25.11.04
a utilidade de Deus
Há já alguns dias, o Timshel escreveu um texto em que volta a explicar porque considera que uma moral tem necessariamente que estar fundada sobre um princípio que nos transcenda. A célebre questão do cardeal Martini ao Umberto Eco: "em que crê quem não crê?", como fundamentar um conjunto de princípios de vida que não se alterem ao sabor das circunstâncias?
Do lado do Diário Ateísta, a resposta do Ricardo Alves não tardou. A proposta para uma ética laica é simples:
«(1) não devemos fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem;
(2) devemos abstermo-nos de fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem mas que sabemos que os outros podem não desejar que lhes façam;
(3) devemos fazer aos outros o que sabemos que querem que lhes façamos (excepto se entrar em contradição com (1)
»
Eu acho que é uma boa proposta. Mas quando tenho que a explicar a algum egoísta inverterado, o único argumento que consigo apresentar para nos chatearmos com os outros (o ponto 3) é a existência de um laço mais forte entre as pessoas, precisamente o que chamamos Deus. E por isso dizemos que Deus é Amor. Podia não ser, a humanidade já inventou muitos deuses tiranos. A novidade do cristianismo é precisamente propôr um Deus que ama as pessoas e cada pessoa incondicionalmente. Um Deus em relação. O amor não é uma questão secundária para o cristianismo, ao contrário do que Ricardo Alves diz nas idiotices do primeiro parágafo do seu texto.

Quanto a saber se a visão do Timóteo é utilitarista ou não, concordo com um comentário da Zazie de que é uma discussão meio bizantina. Todos temos necessidade de dar sentido à nossa maneira de ser e estar. Encontrar esse sentido numa visão ateísta do mundo pode igualmente ser considerado utilitarismo. E a verdade é que o pessoal do Ateísmo.net é muito, muito crente — crêem desmesuramente na superioridade da sua mundividência. Ou como disse a Zazie: "(...) a única grande diferença está no modo como se aceita ou não aceita a posição de cada um. Que me serviria dizer que tenho uma crença ou uma moral baseada no amor se depois, na prática agisse com a maior das intolerâncias para quem a não tem? E o mesmo se aplica a quem defende que não precisa da crença para respeitar os outros e depois, na prática, desrespeita-os pelo facto de terem crenças." E mais adiante: "(...) o que me parece realmente negativo é a forma simplista e fácil como se passa por cima do estudo e do conhecimento das religiões para se cair num combate de rua pela caricatura. Custa-me a entender esse aspecto."

Para quem quiser mesmo discutir a semântica da utilidade, vale o comentário do Fernando: "Uma concepção que faça fundar a moral em Deus pode dizer-se que é utilitária, embora a utilização do termo seja histórica e filosoficamente "bastarda", pois implica por aí um desvio semântico; ainda assim se for essa a linguagem partilhada, há que acrescentar o seguinte: Deus é útil porque nos serve - ou à moral - e nós somos - ou a moral - Seus utéis porque O servimos. Esta comunhão no movimento do cuidado, retira qualquer hipótese de transformar nós ou Deus num qualquer instrumento, coisa que é bem fácil fazer no dito utilatarismo (...)"

Estas citações são dos comentários deste e deste posts do Timshel, cuja leitura (dos posts e dos comentários) recomendo.



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