23.1.05
Maldição dos humanos


«(...) O chefe do bloco chamou-me: "Tu, vem cá." Aproximei-me e ele estendeu-me o prato e disse: "Vai lavar isto!". Estava meio cheio de batatas fritas. Era uma forma de me dar comida, já que não podia dizer: "convido-te para o almoço". Eu comecei a comer as batatas e a chorar um mar de lágrimas, era a nostalgia do sabor, mas era também outra coisa: tinha um garfo, estava a comer com um garfo.»
(Charles Palant)

Comecei por ler o artigo na Pública d'hoje o artigo sobre Auschwitz e o perdão dos judeus que se salvaram. Fiquei impressionado com as imagens: gigantes na calamidade. Escolhi a passagem anterior para introdução. Resolvi passar pelo Google e fazer uma pesquisa de imagens, encontrei entre outras coisas imagens do Hitler e dos rituais à volta dos seus discursos, como estas. Achei que eram impressionantes. Já há algum tempo que ando com curiosidade de ouvir um desses discursos, como é que galvanizavam tanto ao ponto de fazerem tão mal, de convencerem tanta gente a entrar nesse pesadelo que a História não esquece. Com o Salazar tenho uma curiosidade parecida. Encontrei ainda outras imagens como a que publico acima e que nos (mesmo a quem não compreende bem o que foi o Holocausto) envergonham, corroem e ultrapassam numa maldição dos humanos.

No tal artigo da Pública d'hoje fala-se, a certa altura, de um documentário chamado "Os sobreviventes" feito por Patrick Rotman, historiador francês, que o canal France 3 mostrará em Abril próximo:

«O que move Rotman e o impele para este trabalho de História é tentar perceber aquilo de que o homem é capaz: "O que me interessa é estabelecer como se sobrevive naquele universo, no triunfo do mal absoluto em coabitação com o bem absoluto -- um e outro criações do homem" (...) "existia um combate permanente pela sobrevivência entre deportados. Uma luta brutal, também entre as vítimas. Tenho depoimentos alucinantes sobre isto. Mas também sobre os gestos de ajuda de muitos.»

Liguei as passagens anteriores de Rotman ao post que tinha posto anteriormente com a música "Sabia" e à curiosidade no que é sermos humanos: no melhor e no pior.

Lembrei-me depois o que me disse um amigo meu acerca da leitura do "Mein Kampf" (A minha luta) escrito por Hitler: que precisamos defender-nos de certas imagens e ideias, para o nosso bem. "Não o posso ler porque sem darmos conta muita coisa recebemos, somos influenciados, por ideias que nos pioram: é disso que me defendo." Como nos vamos fazendo de tudo o que lemos, ouvimos, fazemos, gostamos, ...
Tudo bem ligado com as explicações de como tinham surgido as diferentes partes: saiu este post de retalhos.



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