29.11.04
alegria

Os camponeses voltaram ao cultivo da Terra.

26.11.04
o triste riso
Hoje fui ver "2 Perdidos Numa Noite Suja", do dramaturgo brasileiro Plínio Marcos. Foi brilhantemente levado à cena, por Sílvia Brito, pela companhia Escola da Noite. Em palco Paco e Tonho (Carlos Marques e Ricardo Correia) — dois perdidos, sozinhos em várias noites dos dias sujos que levam. Num quarto de pensão, os dois homens dialogam num clima de aspereza, tensão e desespero sobre as duras condições em que sobrevivem. No ambiente terrível que domina a peça, o humor surge esporadicamente com deixas mais ou menos caricatas de ambos os actores. Mas é duma tragédia que estamos a falar. A tragédia de duas vidas que não encontram saída, a tragédia das oportunidades que não aparecem, dos azares e ameaças que perseguem, daquela pequena coisa que falta para "dar a volta à vida" e que nunca mais aparece. Nas palavras da encenadora: "As vozes que Plínio trouxe ao teatro não são só as dos seres marginais em tempos de ditadura. São as vozes que, em todos os tempos, continuam abafadas sob a realidade das desigualdades gritantes — são as vozes da geral pobreza humana de meios de subsistência, de acesso à beleza ou de conforto nos afectos que só muito poucos conseguem iludir".
Com tudo isto, como explicar que uma parte do público tenha estado a rir nos momentos de tensão, nos momentos onde a conversa azedava entre Paco e Tonho, nos momentos de violência? Duas asneiras numa frase e um assobio transformam uma situação gritante numa gargalhada? Os actores são bons — excelentes! —, só sobra a hipótese de o público ser uma merda. Quem vai ver "2 Perdidos" e se ri mais de três minutos perdeu a sensibilidade. E quando se perdeu a sensibilidade a ponto de responder com gargalhadas face à miséria e ao desespero, perdemos um pedaço da nossa humanidade.
A peço é excelente. O público, hoje, foi uma merda.

25.11.04
lições para a democracia
A propósito do 15º aniversário da Revolução de Veludo (17 de Novembro de 1989), Vaclav Havel publica um texto sugestivamente chamado "O Que o Comunismo Ainda nos Pode Ensinar". É uma análise da situação da democracia no ocidente. É simultaneamente um alerta contra os que querem fazer da política uma mera técnica de administração de povos, nações ou outra coisa qualquer. Já aqui disse que se pode estar na política aceitando o mal que existe e aplicando um bocadinho de cosmética, ou aceitando que o que existe não é o melhor e necessita sempre de ser repensado e os males combatidos. É a diferença entre encarar a política como a arte do possível ou como a arte de tornar possível o que não o é. É achar que a democracia é apenas a rotação dos ocupantes das cadeira do poder, ou achar que ela serve para sermos donos do nosso destino. É acreditar que a política se faz com valores ou simplesmente como jogo de influências. É a diferença entre acreditar na mudança ou por tudo e por nada culpar "o sistema", recusando a responsabilidade pessoal.
Mais contente (ou triste) fico quando o grande antigo Presidente da República Checa (e responsável pela sua transição democrática) vem falar disso mesmo. Vaclav Havel faz um paralelismo entre a alienação actual e a alienação sistemática do comunismo, para daí tirar alguns desafios urgentes para a ordem mundial. Queria deixar um trecho, mas fica quase todo o artigo (sublinhado meu):

