10.12.04
a escarreta de Filomena Mónica
Publicou Maria Filomena Mónica (MFM) um texto deplorável sobre Boaventura Sousa Santos no suplemento "Mil Folhas" do "Público" de sábado. A misturada de crítica à poesia de Boaventura com comentários ao seu trabalho científico é, por si só, suspeita. Mais descabida se torna quando publicada na secção "Poesia" daquele suplemento. A argumentação utilizada é caluniosa e reveladora de muita ignorância, misturada com os habituais tiques de centralismo alfacinha.
Dispenso comentários aos primeiros cincos parágrafos do texto, onde são citados versos soltos da poesia de Sousa Santos, publicados, espante-se, em 1980! A segunda metade do texto é mais grave, por se tratar, tão só, de insulto medíocre. Vejamos.
MFM começa por criticar o prefácio de Sousa Santos a manuais de Sociologia do Ensino Secundário. Sousa Santos defendo o "empenhamento dos professores numa prática de pedagogia activa, através da qual se familiarizem os estudantes com uma forma de conhecimento da sociedade que, no essencial, é uma forma de educação para a cidadania". Por isso perde todo o carácter científico. Pior, esse texto seria mais uma tirada ideológica de um dos arautos do movimento anti-globalização! Bastaria a Filomena Mónica ler a Lei de Bases do Sistema Educativo para não dizer disparates: «A educação promove o desenvolvimento do espírito democrático e pluralista, respeitador dos outros e das suas ideias, aberto ao diálogo e à livre troca de opiniões, formando cidadãos capazes de julgarem com espírito crítico e criativo o meio social em que se integram e de se empenharem na sua transformação progressiva.» (LBSE, artigo 2º, alínea 5)
O resto do artigo pretende criticar a obra "Conflito e Transformação Social: uma paisagem das justiças em Moçambique". A sua argumentação é simplesmente absurda: por analizar a "pluralidade de direitos que, reconhecidos ou não oficialmente, regem os conflitos e a ordem social" Boaventura é imediatamente acusado de legitimação de práticas legais alternativas e de atentado à herança liberal do estado de direito.
Que artigo é este que nos é apresentado na secção "Poesia" do suplemento de um jornal como o "Público"? Não é seguramente crítica de poesia. Não é argumentação científica. É simplesmente o insulto de Sousa Santos, com o intuito de atacar toda a «"Nomemklatura" sociológica, não só portuguesa (...), mas internacional», como a autora faz questão de deixar claro. Os comentários de mau gosto abundam ao longo do texto. Desde os "salões pequeno-burgueses do centro do país" ao "fazer corar as meninas das aldeias", que mostram que Filomena Mónica despreza tudo o que não vem da capital. Mesmo quando o reconhecimento internacional é notório (e é esse o caso de Boaventura), a mediocridade de MFM apenas lhe dá para a escarreta. Mais adiante, como quem está plenamente convencida de que o verdadeiro intelectual é o se fecha meses a fio na solidão do seu gabinete, diz que os trabalhos de Sousa Santos são escritos "de parceria com um exército de assistentes universitários". Como se, em qualquer ciência, houvesse projectos de investigação de envergadura levados adiante unipessoalmente. Filomena Mónica devia ler artigos de Física Teórica, para saber o que é um exército a escrever um artigo.
Como foi dito na Memória Inventada, «Que o ódio cega já se sabia, mas não terá MFM um amigo que lhe releia a prosa e a aconselhe? E que espírito belicista é aquele com que remata o artigo ("Não vale a pena criticar soldados quando temos à mão um general. Na luta, há que apontar à cabeça."?) Corrija a mira, MFM. Deu foi um balázio nos pés.»

Ler ainda o comentário do Esplanar e do Céu sobre Lisboa.



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