15.11.04
Perplexidades
história primeira: Uma mulher apresenta uma rouquidão pronunciada há uma série de meses. Vai a uma consulta no hospital. Depois de vários exames desconfia-se que esta mulher terá um tumor no mediastino. É absolutamente essencial um TAC para o confirmar. Como todos sabemos nesta doença corre-se contra o tempo num tratamento que queremos curativo. No hospital dizem que esta doente só poderá fazer o TAC daqui a 10 meses. O médico tem de enviar uma carta ao médico de família para que este faça a requisição deste exame, de forma a que esta doente o possa realizar num privado com participação do estado. Este médico de família pode ser seriamente repreendido pela administração do Centro de Saúde por pedir um exame para outro médico. Este médico pode-se recusar a pedir o referido TAC. Acontece mesmo. Assim, o médico do hospital terá de pedir o internamento desta doente para que possa então ter o seu TAC (ganha prioridade). Um internamento fica em dezenas de euros por dia. O estado paga ou então poderá pagar a vida desta mulher.

história segunta:
Um homem, testemunha de Jeová, entra nos cuidados intensivos de um hospital. Assina um papel a dizer que recusa qualquer transfusão de sangue. A situação agrava-se, o Sr. perde a consciência e só poderá viver com uma transfusão. Fala-se com a família que continua a recusar a transfusão. A equipa médica discute. Há opiniões diferentes. Fala-se com a administração do hospital que diz que a opção filosófica daquele hospital é: "não se deixa morrer ninguém à míngua de um tratamento eficaz", que num caso de vida ou morte, quando a pessoa não está consciente que a equipa médica pode optar por salvar a vida ao doente. Argumenta-se a previsão de autorização, isto é, que possivelmente o Sr. mudaria de opinião. Mais se discute, os alunos entram na discussão. A transfusão será feita. A família avisada.

história terceira: Uma mulher entra com um quadro de insuficiência hepática aguda. Prevendo-se que a situação piorará pede-se em S.O.S. um fígado para transplante. Passados uns dias consegue-se um e na avaliação pré operatória o médico verifica que a doente não reúne as condições necessárias ao transplante (não há falência renal, a Sr.ª está consciente.) É preciso dizer que ela estaria a passar à frente de muitas outras pessoas porque se trataria de uma urgência. Uma rapariga recebe o fígado. A primeira senhora vem a piorar uns dias mais tarde, pede-se de novo um fígado, agora já reunia as condições, mas ele não chega a tempo. O médico é levado a tribunal.


danaid, auguste rodin

histórias muitas do meu dia-a-dia. Não dando nenhuma resposta. O certo e o errado, o bom e o mau, a vida e a morte andam bem mais lado a lado do que poderia pensar.



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