) e lá fui, felizmente, enganado outra vez; o disco tem-me feito companhia e da boa. Descaradamente diz-nos ele que completou o disco em cerca de 2 meses, mais coisa menos coisa...

Vá lá, deixem-se convencer, oiçam-no com tempo e calma para o deixarem entrar e ficar! A música que deixo é fabulosa em ritmo e jogo: adequa-se a mim aqui e agora.

quarta-feira
Quarta-feira foi ontem e houve Terra da Alegria. Destaco o texto do CC sobre a Igreja e as suas diversidades:
«Nesta grande mesa cabem o padre Mário Oliveira ao lado do Jardim Gonçalves, as beatas que adormecem na eucaristia encostadas aos católicos não praticantes (que nunca compreendi muito bem o que seja), os Jesuítas ao lado da Opus Dei, os católicos pró-aborto (sim, também há...) a par dos católicos anti-aborto, os muitos missionários e a Cúria Romana, os teólogos da Libertação entre os monges contemplativos e os párocos das grandes cidades.»

Mais adiante vem a confissão, que podia ser minha:
«(...) tenho muito mais facilidade em sentar-me ao lado de um católico distraído do Direito Canónico, do amigo Tiago, ou mesmo de um comunista ateu, do que perto de alguns dos meus (outros) irmãos.»

início de semestre
Um professor começou este semestre desta forma:

"O que eu espero de vocês é que, antes de começarem a estudar neurologia, tentem recuperar toda a confiança que vos foram tirando ao longo destes quase 4 anos. Tentem voltar aquela curiosidade e confiança no que podem gostar de aprender e descobrir, aquela com que entraram no curso."

É bom descobrir estes professores que nos dizem que sim, podemos aprender e fazê-lo com apetite e espanto. Que se disponibilizam para nos ensinar a qualquer hora do dia, basta aparecermos no serviço.
É bom descobrir professores, como outro que conheci hoje, que falam da matéria a sorrir, que dão gargalhadas quando se apercebem de uma momentânea falta de jeito sua.



David Plowden
Bathroom, Hotel Brooklyn, 1987

«otto e mezzo»


a solidão do artista


"queres falar mas não sabes o que dizer"


dois amores


nada toca tão pouco um artista como a crítica

"Qual é o meu papel? Conta-me tudo! — Conto depois."

a amante indiscreta


"como consegues mentir assim?"


uma educação pouco católica


confusão de quem não sabe amar?


o filme, finalmente


9.3.05
Um conto


entre um banho quente e um jantar gostoso soube-me bem esta história, fala da procura de nós próprios.

8 1/2 (1963) de Federico Fellini


Ontem conheci Federico Fellini neste filme, 8 1/2. Pergunto-me como se filma assim, praticamente todas as imagens são obras de arte!
Descobri que Wim Wenders dedicou o filme "lisbon story" a este realizador. Para já espero o regresso de uma pessoa para terminarmos de ver "asas do desejo".

7.3.05
ontem na turquia
Com a aproximação do Dia da Mulher (8 de Março), ontem, concentraram-se mais de 300 manifestantes em pleno centro de Istambul relembrando a luta pelo direito à igualdade na Turquia. Os cerca de 100 defensores das mulheres que não se dispersaram à primeira ordem, foram violentamente reprimidos pela polícia que entre bastonadas e pontapés também usou gás lacrimogéneo. As imagens foram transmitidas no jornal da noite onde se viam mulheres que já depois de caídas, como que rendidas, continuavam a ser alvo de pontapés. Grupos de pessoas desesperadas, abraçadas e sentadas no chão, a levarem com os bastões. O comportamento agressor dos polícias já não parecia uma simples dissuasão das pessoas que se manifestavam mas uma cólera geradora de sentimentos de poder, coragem e confiança que os impelia àqueles comportamento destruidores.
Não é nada a que já não tenhamos assistido, mas impressionou-me como é que num país que pretende uma integração na União Europeia, a liberdade de expressão e sobretudo os direitos das mulheres estão ainda tão longe de serem justos e igualitários.

novidades da blogofsera
Imagens de qualidade em dois sítios novos. O José resolveu juntar as ilustrações de "De Aetatibus Mundi" no http://franciscodollanda.blogspot.com. Esperamos pela continuação. O Lutz oferece-nos as suas playmates todas num blog só: http://quaseemportuguesplaymates.blogspot.com/.

