17.2.05
NOVOS CAMINHOS
Ontem já era muito tarde e ao vaguear aqui por alguns blogs tive a sorte de encontrar este post de Luís Aguiar-Conraria:

"Ingenuidade criativa

(…) Antes de vir para os EUA, sempre pensei que os estudantes americanos tinham uma má formação académica. Hoje considero isso um disparate. Não é fácil comparar um estudante americano com um português. Um licenciado português em Economia teve cerca de 30 cadeiras semestrais de Economia. Um americano não terá tido mais do que doze ou treze. Em compensação, o americano teve cadeiras de Filosofia, Física, Biologia, Educação Física, etc. Em qualquer teste específico de Economia, ficar-se-á com a ideia de que o estudante português sabe mais.

Quantas cadeiras de economia inúteis tive eu? Contar as úteis seria mais económico... (…)

No primeiro ano do doutoramento foram os americanos que tiveram mais dificuldades. Antes dos exames, lembro-me de dar autênticas aulas de esclarecimento. De explicar técnicas matemáticas que para mim eram básicas. (…)
No pólo oposto estavam os chineses e alguns dos indianos. Sabiam tudo. Todos os exercícios eram meras brincadeiras. Era óbvia a sobranceria com que os ocidentais eram tratados. Além de fazerem as cadeiras do core (obrigatórias), estes estudantes dedicavam-se a fazer cadeiras avançadas de matemática, estatística e probabilidade.(…)

Os americanos tinham grandes dificuldades no primeiro semestre. No segundo, estas dificuldades eram atenuadas. No fim do ano, não havia diferenças estatisticamente relevantes entre os americanos e os outros grupos.
No meu segundo ano, fui teaching assistant da cadeira de doutoramento de macroeconomia. A soberba dos estudantes orientais já tinha desaparecido. Alguns tornaram-se bons amigos. Esses mesmos estudantes especializavam-se em áreas essencialmente técnicas. (…)

Em abono da verdade devo dizer que alguns dos piores estudantes são americanos. Alguns não têm pedal para aguentar um doutoramento a sério. Mas também é verdade que os melhores são americanos.

No meu ano, o melhor é o Patrick. Há uma certa ingenuidade na forma como aborda os problemas económicos. Ingenuidade que lhe permite ter a abertura de espírito necessária para sugerir novos caminhos. Tendo tido alguma formação em Filosofia e Sociologia, possui uma mente mais abrangente do que a minha. Os seus conhecimentos de Filosofia e de Sociologia permitiram-lhe um olhar diferente sobre o problema do desemprego, da pobreza e da sua medição. As sólidas bases matemáticas deram-lhe os instrumentos e a perseverança necessários para uma abordagem axiomática dos índices de pobreza e desemprego. Dentro de quinze anos, estaremos a medir o desemprego e a pobreza, usando os métodos (ou variações destes) que o Patrick propõe."


Marcel Duchamp. Bicycle Wheel, 1915.
Podemos dizer o que bem nos apetecer, mas ele foi o primeiro a lembrar-se e trouxe nova arte à arte. (neste link podem também ver o urinol que ele virou ao contrário, Fountain, 1917)


Peço desculpa por este post tão grande, mas a verdade é que este assunto me preocupa e me diz respeito... sinto a falta da mistura das ciências humanas com outras ciências. Não percebo como é que em Portugal ainda se ignora esta necessidade, preparam-nos intensivamente para determinadas funções, para termos um emprego e não cometermos erros básicos mas ninguém nos ajuda a perceber melhor o mundo!
Quem fala em economia, fala em medicina, em engenharias ou em matemática. Por outro lado, os alunos das áreas das humanidades não sabem o que é o ADN.

Tenho professores meus que enchem a boca com a necessidade de termos cultura geral, que ao lidar com as pessoas nós teremos de saber muitas linguagens, muitas formas de estar, muita sensibilidade e muito saber. Mas pensam que alguma dessas coisas é minimamente valorizada no nosso percurso académico? Claro que não!
As cadeiras que temos de economia ou sociologia são opcionais e só têm muita gente porque são francamente fáceis e completamente limitadas aos assuntos da medicina.

Esta ideia da Ingenuidade que nos faz olhar para coisas de forma nova e original é incrível, mas na minha faculdade é designada por um outro "i", de "ignorância".



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