«(...)Hoje, vivemos numa sociedade democrática, mas muitos - não só na República Checa - ainda crêem que não são verdadeiros donos do seu destino. Deixaram de acreditar que podiam realmente influenciar os acontecimentos políticos e, ainda menos, influenciar o rumo que a nossa civilização está a tomar.
Durante a era comunista, muitos acreditavam que os esforços individuais para uma mudança não faziam sentido. Os líderes comunistas repetiam constantemente que o sistema era o resultado das leis objectivas da história, que não podiam ser postas em causa e, pelo sim pelo não, quem recusasse esta lógica era punido.
Infelizmente, a maneira de pensar que suportava a ditadura comunista não desapareceu completamente. Alguns políticos defendem que o comunismo caiu sob o seu próprio peso - uma vez mais, devido às "leis objectivas" da história. De novo, a responsabilidade e as acções individuais são relegadas para segundo plano. O comunismo, segundo dizem, era apenas um dos becos sem saída do racionalismo ocidental, por isso, bastava esperar passivamente que caísse.
Essas mesmas pessoas tendem a acreditar noutras manifestações de inevitabilidade, como as alegadas leis do mercado e outras "mãos invisíveis" que gerem as nossas vidas. Como nesta forma de pensar não existe muito espaço de manobra para a acção moral individual, os críticos da sociedade são muitas vezes ridicularizados e rotulados de moralistas ingénuos ou elitistas.
Talvez esta seja uma das razões pelas quais, passados 15 anos da queda do comunismo, se assiste novamente a uma apatia política. A democracia é cada vez mais um mero ritual. Em geral, ao que parece, as sociedades ocidentais estão a passar por uma certa crise da democracia e da cidadania activa.
Também se poderá dar o caso de estarmos apenas a testemunhar uma mudança de paradigma, causada pelas novas tecnologias, e de não precisarmos de nos preocupar. Mas talvez o problema seja mais profundo: as empresas globais, os cartéis da comunicação social e as poderosas burocracias estão a transformar os partidos políticos em organizações cuja principal tarefa deixou de ser o serviço público para passar a ser a protecção de clientelas e interesses específicos. A política está-se a tornar num campo de batalha de "lobbistas"; os "média" trivializam problemas sérios; frequentemente, a democracia parece mais um jogo virtual para os consumidores, do que um assunto sério para cidadãos sérios.
Quando sonhávamos com um futuro democrático, nós, os dissidentes, certamente que tínhamos ilusões utópicas e hoje temos plena consciência disso. No entanto, não estávamos errados quando argumentávamos que o comunismo não era um mero beco sem saída do racionalismo ocidental. A burocratização, a manipulação anónima e a ênfase no conformismo das massas foram levados até à "perfeição" pelo sistema comunista. Porém, algumas dessas ameaças continuam a existir actualmente.
Nessa altura, já tínhamos a certeza de que, se a democracia fosse esvaziada de valores e reduzida a uma competição de partidos políticos com soluções "garantidas" para tudo, poderia ser bastante anti-democrática. Era por isso que dávamos tanta importância à dimensão moral da política e a uma sociedade civil activa enquanto contrapeso aos partidos políticos e às instituições do Estado.
Também sonhámos com uma ordem internacional mais justa. O fim do mundo bipolar representava uma grande oportunidade para tornar a ordem internacional mais humana. Em vez disso, assistimos a um processo de globalização económica que escapou ao controlo político e, consequentemente, está a causar a ruína económico bem como a devastação ecológica em muitas partes do mundo.
A queda do comunismo foi uma oportunidade para criar instituições políticas globais mais eficazes com base nos princípios democráticos - instituições essas que poderiam ter impedido o que parece ser, na sua actual forma, a tendência auto-destrutiva do nosso mundo industrial. Se não queremos ser controlados por forças anónimas, os princípios da liberdade, igualdade e solidariedade - os fundamentos da estabilidade e da prosperidade das democracias ocidentais -, têm de começar a funcionar a nível global.
Sobretudo, é necessário - tal como foi durante a era comunista - não perdermos a fé no significado de centros alternativos de pensamento e acção cívica. Não nos deixemos manipular, acreditando que as tentativas para mudar a ordem "estabelecida" e as leis "objectivas" não fazem sentido. Vamos tentar construir uma sociedade civil global e insistir na ideia de que a política não é apenas uma tecnologia de poder e que tem de ter uma dimensão moral.
Ao mesmo tempo, os políticos dos países democráticos têm de pensar seriamente nas reformas das instituições internacionais, porque necessitamos desesperadamente de instituições que tenham a capacidade de governarem realmente a nível global. Poderíamos começar, por exemplo, com as Nações Unidas, que, na sua actual forma, são uma relíquia da situação imediatamente posterior à II Guerra Mundial. Não reflectem a influência de algumas das novas potências regionais ao mesmo tempo que equiparam de forma imoral países cujos representantes são democraticamente eleitos com outros cujos representantes apenas se representam a si próprios ao às respectivas "juntas", na melhor das hipóteses.
Nós, europeus, temos uma tarefa específica. A civilização industrial, que actualmente invade o mundo inteiro, teve origem na Europa. Todos os seus milagres, como as suas terríveis contradições, podem ser explicados como consequência de um sistema que teve início na Europa. Assim, a união da Europa deveria constituir um exemplo para o resto do mundo sobre a melhor forma de o enfrentar os vários perigos e horrores que nos cercam hoje.
De facto, esta tarefa - que está intimamente ligada ao sucesso da integração europeia - seria a completa realização do sentido europeu de responsabilidade global. E seria uma estratégia bem melhor do que culpabilizar a América por todo e qualquer problema do mundo contemporâneo.
»

