28.2.05
da memória e da atenção
A leitura da Casa Encantada da semana passada não pôde deixar de me trazer à memória (já que dela falamos) o livro de José Cardoso Pires que aí é citado. De tal forma que voltei a lê-lo de uma acentada. "De Profundis Valsa Lenta" é o relato na primeira pessoa da doença vascular cerebral que Cardoso Pires sofreu e que o deixou completamente desmemoriado durante algum tempo, sem se saber sequer se teria hipóteses de recuperação. Minto, o relato não é na primeira pessoa. Ele não se reconhece naquele Outro de si, como o Outro não o reconhecia a ele ao ver-se ao espelho. E isto não são figuras de estilo.
Começou naquela manhã, quando ao pequeno almoço, numa "fria tranquilidade", perguntou à mulher "Como é que tu te chamas?". "Eu? Edite." — responde ela — "E tu?", pergunta-lhe ela depois de uma pausa. "Parece que é Cardoso Pires" — foi a resposta desesperantemente alheada desse Outro, que já nem pelo nome próprio se conhecia. Deste episódio em diante pouco ficou retido na memória que o escritor viria a recuperar. Ficou porém o suficiente para nos contar este seu percurso pelo esquecimento profundo, pelo esquecimento biológico, pelo esquecimento de quem se perdeu a si próprio:
«Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido. Assim, ao ver o meu Outro eu a pentear-se com uma escova de dentes num quarto de hospital (conforme me contaram depois) pergunto-me quantas vezes lhe aconteceu aquilo (...). Para ele, agora ou ontem tudo era outrora, mundo alheio ou como tal. E desinteresse. O constante e desinteressado desinteresse do homem desabitado de pessoas e lugares, de tempo e de sentimentos.»
Este é apenas um dos relatos que mostra bem do que estamos a falar. Se as virtudes da memória me eram já muito queridas, a experiência da sua negação vivida e (felizmente) contada por Cardoso Pires lembra-nos como ela é coisa preciosa. Recordo o texto de Mounier onde diz que "a pessoa é uma interioridade que tem necessidade de uma exterioridade". É a memória bem usada, a memória construída pela atenção que permite que a vivência da interioridade não seja um egocentrismo barato: "o recolhimento (...) é uma conquista activa, o oposto de uma ingénua confiança na espontaneidade e fantasia interiores (...), é também um movimento simplificador e não complicação, (...) atinge o centro da pessoa e atinge-o directamente. Nada tem a ver com a ruminação ou introspecção mórbidas." Quem vive atento aos outros, quem treina a memória e a sensibilidade na atenção ao próximo, pode chegar àquele ponto de que falava Sophia quando dizia "O meu interior é uma atenção voltada para fora".
Deixo-vos com o resto desse poema, que poemas só recorto de memória. Quando releio não consigo recortar. Antes disso volto ao João, que se bem me lembro (aí está a memória outra vez) foi por onde comecei:
«Mesmo que ninguém me acredite eu acredito na minha memória. Todas as minhas outras crenças dela vieram. De resto, para mim e para todos, donde mais podiam elas ter vindo? Como não tenho tempo nem espaço para vos resumir a teoria da reminiscência, acabo a dizer que o Filho do Homem só desceu à Terra para nos lembrar.»


«A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho

Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
»



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