25.11.04
penitência
Esta segunda-feira os trabalhadores da Terra baldaram-se. Houve pelo menos um leitor que barafustou, e com razão, pelo desleixo destes fracos camponeses. Mea culpa também, que ao fim de sete dias julguei que podia descansar...
Para compensar, as quartas-feira têm-se mantido com grande qualidade. Alguns excertos das duas últimas edições:

Timshel, sobre as generalizações e tabús:
Para um cristão, se existir uma raça de homens azuis em que 99,9% têm comportamentos criminosos frequentes, não é justificável afirmar que todos os homens azuis são muito pecadores nem é justificável tratar, directa ou indirectamente, de modo discriminatório, os 0,01% de homens azuis que não são criminosos. Não é justificável moralmente dizer, nomeadamente, com aparente neutralidade, que se constata entre os homens azuis uma elevada taxa de criminalidade. Porque isto já é discriminação para os 0,01% de homens azuis que não são criminosos.
As categorizações generalistas são por vezes adequadas para efeitos de diagnóstico de generalidades. Mas para um cristão, o que é importante não são os diagnósticos colectivos estatísticos mas as terapêuticas individuais.


Miguel, sobre a laicidade e de como ela é mal entendida dentro e fora da Igreja:
Tenho para mim que a laicidade não é negativa. Pelo contrário: só faz bem à Igreja, às igrejas e às religiões. Aliás, é "condição nossa", de crentes não eclesiásticos (chamemo-nos assim – e, por isso, preferiria usar o termo "secularização", mas já que até o senhor cardeal da Cúria assim fala...). Eu que sou leigo na Igreja quero meter-me a sério nas coisas públicas, mas sem a necessidade de publicitar a minha condição de católico. Não preciso. Do que me devo arrepender é, na coisa pública, actuar como se não fosse católico: achar que a guerra é coisa normal, que o desemprego em crescendo é inevitável, ter como certa a existência de pobres ou preguiçosos que gostam de viver do rendimento mínimo.

Fernando, em reflexões sobre a liturgia do domingo passado (festa do Cristo-Rei):
«Ai, vizinha, nem sabe a cruz que carrego!», podia dizer – ou disse – alguma das personagens da Aldeia da Roupa Branca(...).
Mas se isso é verdade, se pegar na cruz é pegar nos nossos trabalhos, é também verdade que é pegar na nossa vontade. É passar a nossa vontade pela cruz.
O que é que isto quer dizer? (...) talvez possamos dizer que isso significa abdicar de querermos reinar no mundo. Abdicar de tentar submeter os outros à nossa vontade, não porque ela é má, porque por aí as razões seriam evidentes, mas porque mesmo quando boa, se realizada contra a vontade dos outros isso destruiria um dos maiores dons que Deus nos deu: a liberdade.
Foi isso que ganhámos com a não intervenção dos exércitos celestes. A certeza da fidelidade de Deus: Deus deu-nos a liberdade e ela foi mantida mesmo quando nós levamos o Seu filho à Cruz e à Crucificação… A terra podia ter vivido a partir daí debaixo do Seu reino. Mas esse Reino de Adão até hoje, sempre foi e é um reino de liberdade. Passar a nossa vontade pela cruz? – Viver em paz com a liberdade dos outros. Mesmo quando. Mesmo quando...


José, num texto que não é sobre a "educação católica":
Eu fui educado como católico mas não é por isso que ainda o sou. Diria antes que é apesar disso que o sou. Aliás, a educação católica é algo que em rigor não existe. Nós católicos não somos como os muçulmanos nem temos as madrassas que eles tem. A nossa chamada educação católica não é mais do que educação geral num ambiente exteriormente católico. Obviamente, a educação religiosa não deve servir para nos impôr a Fé. Isso simplesmente não é possível. Mas o que deveria fazer era pôr-nos minimamente em contacto com o conteúdo ou contexto histórico, filosófico, sociológico e cultural da nossa Fé. E é aí que a coisa falha normalmente. Senão como explicar que, tendo eu andado na catequese até aos 14 anos (e dela saí quando, embora não assumidamente, tinha já perdido a minha primeira fé), só já depois dos 30 é que percebi a simbologia do Génesis e a relação entre Antigo e Novo Testamentos, só depois dos 30 é que li os Evangelhos na íntegra, só perto dos 40 é que, como dizia S.Tomás de Aquino, comecei a ter alguma inteligibilidade na minha Fé?



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