um milagre desperdiçado
No "Público" de segunda-feira saiu uma entrevista a David Grossman, escritor Israelita. Além da visão lúcida e inteligente da situação do conflito israelo-palestino, o que mais impressiona é a tristeza dos anos que passaram desde a fundação do estado judaico. E o medo que o fim do sofrimento tarde. Esta tristeza e consternação não o impedem de exprimir a sua profunda alegria pelo facto de o povo judeu ter uma pátria — que deveria ser acarinhada pela comunidade internacional, como foi dito na Rua da Judiaria. Precisamente por sentir essa alegria profunda por haver uma terra que os judeus possam chamar sua, Grossman empenha-se nas tentativas de solução da crise. E não tem receios em dizer que apoiaria a Barghouti (condenado a cinco penas de prisão perpétua em Israel) como líder palestiniano. Ou dizer que os Estados Unidos deveriam pressionar mais Israel. Ou dizer que é contra o muro de separação porque não quer viver "numa realidade onde estou seguro porque eles estão cercados".
Ficam alguns recortes:

«Somos os mais fortes, os ocupantes, temos muito mais margem de manobra. Somos mais estáveis do que os palestinianos, que apenas agora começaram a amadurecer politicamente. Dito isto, há simetria numa coisa: na capacidade de cada lado tornar a vida do outro amarga. Israel é um superpoder, temos uma centena de bombas atómicas algures, e no entanto, ficamos aterrorizados quando os nossos filhos vão para a rua. Portanto, de certa forma o sentimento de estar cercado é comum. Acredito que a vida deles é muito mais horrível, que devíamos ser mais generosos, gostaria de ver o meu primeiro-ministro a ir amanhã oferecer algo e pedir desculpa aos palestinianos pela injustiça que Israel lhes infligiu. E esperaria, em retorno, ouvi-los pedir desculpa pelo que fizeram. Porque não se tratou sempre da gloriosa luta pela liberdade. Foi também terrorismo.

«Há tanto sobre a vida que não conhecemos, porque nascemos neste conflito, estamos programados pela violência. E a vida pode ser tão melhor. Basta pensar em toda as energias, todo o dinheiro, todo o sangue que gastámos na Cisjordânia e em Gaza, que incluem alguns pontos que fazem parte da "divina promessa de Israel", para os religiosos. Toda a nossa vida, todo o nosso futuro estão escravizados a isto. Combatemos uma guerra que em parte se tornou irrelevante. Continuamos a fazê-lo porque somos manipulados por extremistas, por visões mundiais de líderes que cristalizaram e não vêem que há outras possibilidades entre nós e os palestinianos, entre nós e toda a região. O projecto dos colonatos era o grande projecto nacional de Israel, e pense-se em tudo o que podíamos ter feito com os milhões que o governo gastou aí.

«Quando se é um país muito pequeno, cinco milhões de judeus, e estamos rodeados por mais de 250 milhões de muçulmanos, cujos líderes nunca mostraram boa-vontade em relação a Israel; e quando dentro de Israel há uma minoria de um quinto que é muçulmana, e eles partilham os objectivos dos países à volta... Se Portugal estivesse na mesma situação, quantos anos seria capaz de manter a democracia como nós temos mantido? Quantos anos teria esta liberdade de discurso que me permite estar sentado aqui, no coração de Jerusalém, a fazer críticas duras aos líderes israelitas?
Não é algo garantido que Israel possa manter isso. Muito mais natural é os israelitas estarem aterrorizados, quererem armar-se até aos dentes. Por quantas guerras passámos nos últimos anos, nem todas por causa de nós, algumas contra nós? Se se recordar de onde vimos, desta História traumatizante, de que Israel foi criado apenas três anos depois da Shoah, e subitamente, na Guerra dos seis dias, em 1967 [quando Gaza foi tomada ao Egipto e a Cisjordânia à Jordânia], ficámos com esta enorme quantidade de território para um estado tão pequeno...
Território significa poder para uma nação que durante dois mil anos viveu uma vida abstracta, vida sem terra, sem exército, sem presença física. Ter estes territórios significou uma grande confiança, uma segurança de estarmos vivos, de sermos grandes, de não nos poderem derrotar. E logo depois, começou esta narrativa, que ainda hoje prevalece, de que os árabes não querem a paz, que nunca no futuro poderão estar em paz connosco.