Bocas sem qualidade e explicações atabalhoadas no Barnabé. O Lutz e o Miguel já opinaram, não vale a pena bater mais no ceguinho Nuno Sousa.

Duas edições da Terra da Alegria. Na quarta, o José continuou a discussão sobre a família inspirada pelo "Magnólia". O Timshel vai mais longe na discussão sobre o estado de saúde do Papa: «seria uma lição extremamente importante para a humanidade, para a cristandade e para os católicos ver que os valores cristãos continuavam apesar de o Papa se encontrar demente e continuar Papa, podendo porventura dizer o contrário do que diz o cristianismo.» O Rui lembra a evocação de vários cristãos comprometidos e empenhados na sociedade portuguesa, feita na Semana de Estudos Teológicos da Universidade Católica.
Hoje eu baldei-me e apareceram novos contributos. José Maria Brito escreve "Perder para Encontrar – aprendendo com a Sagrada Família"; Varqa Jalali dá-nos a conhecer uma perspectiva bahá'í do papel da Religião na sociedade; C.M. fala de "Retractação, Amizade e Espírito", começando pelo "lugar das virtudes".

(Agora que terminei reparo que este post se parece com a conversa do Marcelo Rebelo de Sousa, a querer encaixotar uma semana em vinte minutos. Só é pena não ter a companhia de conversa da Ana Sousa Dias...)

3.3.05
comemoremos
O Povo de Bahá faz hoje um ano. Um passeio aos jardins Bahái's, para comemorar. E um grande abraço ao Marco!


JOÃO VOZ E VIOLÃO
A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite a chuva que cai lá fora
Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece no sempre agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

O samba ainda vai nascer
O samba ainda não chegou
O samba não vai morrer
Veja, o dia ainda não raiou
O samba é pai do prazer
O samba é filho da dor
O grande poder transformador



A letra é do Caetano, mas é na voz baixa e quase casual de João Gilberto que ela faz soar aqui dentro. Ainda é mais bela quando não estamos tristes, como hoje, em dias de frio e com a febre à espreita.
Ontem, na televisão, conheci Nelson Motta. Acompanhou e/ou lançou a carreira dos artistas brasileiros que mais admiro. Contou que um dia estava muito triste em casa. Telefonou ao João Gilberto que o convidou a passar por casa dele. Ao chegar lá João estava vestido como se fosse para uma festa e disse "Não vamos entrar" (ele que nunca saía de casa!) desceram à garagem e ele tinha um carro (nelson nunca imaginara que ele tinha um carro!). Saíram e foram comer milho frito e beber uma água de côco à praia, à noite. Foram então para casa de Nelson e João (que tinha levado escondida a viola na mala do carro) fez um concerto só para ele.


mais bossa nova

não é da piada
Nuno de Sousa escreveu no Barnabé uma piada de gosto duvidoso sobre o estado de saúde do Papa. Como é habitual, o post gerou comentários avulsos, alguns justamente indignados, outros nem por isso. Face aos comentários resolveu acrescentar umas explicações a esse post. O problema não está na piada (que é fraca). O problema vem mais adiante:
«Acho que a exposição da debilidade física [do Papa] é, antes de mais, muitíssimo pouco digna. Pouco digna para ele, e miserável para a igreja católica. É só isto. O Papa que abandone o cargo e sofra a decrepitude e decadência do seu corpo longe dos olhares do mundo. É mais digno. Tem direito a isso.»
Dizer que o mais digno a fazer com quem sofre debilidades de saúde é escondê-los roça o fascismo. Não sou nenhum acérrimo defensor da continuidade do exercício de funções do João Paulo II até ao fim dos seus dias. Porém, o facto de uma comunidade com a dimensão da Igreja se recusar a descartar o seu símbolo máximo de unidade pela debilidade física, parece-me um gesto profundamente profético. E a verdade é que fez vir ao de cima essa ideologia que defende que o melhor a fazer com os velhos é escondê-los. Como disse e repito, roça o fascismo.
Mais tarde, o Rui Tavares escreveu que as reacções a esse post são fundamentalistas. Fica-lhe mal entrar no insulto, quando o assunto é mais sério do que a piada.

