5.1.05
"Não haverá mais qualquer coisa?"
A recente troca de correspondência entre o Carlos Cunha e o Ludwig Kripal não deixa de ser interessante. Depois de outras conversas, chegaram à questão da suficiência ou insuficiência da razão. Fez-me lembrar um artigo lido há pouco tempo na Gazeta de Física chamado "Vinte e Cinco Séculos de Física Quântica: De Pitágoras até Hoje e do Subjectivismo ao Realismo". Diz o autor, Mario Bunge (professor do Departamento de Filosofia da Universidade de McGill), a certa altura, sobre os limites da ciência física:

«(...) há coisas materiais concretas, como organismos, robôs e sistemas sociais que estão fora do alcance da teoria quântica – contra os reducionistas radicais, que acreditam que esta é uma teoria universal. Aquelas coisas escapam à teoria quântica não porque tenham grandes dimensões, mas porque têm propriedades suprafísicas, tais como a de estar vivo e obedecer a normas que não derivam de leis físicas. Devíamos estar gratos por ter uma teoria tão geral e precisa como a teoria quântica, mas seria ridículo tentar aplicá-la para além do seu domínio.»

Vem isto a propósito deste trecho do CC, de que muito gostei:

«A entrega aos outros, aquilo que a comummente se chama amor, é algo extra-razão. Não falo de cooperação, de simbioses, de investimentos. Falo de dádiva. Da ilógica do amor. Do rasgo no quotidiano que o amor provoca. Contra a razão? Não, mas apesar da razão. Qualquer amor. Dos pais aos filhos, dos filhos aos avós, dos amigos entre si, dos amantes. De Deus para com os homens e das suas criaturas para Deus? Como Laplace, também prescindo desta hipótese. Explica-se o amor? Sim, também se explica: o desejo de possuir, de se entregar, de perder o sentido da responsabilidade, o gosto egoísta de ser gostado, uma vontade de comunicar, de desabafar, a procura de um regaço, um impulso biológico.
Mas não haverá mais qualquer coisa?
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