«É muito difícil acreditar que teremos um futuro. Eu nasci em 1954, o que é apenas nove anos depois da Shoah, e no meu bairro, durante criança, era acordado a meio da noite por gente que gritava com pesadelos sobre a Shoah. São precisas gerações para recuperar de um trauma assim.

«Para mim, Israel é uma espécie de milagre. Pensar na oportunidade histórica de criar este Estado depois da Shoah, como a nossa vida era miserável antes, como estava espalhada pelo mundo. E de alguma forma estamos a desperdiçar isso.

«Só [sairía de Israel] num único cenário: se Israel deixar de ser uma democracia, não ficarei aqui nem mais um dia. Recebo vários convites para ir para fora, um ano, meio ano. E não quero fazê-lo. É o meu país. Não se abandona um familiar muito doente. Apesar de tudo o que acontece, talvez por ser um escritor de ficção, vivo todo o tempo com alternativas na cabeça. Como a hipótese de Israel nem ter existido - e isso aterroriza-me. Depois de 80 gerações de judeus que viveram sem um país, fui abençoado pela sorte de ter nascido neste país, portanto, embora haja tanto nele de que não gosto, há muitas coisas de que gosto realmente. E há algo na atmosfera, na vitalidade das pessoas, na forma como sabem ser solidárias de uma forma espiritual que ainda existe aqui. Esse poder da linguagem, da estimulação de ideias.
É o único sítio da terra onde não me sinto um estranho, e isso é algo muito novo para um judeu. Penso sempre que se há 75 anos um anjo viesse ter com o meu avô em Varsóvia e por um segundo lhe mostrasse uma cena nocturna na minha casa, eu, a minha mulher, três filhos, a comer um jantar que foi produzido com agricultura israelita, frutas, vegetais, os meus filhos a falarem hebraico, uma língua meio-morta há cem anos! E que tudo é israelita, tudo é deste lugar, até veria o seu neto a escrever artigos violentos contra um primeiro-ministro israelita! O meu avô pensaria que ou o messias tinha chegado ou o anjo estava louco. Era impossível e agora é a nossa realidade aqui.
Mas é uma realidade tão frágil e estou tão aterrorizado que alguma coisa aconteça a este lugar por causa de todos estes erros. Todo o tempo oscilamos entre catástrofe, tragédia e milagre, todo o tempo. E eu quero alguma normalidade. Viver num lugar sem inimigo, sem contarmos o nascimento dos nossos filhos desde a última guerra.»

a utilidade de Deus
Há já alguns dias, o Timshel escreveu um texto em que volta a explicar porque considera que uma moral tem necessariamente que estar fundada sobre um princípio que nos transcenda. A célebre questão do cardeal Martini ao Umberto Eco: "em que crê quem não crê?", como fundamentar um conjunto de princípios de vida que não se alterem ao sabor das circunstâncias?
Do lado do Diário Ateísta, a resposta do Ricardo Alves não tardou. A proposta para uma ética laica é simples:
«(1) não devemos fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem;
(2) devemos abstermo-nos de fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem mas que sabemos que os outros podem não desejar que lhes façam;
(3) devemos fazer aos outros o que sabemos que querem que lhes façamos (excepto se entrar em contradição com (1)
»
Eu acho que é uma boa proposta. Mas quando tenho que a explicar a algum egoísta inverterado, o único argumento que consigo apresentar para nos chatearmos com os outros (o ponto 3) é a existência de um laço mais forte entre as pessoas, precisamente o que chamamos Deus. E por isso dizemos que Deus é Amor. Podia não ser, a humanidade já inventou muitos deuses tiranos. A novidade do cristianismo é precisamente propôr um Deus que ama as pessoas e cada pessoa incondicionalmente. Um Deus em relação. O amor não é uma questão secundária para o cristianismo, ao contrário do que Ricardo Alves diz nas idiotices do primeiro parágafo do seu texto.