A responsabilidade de ser-se padre
Ele há coisas engraçadas na internet: tentei responder na caixa de comentários aos comentários lá feitos ao último post que escrevi: Questões e debate. Dizem-me na caixa de comentários que "your IP was found in the OPM blacklist and will not be allowed to post", faço parte de uma lista negra da OPM (que não sei o que é) e por razões que não sei quais são, mas que imagino que é por não ter deixado aquele gajo de bigode e óculos escuros a cuspir pedaços do seu charuto para o chão do seu A4 passar-me à frente na bicha da IC19, ele há gajos poderosos...

No post em questão publiquei o anúncio do Sr. Padre Nuno Serras Pereira que tanta polémica tem suscitado e de que tenho sérias dificuldades em compreender que leitura plausível é possível fazer-se dele. Não fiz nele qualquer alusão à Igreja Católica, seja lá isso o que for, mas leram-me como se o tivesse feito: "gato escaldado de água fria tem medo". Para que a acusação tenha algum sentido, venho por este post acusar a Igreja Católica, seja lá isso o que for.

Dizia eu respondendo à sra. M. Conceição, ao sr. Marco Oliveira e ao sr. Mário Moreno, na caixa de comentários da amena cavaqueira aqui, se mo tivessem deixado que: "não confundo o que o sr padre quis anunciar nem com a igreja católica nem com os católicos e sua fé. Parece-me até complicado estrapolar isso do que escrevi. Não sei se tenho bom senso nem se o quero ter, não ando preocupado em medir a minha cultura geral a peso. O que gostava é que o debate à volta de questões importantes como estas se fizessem com outra sensibilidade. Cumprimentos meus. zé maria"

Percebemos que o debate já (re)começou e da pior maneira: primeiro com Francisco Louçã na noite das eleições a utilizar a cadência eleitoral para pressionar o novo governo socialista a referendar em relação à interrupção voluntária da gravidez, penso que foi uma precipitação fazê-lo e continua a ser uma instrumentalização moral do BE, qual bandeira desfraldada ao vento, de um assunto que deve ser tratado com cuidado; e agora com o anúncio escabroso deste sr. padre que é o pior pontapé de saída para discussão que poderíamos ter, é um anúncio potenciador de insultos e não de argumentos. Por isso mesmo vos falava dos dois filmes (Mar Adentro e Vera Drake) como "forma de suscitar o debate"; uma "outra sensibilidade".

Mesmo se o sr. Padre se pode defender com problemas educacionais ou médicos como propõe o comentador Mário Moreno; sinto fúrias, graves e que me assustam, revolverem-se cá de dentro das minhas entranhas quando penso no mal que "gente" como esta faz em cá andar. Sinto o mesmo quando vejo professores a ensinarem tão de contra o que é aprender e o gosto que deve ter. Neste caso, potenciou uma discussão da pior maneira.

Sinto que a Igreja Católica deve ser metida em causa enquanto instituição. O que não significa meter em causa cada membro da Igreja Católica, cada padre, cada bispo, cada crente: não o faria, não o saberia! Mas questionar a Instituição Católica porque não percebo como pode este senhor ter sido ordenado padre: a responsabilidade que é pregar, o respeito que a função merece e o seu seguimento por tantos fiéis faz-me lamentar que qualquer um possa ser padre. Saberá a Igreja Católica melhor que ninguém que um senhor como este ser padre é grave! É inconcebível! Que exigências tem a Igreja Católica para quem é Padre? Apetece-me logo argumentar rasteiro: as mulheres são excluídas mas gajos como este não são!? São dúvidas que tenho.

