16.2.05
gosto dois
POEMA AO FILHO
A Rafael Passos do Carmo Reis-Sá

Cresceste tanto que deixaste os meus braços para trás.
Dantes, chamavas e eu ia levantar-te do berço, preocupado
com o teu choro. Deixava-a a dormir e dava-me todo a ti.
Tu, nos meus braços, deitado e tão pequeno, abraçavas-te
muito à minha preocupação. Dizias baixinho: vamos ouvir
música, quero dançar contigo até que os demónios da noite
sejam longe. E eu ia. Ia tanto como nunca, eu que nunca
dancei para ninguém. Ligava a música, colocava-a baixinho,
tão baixinho que só nós sentíamos o seu som: A rare
and blistering sun shines down on Grace Cathedral Park,
e dançávamos. Ao som da música eu era o Pai, ao som da
música tu eras o Filho. Dançávamos como dois anjos, sabes?,
mas isso não te digo porque é muito expressivo e fica mal
no Poema. Dançávamos heróis, é mais bonito. Eu era o teu
herói, aquele que te abraçava o corpo pequeno, muito nu e
encostado a mim. Tu eras o meu herói, as mãos jovens ainda
te seguravam com a força toda do mundo. Podem dizer que
dançarias com qualquer um que te levantasse do berço e te
sossegasse o sono. Mas não. Quem diz isso nunca foi teu pai
e nunca te sentiu filho. Nós éramos um só, um lugar comum,
eu sei, mas éramos. Eu apenas contigo nos braços, minha
única roupa, meu único conforto, minha única protecção.
Tu embrulhado em mim pela tua pequena pele, inseguro
e tímido. E a noite, a longuíssima noite, eterna noite que
eu desejava nunca terminada. O céu no seu lugar devido,
a terra no seu lugar devido, e nós, nós os dois no lugar
que devemos para sempre um ao outro: um no outro,
um para o outro como duas peças de um jogo universal.

Agora, filho, agora cresceste e saíste dos meus braços. Terás
um dia alguém que te embale o sono como eu embalei, mas
nunca este amor que nasceu comigo e desabrochou contigo,
nunca este amor eu só eu, teu pai, posso oferecer ao longo da noite.


Bargos, Fevereiro de 2002
jorge reis-sá


(steve mccurry)

Haverá ideia mais incrível do que escrever a um filho que ainda não se tem?
gosto dois: Não empurrar a vida lá para a frente, não sentir que só começará depois... depois de qualquer coisa é que será mesmo bom. Fazer acontecer esse futuro hoje.



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