8.11.04
Uma Clonagem à Colonizador
Pensar em culturas e povos implica desconfiar da nossa própria perspectiva sobre quem pensamos. A abrangência de qualquer um desses conceitos a isso obriga. Os “Americanos” e a “América” não são a mesma coisa. Talvez me esteja a sentir “anti-americano” e esta ressalva inicial é fruto desse sentimento.

Quando olhamos para o outro lado do mar, vemos um enorme continente disfarçado de país, megapotência que dita as velocidades a que corre o “globo” para tentar acompanhar esse império "fim da história". Falamos nos Estados Unidos da América do Norte enquanto o "país desenvolvido, que vai à frente e que vai impondo aos poucos e poucos um mercado, um consumo, uma economia". Ouvimos como argumento recorrente "nos Estados Unidos faz-se assim", sendo que esse "assim" a partir daí não pode ter discussão, torna-se “lei científica”.

O conjunto dos Estados Unidos parecem à primeira vista ter condições parecidas à Europa (outro conceito de desconfiar) em termos de desenvolvimento, tecnologia, instituições, economia, etc. Para uma pessoa mais desatenta ou um gajo ainda por viajar, como eu, os hábitos e costumes, formas de pensar não seriam tão diferentes quanto isso.

Quando olhamos mais de perto e com mais atenção percebemos que são tão diferentes como os resultados de uma eleição, a escolha de um líder. Descendentes da cultura Europeia Cristã, os americanos do norte ficaram órfãos da história quando lá chegaram pela emigração e exterminaram os índios que lá viviam; europeus, asiáticos, americanos do sul, africanos, todos lá se misturaram sem uma História comum. No entanto, sentem-se filhos de uma Europa bem mais antiga, herdeiros ancestrais nas barbas europeias ou talvez prefiram negar isso numa perspectiva que o Sr. Freud pode explicar.

Congregam-se por isso à volta do conceito de nação, da bandeira das listas e estrelas, da American Way of Life, “o sonho americano” da “terra das oportunidades”, de simbolismos que se tornem sentimento de pertença.

Miguel Sousa Tavares explica muito bem no Público de 6ª feira a passagem desta componente democrática americana a uma moral das virtudes conservadora e castradora que elege Bush e que boicotou Clinton às custas de um escândalo sexual. Um Bush, menos pecador, conseguiu destruir todo o trabalho de um Clinton que não soube negar as tentações do desejo diabólico.

Mas que eleição viram na passada semana os eleitores no Estados Unidos que nós não vimos? Uma amiga minha que vive nos states diz que é incrível a pouca informação que têm os americanos do norte do resto do mundo lá fora, e eu pergunto-me "que informação têm eles do mundo lá de dentro?”

A eleição que os americanos viram tem que ser outra, alguma coisa nos escapa naquela escolha. Como é possível!? - perguntamos nós - Então não é óbvio para muitos de direita e todos os de esquerda e centro que Bush não serve como Presidente, que é um burro como raramente encontramos, que está acompanhado por gente facínora, gente que vê petróleo em vez de pessoas. Não basta ver duas ou três imagens de Bush no Farenheit 9/11? Não basta estar atento à política externa de invasão de um país do petróleo em busca de armas de destruição maciça inexistentes, que passa por cima das Nações Unidas, e das gentes que moram nesta terra? Não basta ter olhos na cara?

Isto leva-me a uma teoria da conspiração (ou talvez não): Há controlos da informação, dos meios de Comunicação Social (por cá temos na agenda do dia este assunto), há novas formas de fascismo, novas formas de embalar um mesmo produto mau. E novas formas de anti-vírus que ainda temos por encontrar.

A frase da senhora da TSF que diz que prefere que vão matar longe os filhos dos outros a que estejam a matar os dela diz muito, os Americanos foram votar assustados (ver o novo filme de Wim Wenders “A Terra da Abundância”). Assustados não pelo tremendo Bush e seus efeitos horríveis no mundo de hoje e de amanhã (ver o artigo esmagador de Vasco Pulido Valente no Público de 6ª feira), assustados não pela guerra que nem saberemos que repercussões irá ter, quem foi votar eram Americanos assustados por poderem ficar indefesos sem o chefe militar pistoleiro.

Vamos ter assim mais 4 anos um mundo governado por guerreiros cowboys que "querem civilizar" como nos tempos passados dos colonos, num tempo de futuros de clones do consumo, em que o sul vai sustentando a economia "desenvolvida" do norte atrofiada por essa mesma economia que alimenta. É um momento mau para o mundo esta escolha mas em que, como diz o Zé Filipe, é preciso encontrar novas formas de "consenso mínimo entre a humanidade"... mas permitam-me um desabafo: “que humanidade tão desumana é esta de que fazemos parte!?”

(Correcção: um amigo meu atento e bom leitor sussurou-me ao ouvido que não se escreve "coloniador", a palavra correcta é "colonizador", bem dito seja ele)



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