2.11.04
cem crónicas na Casa Encantada
Continuando na onda dos parabéns atrasados, aqui vão os ditos à "Casa Encantada" de João Bérnard das Costa que comemorou a centésima crónica na sexta-feira passada (não há link porque o texto não apareceu na página do "Público"). Mesmo sem ler toda a imprensa nacional, tenho poucas dúvidas em dizer que são as melhores crónicas nela publicadas.
Na Casa desta semana, recorda-se o início desses textos -- a primeira crónica chamada "Ao Que Venho", que rezava assim: "Ao que venho é guiar-vos para imagens e memórias cá de mim, puxadas de onde tiver que ser para onde me apetecer que seja. Terei por companheiros os que já tiveram os apetecimentos ou os que passarem a ter porque apeteceram o que lhes dei a provar."
Eu faço parte dos que passaram a ter estes apetecimentos pelas crónicas obscuras da Casa Encantada. Obscuras mas ofuscantemente luminosas. Por isso o melhor adjectivo é capaz de ser mesmo noctilúcido para o autor e o feminino para as crónicas — escuro como a noite, lúcido como a clareza do dia, ou apenas lúcido em conversas nocturnas.



O centésimo texto começa precisamente com um elogio da noite à mistura com as habituais obscuridades. Continuando os festejos da centésima crónica, Bérnard da Costa faz um "raccord" entre os tempos políticos dos idos de 2002 e os imprevistos políticos dos nossos dias. E depois fala de cinema, como que numa prenda entregue a si mesmo — um bolo para quem fez "voluntário jejum e voluntária abstinência" da sala escura.
Fala então do último filme de M. Shyamalan, "The Village". São de lá as imagens que aqui deixo. A cadeira no alpendre em que Ivy Walker e Lucius Hunt "declaram amor ao pôr do sol, ela por palavras e ele por olhares, até ser o contrário, e depois outra vez o contrário". A sineta para dar o alerta da visita "daqueles de quem não se pode falar". E no fim a própria Ivy, a improvável heroína, que não vendo viu mais que qualquer outro.



Estava eu dizer que no fim da sua crónica, o João (se "afinal de contas há cem noites que dormimos juntos" posso tratá-lo por tu) fala de "The Village" e de "aqueles de quem não se pode falar". Não vou citar, para não estragar o filme a quem ainda não viu. Mentira: «A pergunta que me ficou quando, em corte abrupto, a imagem passa ao negro, no final, deixando a fábula suspensa, é a pergunta sobre o verso e o reverso das figuras de evasão. Se o inferno não nos metesse tanto medo, o paraíso seria tão desejado? Ou — voltando ao princípio, jã não do filme mas destes textos — por que razão inventei eu uma casa encantada e crónicas como esta? Vejam o filme e depois conversamos. Não podemos falar "deles". Mas, se pudéssemos, de quem falaríamos afinal? Inventamos para nossa defesa ou defendemo-nos inventando? Em cem crónicas não falei de outra coisa, se bem me entenderam ou se eu bem os entendi.»




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