25.11.04
um milagre desperdiçado
No "Público" de segunda-feira saiu uma entrevista a David Grossman, escritor Israelita. Além da visão lúcida e inteligente da situação do conflito israelo-palestino, o que mais impressiona é a tristeza dos anos que passaram desde a fundação do estado judaico. E o medo que o fim do sofrimento tarde. Esta tristeza e consternação não o impedem de exprimir a sua profunda alegria pelo facto de o povo judeu ter uma pátria — que deveria ser acarinhada pela comunidade internacional, como foi dito na Rua da Judiaria. Precisamente por sentir essa alegria profunda por haver uma terra que os judeus possam chamar sua, Grossman empenha-se nas tentativas de solução da crise. E não tem receios em dizer que apoiaria a Barghouti (condenado a cinco penas de prisão perpétua em Israel) como líder palestiniano. Ou dizer que os Estados Unidos deveriam pressionar mais Israel. Ou dizer que é contra o muro de separação porque não quer viver "numa realidade onde estou seguro porque eles estão cercados".
Ficam alguns recortes:

«Somos os mais fortes, os ocupantes, temos muito mais margem de manobra. Somos mais estáveis do que os palestinianos, que apenas agora começaram a amadurecer politicamente. Dito isto, há simetria numa coisa: na capacidade de cada lado tornar a vida do outro amarga. Israel é um superpoder, temos uma centena de bombas atómicas algures, e no entanto, ficamos aterrorizados quando os nossos filhos vão para a rua. Portanto, de certa forma o sentimento de estar cercado é comum. Acredito que a vida deles é muito mais horrível, que devíamos ser mais generosos, gostaria de ver o meu primeiro-ministro a ir amanhã oferecer algo e pedir desculpa aos palestinianos pela injustiça que Israel lhes infligiu. E esperaria, em retorno, ouvi-los pedir desculpa pelo que fizeram. Porque não se tratou sempre da gloriosa luta pela liberdade. Foi também terrorismo.

«Há tanto sobre a vida que não conhecemos, porque nascemos neste conflito, estamos programados pela violência. E a vida pode ser tão melhor. Basta pensar em toda as energias, todo o dinheiro, todo o sangue que gastámos na Cisjordânia e em Gaza, que incluem alguns pontos que fazem parte da "divina promessa de Israel", para os religiosos. Toda a nossa vida, todo o nosso futuro estão escravizados a isto. Combatemos uma guerra que em parte se tornou irrelevante. Continuamos a fazê-lo porque somos manipulados por extremistas, por visões mundiais de líderes que cristalizaram e não vêem que há outras possibilidades entre nós e os palestinianos, entre nós e toda a região. O projecto dos colonatos era o grande projecto nacional de Israel, e pense-se em tudo o que podíamos ter feito com os milhões que o governo gastou aí.

«Quando se é um país muito pequeno, cinco milhões de judeus, e estamos rodeados por mais de 250 milhões de muçulmanos, cujos líderes nunca mostraram boa-vontade em relação a Israel; e quando dentro de Israel há uma minoria de um quinto que é muçulmana, e eles partilham os objectivos dos países à volta... Se Portugal estivesse na mesma situação, quantos anos seria capaz de manter a democracia como nós temos mantido? Quantos anos teria esta liberdade de discurso que me permite estar sentado aqui, no coração de Jerusalém, a fazer críticas duras aos líderes israelitas?
Não é algo garantido que Israel possa manter isso. Muito mais natural é os israelitas estarem aterrorizados, quererem armar-se até aos dentes. Por quantas guerras passámos nos últimos anos, nem todas por causa de nós, algumas contra nós? Se se recordar de onde vimos, desta História traumatizante, de que Israel foi criado apenas três anos depois da Shoah, e subitamente, na Guerra dos seis dias, em 1967 [quando Gaza foi tomada ao Egipto e a Cisjordânia à Jordânia], ficámos com esta enorme quantidade de território para um estado tão pequeno...
Território significa poder para uma nação que durante dois mil anos viveu uma vida abstracta, vida sem terra, sem exército, sem presença física. Ter estes territórios significou uma grande confiança, uma segurança de estarmos vivos, de sermos grandes, de não nos poderem derrotar. E logo depois, começou esta narrativa, que ainda hoje prevalece, de que os árabes não querem a paz, que nunca no futuro poderão estar em paz connosco.

«É muito difícil acreditar que teremos um futuro. Eu nasci em 1954, o que é apenas nove anos depois da Shoah, e no meu bairro, durante criança, era acordado a meio da noite por gente que gritava com pesadelos sobre a Shoah. São precisas gerações para recuperar de um trauma assim.

«Para mim, Israel é uma espécie de milagre. Pensar na oportunidade histórica de criar este Estado depois da Shoah, como a nossa vida era miserável antes, como estava espalhada pelo mundo. E de alguma forma estamos a desperdiçar isso.

«Só [sairía de Israel] num único cenário: se Israel deixar de ser uma democracia, não ficarei aqui nem mais um dia. Recebo vários convites para ir para fora, um ano, meio ano. E não quero fazê-lo. É o meu país. Não se abandona um familiar muito doente. Apesar de tudo o que acontece, talvez por ser um escritor de ficção, vivo todo o tempo com alternativas na cabeça. Como a hipótese de Israel nem ter existido - e isso aterroriza-me. Depois de 80 gerações de judeus que viveram sem um país, fui abençoado pela sorte de ter nascido neste país, portanto, embora haja tanto nele de que não gosto, há muitas coisas de que gosto realmente. E há algo na atmosfera, na vitalidade das pessoas, na forma como sabem ser solidárias de uma forma espiritual que ainda existe aqui. Esse poder da linguagem, da estimulação de ideias.
É o único sítio da terra onde não me sinto um estranho, e isso é algo muito novo para um judeu. Penso sempre que se há 75 anos um anjo viesse ter com o meu avô em Varsóvia e por um segundo lhe mostrasse uma cena nocturna na minha casa, eu, a minha mulher, três filhos, a comer um jantar que foi produzido com agricultura israelita, frutas, vegetais, os meus filhos a falarem hebraico, uma língua meio-morta há cem anos! E que tudo é israelita, tudo é deste lugar, até veria o seu neto a escrever artigos violentos contra um primeiro-ministro israelita! O meu avô pensaria que ou o messias tinha chegado ou o anjo estava louco. Era impossível e agora é a nossa realidade aqui.
Mas é uma realidade tão frágil e estou tão aterrorizado que alguma coisa aconteça a este lugar por causa de todos estes erros. Todo o tempo oscilamos entre catástrofe, tragédia e milagre, todo o tempo. E eu quero alguma normalidade. Viver num lugar sem inimigo, sem contarmos o nascimento dos nossos filhos desde a última guerra.»



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