14.12.04
UM ACHADO
Sou um gajo com sorte. Sei que todas as superstições dizem que não devemos afirmar estas coisas assim porque a sorte vai-se. Mas resolvi confiar nela, e repito: Sou um gajo com sorte! Para provar o que digo, aqui vai.

Encontrei o local onde agora estou a estagiar em Junho deste ano quando já estava meio angustiado por não saber para onde me poderia virar. Entre várias conversas com “informadores qualificados” (como se diz nas academices) uma delas foi essencial. Não conhecia o Professor Roque Amaro se não de uma conferência que tinha ouvido há algum tempo lá para os lados do Rato e de que tinha vindo francamente fascinado. Decidi ir falar com ele para desfazer neblinas, mas ia algo receoso e após uma noite de farra e consequente ressaca. O Professor pôs-me desde o início à vontade no seu trato fácil e humilde. Expliquei-lhe a minha situação, alguns gostos, expectativas e dúvidas; de onde tinha vindo e para onde tinha pensado poder ir. Depois de me ouvir, fez-me duas ou três perguntas rápidas que me ajudaram a pensar e saiu-se com algumas propostas dentro das coordenadas que lhe tinha dado: Educação pela Arte, Animação Cultural, Desenvolvimento Comunitário, Trabalho com jovens e crianças. Marcou-me, em seguida, e por telemóvel, uma conversa na Junta de Freguesia de Carnide com a Professora Teresa Martins, Professora de Animação Cultural e Vogal da Junta para a Educação para as 15h desse mesmo dia.

A Professora Teresa recebeu-me nessa mesma tarde na salinha do rádio (um mistério na Junta, há uma sala, de passagem, onde está sempre um rádio ligado sozinho) onde lhe expliquei do que andava à procura. Ela mostrou pronta disponibilidade por parte da Junta em me receber enquanto estagiário, explicando-me que faz parte da maneira de estar da Junta receberem estagiários (neste momento somos cerca de 12 estagiários: de serviço social, psicologia, animação cultural). Disse-me que eu podia, possivelmente, inserir-me em dois projectos: acompanhar o desenvolvimento de uma Associação Circense com protocolo com a Junta de Freguesia chamada “A Tenda” e acompanhar o projecto “Arte em Stock – Expressões Integradas”. Assim foi e em Outubro comecei a estagiar.

Desde aí tenho descoberto/destapado devagarinho um mundo fantástico num conjunto de surpresas que associo ao poema abaixo. A Técnica Mónica Diógenes, licenciada em Serviço Social e responsável pelo Pelouro da Educação, tem acompanhado o meu trabalho na Junta sempre com paciência e boa disposição. Dei-lhe o apelido carinhoso de "chefe" ou "patroa". Foi ela que desde início me recebeu e apresentou a todos os funcionários da Junta, que me apresentou a freguesia, suas fragilidades e confianças, suas crianças no Halloween e seus velhotes a assistirem ao Fungágá da Bicharada.

Carnide fica nas costas do Centro Comercial Colombo e vai até ao Concelho de Odivelas, de um dos lados tem a Pontinha e do outro ainda apanha uma parte de Telheiras. É afamada pelo Colégio Militar e pela Casa do Artista, mas desconhecida para grande parte dos lisboetas. Carnide tem uma população difícil com disparidades muito grandes na população: gente muito nova e muito velha, gente de classe média/alta e muito pobre, gente licenciada e gente analfabeta; e com dois bairros sociais com bastante dificuldades, o Bº Padre Cruz (o Bº Social com mais gente de Portugal) e o Bº da Horta Nova; teve ainda e até bem pouco tempo a comunidade cigana do Vale do Forno.

Dentro destas dificuldade o elogio à equipa de trabalho da Junta é ainda maior. A forma apaixonada de trabalhar da equipa da Junta de Freguesia (CDU) é apaixonante! Fazem com um orçamento de Junta de Freguesia um trabalho de Câmara Municipal. Têm um quadro de gente muito jovem e dinâmica. É, muito provavelmente, neste momento, a instituição pública que mais gasta em termos de orçamento para a Educação (cerca de 23%, se não me engano) e isto com uma política que vem sendo seguida desde há 22 anos para cá. É a única autarquia que está a conceber o seu orçamento de forma participativa à moda de Porto Alegre no Brasil: com reuniões para perceber onde é que os seus habitantes querem que o orçamento seja utilizado, quais as prioridades da Freguesia. Carnide tem sido para mim um verdadeiro Achado, onde ando deslumbrado.


Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.

(Sebastião da Gama)



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