Quanto a saber se a visão do Timóteo é utilitarista ou não, concordo com um comentário da Zazie de que é uma discussão meio bizantina. Todos temos necessidade de dar sentido à nossa maneira de ser e estar. Encontrar esse sentido numa visão ateísta do mundo pode igualmente ser considerado utilitarismo. E a verdade é que o pessoal do Ateísmo.net é muito, muito crente — crêem desmesuramente na superioridade da sua mundividência. Ou como disse a Zazie: "(...) a única grande diferença está no modo como se aceita ou não aceita a posição de cada um. Que me serviria dizer que tenho uma crença ou uma moral baseada no amor se depois, na prática agisse com a maior das intolerâncias para quem a não tem? E o mesmo se aplica a quem defende que não precisa da crença para respeitar os outros e depois, na prática, desrespeita-os pelo facto de terem crenças." E mais adiante: "(...) o que me parece realmente negativo é a forma simplista e fácil como se passa por cima do estudo e do conhecimento das religiões para se cair num combate de rua pela caricatura. Custa-me a entender esse aspecto."

Para quem quiser mesmo discutir a semântica da utilidade, vale o comentário do Fernando: "Uma concepção que faça fundar a moral em Deus pode dizer-se que é utilitária, embora a utilização do termo seja histórica e filosoficamente "bastarda", pois implica por aí um desvio semântico; ainda assim se for essa a linguagem partilhada, há que acrescentar o seguinte: Deus é útil porque nos serve - ou à moral - e nós somos - ou a moral - Seus utéis porque O servimos. Esta comunhão no movimento do cuidado, retira qualquer hipótese de transformar nós ou Deus num qualquer instrumento, coisa que é bem fácil fazer no dito utilatarismo (...)"

Estas citações são dos comentários deste e deste posts do Timshel, cuja leitura (dos posts e dos comentários) recomendo.

penitência
Esta segunda-feira os trabalhadores da Terra baldaram-se. Houve pelo menos um leitor que barafustou, e com razão, pelo desleixo destes fracos camponeses. Mea culpa também, que ao fim de sete dias julguei que podia descansar...
Para compensar, as quartas-feira têm-se mantido com grande qualidade. Alguns excertos das duas últimas edições:

Timshel, sobre as generalizações e tabús:
Para um cristão, se existir uma raça de homens azuis em que 99,9% têm comportamentos criminosos frequentes, não é justificável afirmar que todos os homens azuis são muito pecadores nem é justificável tratar, directa ou indirectamente, de modo discriminatório, os 0,01% de homens azuis que não são criminosos. Não é justificável moralmente dizer, nomeadamente, com aparente neutralidade, que se constata entre os homens azuis uma elevada taxa de criminalidade. Porque isto já é discriminação para os 0,01% de homens azuis que não são criminosos.
As categorizações generalistas são por vezes adequadas para efeitos de diagnóstico de generalidades. Mas para um cristão, o que é importante não são os diagnósticos colectivos estatísticos mas as terapêuticas individuais.


Miguel, sobre a laicidade e de como ela é mal entendida dentro e fora da Igreja:
Tenho para mim que a laicidade não é negativa. Pelo contrário: só faz bem à Igreja, às igrejas e às religiões. Aliás, é "condição nossa", de crentes não eclesiásticos (chamemo-nos assim – e, por isso, preferiria usar o termo "secularização", mas já que até o senhor cardeal da Cúria assim fala...). Eu que sou leigo na Igreja quero meter-me a sério nas coisas públicas, mas sem a necessidade de publicitar a minha condição de católico. Não preciso. Do que me devo arrepender é, na coisa pública, actuar como se não fosse católico: achar que a guerra é coisa normal, que o desemprego em crescendo é inevitável, ter como certa a existência de pobres ou preguiçosos que gostam de viver do rendimento mínimo.