Espero que tenha sido compreensível o que quero dizer sem me destinarem a outra qualquer lista negra.

o padre intolerante
O anúncio pago por um senhor padre, que foi publicado ontem no "Público" e noutros jornais teve bastantes reacções. Não era para menos, dado o teor do que aí é dito. Podem lê-lo no post anterior — o Zé Maria reproduziu aí as alarvidades do dito senhor.
O editorial de hoje, assinado por Nuno Pacheco é certeiro:
«Sem qualquer comparação com o caso actual, que apenas revela uma cega (e inaplicável, diga-se) intolerância, ditadores e terroristas vivem, sempre, até ao limite aquilo em que acreditam. Mentem por isso, matam por isso. E não consta que se arrependam. A Igreja católica, se quiser ser fiel à sua pregação humanista, não deveria pactuar com tais "clarividências". Até porque, coisa em que ninguém reparou, o anúncio não apela apenas "ao arrependimento" (coisa do domínio da consciência e da moral de cada um) mas, o que é mais espantoso, também à "ratractação pública" dos "pecadores".»
Interessante é também a referência inicial desse editorial, onde se refere que os bispos portugueses irão admoestar o tal padre, o que é desenvolvido nesta notícia: «O anúncio leva outros responsáveis da Igreja a defender que o padre Serras Pereira se imiscuiu numa matéria que não é da sua competência, enquanto outros comentam ser "profundamente errado" o que nele é dito.»
No technorati, encontrei cerca de 50 posts a bater na Igreja, à conta do tal energúmeno. Espero para ver quantos blogs citarão a atitude dos bispos. Um exemplo disso é a pergunta com que o Barnabé termina o seu post: "Onde está a igreja progressista? Ainda existe?". Parece-me que não precisa de resposta. Dos que estão tão atentos para fazer a crítica à Igreja, espero pelo menos tanta atenção às vozes qualificadas como a que foi dada a um senhor qualquer com tiques inquisitoriais.

2.3.05
Questões e debate
«PARTICIPAÇÃO AOS INTERESSADOS

Na impossibilidade de contactar pessoalmente as pessoas envolvidas o padre Nuno Serras Pereira, sacerdote católico, vem por este meio dar público conhecimento que, em virtude do que estabelece o cânone 915 do Código de direito Canónico, está impedido de dar a sagrada comunhão eucarística a todos aqueles católicos que manifestamente têm perservado em advogar, contribuir para, ou promover a morte de seres humanos inocentes quer através de pílulas, do DIU, da pílula do dia seguinte — ou outras substâncias que para além do possível efeito contraceptivo possam ter também um efeito letal no recém concebido; quer por meio das técnicas de fecundação extra-corpórea, da selecção embrionária, da crio perseveração, da experimentação em embriões, da investigação em células estaminais embrionárias, da redução fetal, da clonagem...; quer através da legalização do aborto (votar ou participar em campanhas a seu favor), o que inclui a aceitação ou concordância com a actual "lei" em vigor (6/84 e seus acrescentos); quer, ainda, pela eutanásia.
O respeitro pelo culto e pela reverência devida a Deus e a Seu Filho sacramentado, o cuidado pelo bem espiritual dos próprios, a necessidade de evitar escândalo, e a preocupação pelos sinais educativos e pedagógicos para com o povo cristão e para com todos são razões ponderosas que, seguramente, ajudarão a compreender a razão deste grave dever que o cânone 915, vinculando a consciência, exige dos ministros da Eucaristia.
Da parte de Nosso Senhor Jesus Cristo convida todos ao arrependimento e à retractação pública, para que refeita a comunhão com Deus e com a Sua Igreja possam receber digna e frutuosamente o Corpo do Senhor

Assinado: Padre Nuno Serras Pereira»



Isto não é uma caricatura. É um anúncio que vem no Público de hoje. É um texto tão indescritível que me enoja. Um texto que não deveria publicitar, mas que sem saber descrevê-lo sem usar palavrões, tive de publicar, sabendo que os nossos leitores (que muito nos envaidecem) carregarão a caixa de comentários de nomes pomposos para este senhor.

Encontram-se neste momento em cena (pelo menos em Lisboa) dois filmes importantes e que podem suscitar o debate público tanto da questão da interrupção voluntária da gravidez (Vera Drake, que ainda não vi) como da Eutanásia (Mar Adentro, vale muito muito a pena!!!); esperemos que o debate público se faça com mais seriedade do que tem sido feito e com questões novas. Esperemos que não sejam os mesmos de sempre a discutir estas questões, que envolvam as mulheres. Por respeito à vida sim, à vida livre!



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