27.1.05
a generosidade perturba
A propósito da birra de Francisco Louçã no debate com Paulo Portas, o José deciciu contar um episódio nocturno, passado num prédio devoluto em Lisboa junto de um grupo de okupas. Diz-nos ele que tinham estado a comer umas pizzas quando três jovens de origem africana vieram pedir asilo à casa okupada. O líder do grupo de betinhos mal vestidos fez então um grande discurso a defender a necessidade de convicção ideológica para poder participar no movimento e com isso despachou aqueles pobres coitados, que aquilo não era sítio para aquelas almas pacatas e desideologizadas. A reacção não tardou:

«Estava já eu completamente passado com aquilo e disse ao tal grande líder algo mais ou menos assim: "Ó meu cabrão hipócrita, essa conversa da treta da solidariedade e da tolerância não te serve sequer para ajudar quem precisa mesmo de alojamento, muito mais do que estes meninos e meninas que estão aqui só para chatear os ricos paizinhos! Agora o que vou fazer é oferecer 10 contos a estes gajos e dar-lhes uma boleia a uma pensão ou residencial que eles escolham! Bem podes dizer que isso é caridade mas esta caridade vale muito mais que a tua solidariedade de filho da puta!"
Gerou-se um sururu do caraças, tudo aos gritos, fascista, nazi e coisas assim, e o meu irmão empurrou-me dali para fora junto com os três desgraçados.
»

Tenho eu em mãos "O Personalismo", de Emmanuel Mounier, quando dou com esta história. Mesmo a propósito:

«A força viva do ímpeto pessoal não está, nem na reivindicação (individualismo pequeno-burguês), nem na luta de morte (existencialismo), mas na generosidade e no acto gratuito, ou seja, numa palavra, na dádiva sem medida e sem esperança de recompensa. (...) A generosidade dissolve a opacidade e anula a solidão da pessoa, mesmo quando esta não recebe nada em troca: contra a fileira cerrada dos instintos, dos interesses, dos raciocínios, ela é, em todo o sentido da palavra, perturbante. Desarma as recusas, oferecendo aos outros um valor a seus próprios olhos elevado, exactamente no momento em que eles esperariam ser expulsos como coisa indesejável (...).»

... exactamente no momento em que eles foram expulsos como coisa indesejável.



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