2.2.05
o medo do futuro
«Jean Paul Gaultier, que um dia se definiu como o mago das misturas, quando interrogado sobre os lugares e os temas em que se inspira para os trabalhos de alta costura, costuma responder que nada é tão estimulante como a porta do metro. (...)
Gaultier acaba de dar ao magazine dominical do jornal "La Vanguardia" uma entrevista curta na qual coloca problemas muito sérios a um conjunto de catálogos da sobrevida muito em moda. A moda (...) cobre mais do que a pele, cola-se às múltiplas marcas evolutivas da sociedade e ele sabe-o — nomeou-o. Trabalha como um investigador que se diverte não perdendo nunca de vista se não já sempre uma ideia de roupa que possa ser usada na rua, um vinco estreito ao tempo que vivemos; ao menos, uma ideia de roupa que cada qual deseje levar pela rua. Ou seja, em vez do espanto diante da extravagância que ninguém ousaria usar, ele prefere escolher um caminho em que, no limite da estranheza amável, esteja uma exclamação do tipo: "eu nunca vestiria isto, mas fica tão bem a quem o exibe na passarela!".
Mas Gaultier, o mediático, o aclamado, o reconhecido, (...) pede que nos detenhamos diante da crise — esta crise mundial que enfrenta a economia e tudo em volta —, e no modo como ela conduz os criadores da moda, também os criadores da moda, a insistentes mergulhos no passado. "Tal é — diz Gaultier — o medo do futuro". E raspando um pouco mais o osso, o homem que conhece o brilho dos flashes (...) fala daquilo que mudou desde que começou a admirar os nomes maiores, os que chegavam ao grande público pelo explendor do seu trabalho. "Agora — diz Gaultier — as ideias já não são necessárias para se ser reconhecido; agora o êxito é conquistado na tele-realidade". É um novo fenómeno que o faz pensar, a ele que diz — assim — "que as pessoas já não acreditam em nada". Enfim, apetece aplicar na dobra de uma roupinha Gaultier um autocolante que diga, por exemplo: "Despe-te do pensamento pronto a vestir e vai inspirar-te. Vai encher os olhos e o peito, mais do que do ar do tempo, à porta do metro."
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(podem ouvir os Sinais, certeiramente lidos pelo Fernando Alves)

«Gosto daqueles manequins sem rosto, radicalmente manequins, estatuetas vivas, centrando o foco de luz nos tecidos sobre os quais Gaultier vai esculpindo máscaras africanas.»



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