1.11.04
"É esta a esplêndida loucura do mundo"
GLOUCESTER
Estes últimos eclipses não são de bom augúrio. Embora os fenómenos da natureza sejam explicáveis, nem por isso deixam de nos afectar: o amor esfria, a amizade desfaz-se, os irmãos desunem-se. Nas cidades há motins, nos campos discórdias; nos palácios traição, e os laços entre pai e filho quebrados. Este patife corresponde à profecia: o filho revolta-se contra o pai; o rei infringe as leis da natureza; o pai vira-se contra a filha. Já assistimos a tudo. Conspirações, falsidade, traição e toda a espécie de desastrosas desordens se abatem sobre as nossas cabeças perseguindo-nos no túmulo. Descobri esse vilão, Edmund; nada perdereis com isso. O nobre e leal Kent foi desterrado! O seu crime foi a honestidade! Como é estranho.

Sai

EDMUND
É esta a esplêndida loucura do mundo: quando sofremos as consequências dos nossos excessos, atribuímos a culpa ao Sol, à Lua, às estrelas, como se os astros fossem responsáveis pelas nossas loucuras; como se os céus nos obrigassem a sermos patifes, ladrões e traidores; como se a conjunção dos planetas fizesse de nós bêbedos, mentirosos e adúlteros; como se todos os males que sobre nós se abatem fossem uma maldição dos deuses. Que estupenda evasão, acusar as estrelas dos nossos costumes dissolutos! Fui concebido sob a cauda do Dragão e vim ao mundo sob a Ursa Maior, sou portanto violento e devasso! Que absurdo! Teria sido o que sou mesmo que a estrela mais benfazeja tivesse brilhado no firmamento no momento da minha concepção.

(in Rei Lear de Shakespeare, 1605)

Como homenagem às eleições nos EUA.



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