19.1.05
Portugal no divã
Em entrevista à "Pública", José Gil faz um diagnóstico ao que chama a nossa "falta da ideia de futuro"; à nossa falta de capacidade de nos projectarmos mais alto e mais longe; ao nosso medo de nós próprios. A entrevistadora começa por nos prevenir que o discurso não vai ser animador. E o filósofo não desmente. O encontro com as nossas limitações é importante para as superarmos. Por isso, a quem estiver disposto a visitar os podres da cultura portuguesa, aconselho que se sente no divã. Deixo apenas três apontamentos.

Primeiro: da necessidade de nos deixarmos tocar pelos acontecimentos.
«(...) os acontecimentos não influenciam a nossa vida, é como se não acontecessem. Por exemplo, quando uma pessoa ama, esse sentimento não afecta a outra pessoa, objecto do amor. Quando acabamos de ver um espectáculo, não falamos sobre ele. Quando muito, dizemos que gostámos ou não gostámos, mais nada. Não tem nenhum efeito nas nossas vidas, não se inscreve nelas, não as transforma.»

Segundo: que se lixe o bom senso e as cautelas.
«[Vivemos agarrados ao] texto da sociedade normalizada, do bom senso, do política, social e afectivamente correcto. (...) temos medo de experimentar. Porque temos medo do que irão dizer de nós. Partimos sempre do princípio de que o que vão dizer é negativo, desvalorizante. Dificilmente alguém dirá: "Que bom o que tu fizeste. Estou muito contente." Não. Vão-nos decerto criticar. Isso cria logo um medo que nos paralisa. Faz com que tenhamos prudência. (...) A verdadeira prudência seria uma estratégia para medir e modular a acção, à medida que ela se desenrola. Mas nós não queremos é agir. Porque a sociedade portuguesa, ao contrário de outras, é fechada, não tem canais de ar, respirações possíveis. É uma sociedade suavemente paranóica. As pessoas estão demasiado conscientes de si próprias, o que é um horror. Conscientes da imagem que possam produzir, da sua presença como imagem nos outros. Isso é paralisante. É uma obsessão.»

Terceiro: estarmos virados para fora.
«Estamos sempre a falar da auto-estima, esse termo horroroso. (...) Essa ideia reflexiva, de nos amarmos a nós próprios... Em vez de estarmos virados para fora, para os outros, para o mundo. Só nos podemos afirmar agindo, exprimindo-nos - não voltando-nos para a autocomplacência. Tudo o que é válido vem "de fora". Nós ainda temos essa ideia de que é preciso começar por uma transformação interior... Uma vez assisti a uma entrevista com o jovem físico português, João Magueijo, que vive em Inglaterra. A repórter perguntava-lhe: "Você trabalha com matemática, não em laboratórios. Não podia ter descoberto essas teorias em Portugal?" E ele respondeu imediatamente: "De maneira nenhuma. Sabe porquê? Por causa da intensidade das trocas de pensamento em que eu vivo quotidianamente. É isso que me faz pensar." É essa intensidade que nos falta.»



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