18.1.05
crianças
Quando se fala se crianças no espaço público só se pode estar a falar de uma de três coisas: do processo "Casa Pia", de alguma cena de violência doméstica ou dos maus resultados e fraco aproveitamento escolar das nossas pobres crianças. Para desdizer este estado de lamentação, o último número da "Egoísta" é dedicado às crianças. Inteiramente dedicado às crianças. Com entrada expressamente proibida a adultos. O resultado é magnífico. Reparem bem no mundo inventado por António Oliveira Marques, futuro historiador, aos 11 anos, numas férias de Verão. Não só criou mapas de países e cidades, como selos, moedas, bandeiras, linhas de autocarro e história (!) para todo aquele mundo novo que descreve no seu "Novo Atlas de Armilária".



Vem isto a propósito da conversa de Ana Sousa Dias com Patrícia Reis, editora da "Egoísta", ontem à noite, no "Por outro lado". Ela que detesta expôr-se, aceitou falar na televisão — se não fosse Ana Sousa Dias a consegui-lo, ninguém conseguiria. Falou do seu livro "Cruz das almas" uma novela (o termo é dela) sobre o que numa vida ficou por fazer. Falou da "Egoísta", que já vai em cinco brilhantes anos de edição. Ficam dois pormenores da conversa.
Quando perguntada sobre como lida com os clientes quando deles discorda no seu trabalho de produção artística, a resposta não tarda – discute-se até à exaustão enquanto fôr possível, sabendo que é o cliente que tem a última palavra. Abdicação da liberdade artística? Não, "maturidade", responde ela prontamente. Já o Camilo dizia "é esta escrita que vos põe pão na mesa todos os dias".
Mais adiante, falando da sua adesão à Igreja já na idade adulta, Ana Sousa Dias pergunta se ela vai mesmo à missa e cumpre os rituais. A resposta é desarmantemente simples: "Sinto-me acolhida no ritual". Aí encontra sentido para "construír um pedacinho, mesmo que pequeno, da paz" à sua volta, como diz, citando o P.e José Manuel Pereira de Almeida. Há tempos, numa outra entrevista, o encenador d'"O Bando", João Brites, dizia que até há alguns anos sentira aversão aos rituais. Chateava-o a sua sazonalidade, a sua aparente repetição, a sua persistência. Hoje descobria esse sentido da repetição, do novo encontro, das estações que se sucedem, dos rituais que, sendo os mesmos, são sempre novos.



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