28.1.05
a memória como missão
"Comemoraram-se" ontem os 60 anos da libertação do campo de extermínio de Auschwitz. As cerimónias foram dignas de registo e ainda bem. Como alguém disse, o século XX fica para a história como um dos mais desumanos da nossa Humanidade. Esquecer não é só um erro que nos pode levar a repetir monstruosidades semelhantes. Esquecer é um crime, porventura igualmente grave, para com as vítimas do holocausto e para com a natureza humana.
Foi precisamente para não esquecermos que Primo Levi e outros sobreviventes nos deixaram os seus escritos. Depois de ler os testemunhos impressionantes publicados na nossa imprensa decidi revisitar um trecho de que me lembrava vagamente, do próprio Primo:

«Nós que sobrevivemos aos Campos, não somos verdadeiras testemunhas. Esta é uma ideia incómoda, que passei a aceitar gradualmente, ao ler o que outros sobreviventes escreveram — inclusivé eu mesmo, quando releio os meus textos após alguns anos. Nós sobreviventes somos uma minoria não só minúscula, mas também anómala. Somos aqueles que, por prevaricação, habilidade ou sorte, jamais tocaram o fundo. Os que tocaram, e viram a face das Górgonas, não voltaram, ou voltaram sem palavra.»

Partindo desta problemática também expressa por Adorno no seu "Depois de Auschwitz não é mais possível escrever poesia", no "Público" de ontem, Agusto M. Seabra cita Celan falando de como a linguagem sobreviveu ao terror absoluto:

«Algo sobreviveu no meio das ruínas. Algo acessível e próximo: a linguagem. Contudo, a própria linguagem teve que se erguer por entre as suas próprias ruínas, salvar os espaços em que se quedou mudo o horror, por entre as mil trevas que mortificam o discurso. Nesta língua, o alemão, procurei escrever poesia. Apenas para falar, orientar-me, indagar, imaginar a realidade. Deste modo a poesia encontra-se sempre no caminho para a língua originária.»

Diz-nos Agusto Seabra que "perante a poesia de Celan, Adorno rectificou o seu entendimento". Já Primo Levi parece ter feito o percurso inverso: começou por escrever e anos mais tarde identifica-se com a minoria "anómala" que sobreviveu e consegue contar — o normal entre os sobreviventes é não conseguir contar. Mas ainda bem que ambos decidiram mesmo usar as palavras, fazê-las "erguer-se por entre as ruínas", para que guardemos memória das vítimas da máxima desumanidade. É o mínimo que podemos fazer por elas e pelas gerações que virão depois de nós.

É também dessa missão de preservar a memória que nos fala o post "Alemanha depois de Auschwitz", do Lutz, que nos conta como a Alemanha foi vivendo com a sua história. Termina dizendo que considera Auschwitz um elemento indelével da sua identidade nacional. E acrescenta: "acho bem que assim seja. Não por ser uma vergonha, mas como missão".



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