26.11.04
o triste riso
Hoje fui ver "2 Perdidos Numa Noite Suja", do dramaturgo brasileiro Plínio Marcos. Foi brilhantemente levado à cena, por Sílvia Brito, pela companhia Escola da Noite. Em palco Paco e Tonho (Carlos Marques e Ricardo Correia) — dois perdidos, sozinhos em várias noites dos dias sujos que levam. Num quarto de pensão, os dois homens dialogam num clima de aspereza, tensão e desespero sobre as duras condições em que sobrevivem. No ambiente terrível que domina a peça, o humor surge esporadicamente com deixas mais ou menos caricatas de ambos os actores. Mas é duma tragédia que estamos a falar. A tragédia de duas vidas que não encontram saída, a tragédia das oportunidades que não aparecem, dos azares e ameaças que perseguem, daquela pequena coisa que falta para "dar a volta à vida" e que nunca mais aparece. Nas palavras da encenadora: "As vozes que Plínio trouxe ao teatro não são só as dos seres marginais em tempos de ditadura. São as vozes que, em todos os tempos, continuam abafadas sob a realidade das desigualdades gritantes — são as vozes da geral pobreza humana de meios de subsistência, de acesso à beleza ou de conforto nos afectos que só muito poucos conseguem iludir".
Com tudo isto, como explicar que uma parte do público tenha estado a rir nos momentos de tensão, nos momentos onde a conversa azedava entre Paco e Tonho, nos momentos de violência? Duas asneiras numa frase e um assobio transformam uma situação gritante numa gargalhada? Os actores são bons — excelentes! —, só sobra a hipótese de o público ser uma merda. Quem vai ver "2 Perdidos" e se ri mais de três minutos perdeu a sensibilidade. E quando se perdeu a sensibilidade a ponto de responder com gargalhadas face à miséria e ao desespero, perdemos um pedaço da nossa humanidade.
A peço é excelente. O público, hoje, foi uma merda.



HaloScan.com