9.1.05
61
Na escola, a Professora Forbes disse que quando a Mãe morreu foi para o Céu. Isto porque a Professora Forbes é muito velha e acredita no céu. Ela usa calças de fato-de-treino, porque diz que são mais confortáveis do que as calças normais, e uma da pernas dela é ligeiramente mais curta do que a outra por causa de um acidente de motocicleta.
Mas, quando a Mãe morreu, ela não foi para o Céu, porque o Céu não existe.
O marido da Professora Peters é um vigário, chamado Reverendo Peters, e às vezes ele vem à nossa escola falar connosco, e eu perguntei-lhe onde era o Céu e ele respondeu: - Não fica no nosso universo. É um outro tipo de lugar completamente diferente.
Às vezes, quando está a pensar, o Reverendo Peters faz uns estalidos engraçados com a língua. Ele fuma cigarros, que se podem cheirar no hálito dele, e eu não gosto disso.
Eu disse que não havia nada fora do universo e que não existia um outro tipo de lugar completamente diferente. Só que pode existir, se atravessarmos um buraco negro, mas um buraco negro é aquilo a que se chama uma Singularidade, o que significa que é impossível descobrir o que está do outro lado, porque a gravidade de um buraco negro é tão forte que até as ondas electromagnéticas, como a luz, não conseguem sair dele, e é através das ondas electromagnéticas que nós obtemos informações acerca das coisas que estão muito longe. E se o Céu estivesse do outro lado de um buraco negro, os mortos teriam de ser disparados para o espaço dentro de foguetões, para lá chegarem, e isso não acontece, senão as pessoas dariam por isso.
Acho que as pessoas acreditam no Céu porque não gostam da ideia de morrer, porque querem continuar a viver e não gostam de pensar que outras pessoas irão morar na sua casa e que lhe irão deitar fora as suas coisas.
O Reverendo Peters disse: - Bem, quando eu digo que o Céu é fora do universo, na verdade isso é só uma maneira de falar. Acho que aquilo que realmente significa é que elas estão com Deus.
E eu ripostei: - Mas onde está Deus?
E o Reverendo Peters disse que devíamos falar acerca disso noutro dia, quando ele tivesse mais tempo.
Aquilo que realmente acontece, quando morremos, é que o nosso cérebro pára de funcionar e o nosso corpo apodrece, como aconteceu com o Rabbit, quando ele morreu, e nós o enterrámos no fundo do jardim. Todas as moléculas dele dividiram-se em outras moléculas, foram para debaixo da terra, foram comidas pelos vermes, foram absorvidas pelas plantas e, se daqui a 10 anos escavarmos no mesmo sítio, não restará nada dele a não ser o esqueleto. E daqui a 1000 anos até o esqueleto terá desaparecido. Mas não faz mal porque agora ele faz parte das flores, da macieira e do espinheiro-alvar.
Quando as pessoas morrem, elas são muitas vezes colocadas dentro de caixões, o que significa que, durante muito tempo, não se misturam com a terra, até a madeira do caixão apodrecer.
Mas a Mãe foi cremada. Isto significa que foi colocada dentro de um caixão, queimada, pulverizada e transformada em cinzas e em fumo. Eu não sei o que acontece às cinzas e não pude perguntar no crematório, porque não fui ao funeral. Mas o fumo sai pela chaminé para o ar e às vezes eu olho para o céu e penso que existem moléculas da Mãe lá em cima, ou nas nuvens por cima da África ou do Antártico, ou a caírem sob a forma de chuva, nas florestas tropicais do Brasil, ou algures, sob a forma de neve.

Este é o capítulo Nº 61 do livro que ando a ler: O estranho caso do cão morto de MArk Haddon. Mark Haddon trabalhou com crianças autistas e ensinou Escrita Criativa na Arvon Foundantion e na Universidade de Oxford; este livro é escrito por ele como sendo Christopher Boone, rapaz autista de 15 anos. Lembrei-me deste capítulo ao ler, tentando apanhar qualquer coisita, a discussão que vai crescendo em questões e argumentos na nossa caixa de comentários acerca de um post do Zé Filipe que vai ficando cada vez mais lá para baixo.



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