Fernando, em reflexões sobre a liturgia do domingo passado (festa do Cristo-Rei):
«Ai, vizinha, nem sabe a cruz que carrego!», podia dizer – ou disse – alguma das personagens da Aldeia da Roupa Branca(...).
Mas se isso é verdade, se pegar na cruz é pegar nos nossos trabalhos, é também verdade que é pegar na nossa vontade. É passar a nossa vontade pela cruz.
O que é que isto quer dizer? (...) talvez possamos dizer que isso significa abdicar de querermos reinar no mundo. Abdicar de tentar submeter os outros à nossa vontade, não porque ela é má, porque por aí as razões seriam evidentes, mas porque mesmo quando boa, se realizada contra a vontade dos outros isso destruiria um dos maiores dons que Deus nos deu: a liberdade.
Foi isso que ganhámos com a não intervenção dos exércitos celestes. A certeza da fidelidade de Deus: Deus deu-nos a liberdade e ela foi mantida mesmo quando nós levamos o Seu filho à Cruz e à Crucificação… A terra podia ter vivido a partir daí debaixo do Seu reino. Mas esse Reino de Adão até hoje, sempre foi e é um reino de liberdade. Passar a nossa vontade pela cruz? – Viver em paz com a liberdade dos outros. Mesmo quando. Mesmo quando...


José, num texto que não é sobre a "educação católica":
Eu fui educado como católico mas não é por isso que ainda o sou. Diria antes que é apesar disso que o sou. Aliás, a educação católica é algo que em rigor não existe. Nós católicos não somos como os muçulmanos nem temos as madrassas que eles tem. A nossa chamada educação católica não é mais do que educação geral num ambiente exteriormente católico. Obviamente, a educação religiosa não deve servir para nos impôr a Fé. Isso simplesmente não é possível. Mas o que deveria fazer era pôr-nos minimamente em contacto com o conteúdo ou contexto histórico, filosófico, sociológico e cultural da nossa Fé. E é aí que a coisa falha normalmente. Senão como explicar que, tendo eu andado na catequese até aos 14 anos (e dela saí quando, embora não assumidamente, tinha já perdido a minha primeira fé), só já depois dos 30 é que percebi a simbologia do Génesis e a relação entre Antigo e Novo Testamentos, só depois dos 30 é que li os Evangelhos na íntegra, só perto dos 40 é que, como dizia S.Tomás de Aquino, comecei a ter alguma inteligibilidade na minha Fé?

Escuto
Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco


Sophia, para o CC, a propósito do seu último texto na Terra da Alegria.

22.11.04
Tempestade
Impressionante como as pessoas que não se esforçam nada se safam bem. Impressionante como vejo que são as pessoas que se implicam realmente em fazer um trabalho sério e exigente que se vêem zangadas, magoadas e mal tratadas. Quem se safa bem, quem não abre a boca não impressiona pela positiva mas também não marca pela negativa. Passam as aulas sem abrir o bico, passam as reuniões sem comentar, ouvem tudo o que se diz mas não produzem opinião. Cozinha-se assim a arte do nada fazer e por nada ser responsabilizado. Passam assim estas nuvens por nós, se for preciso passam apenas por tímidos.
As pessoas que avançam, que arriscam, que tentam usar a inteligencia que têm, são também aquelas que erram.
Quantos de nós já não fizeram trabalhos partilhados, onde se distribuem tarefas? Quantas vezes nos esforçámos por fazer a nossa parte bem, de forma a que os outros a possam usar, compreender, estudar com tempo? Quantas vezes encontrámos pessoas no grupo que pouco se importam, não fazem a sua parte, despacham com o mínimo de esforço e no final ainda se safam gloriosamente de o ter de defender? É que a letra é do outro, etc. Quem não faz nada tem sempre a desculpa que não está por dentro do assunto.
Vejo isto acontecer com pessoas que admiro, que são empurradas para lugares de chefia que ninguém quer, que são sempre mais e mais atafulhadas de trabalho e cada vez mais criticadas. E quem critica? Aqueles que nunca se implicam.
Hoje o dia é de tempestade. Peço desculpa.

21.11.04
Pelo leitor e amigo Dr. José António Ferreira


SENHORAS, CAVALHEIROS, CIDADÃOS, CIDADÃS:

A imagem que a este precede, retirada do sítio do ppd/psd, representa:

a) o planeta, circundado por anéis, laranja e concêntricos, organizados de forma a indicar, por flecha, o espaço imenso, a via láctea ...?;

b) ou, de outra forma, representa um pião, cujo movimento é impulsionado por vários cordéis, concentricamente organizados, mas sem ligação entre eles, de forma a ser puxado por quem agarra a seta e que, por que os cordéis não estão atados, acaba por não transmitir qualquer movimento ....?;

c) ainda, o movimento universal que, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, expulsa, no sentido em que a seta aponta, aqueles que cavalgam os diversos corredores de laranja representados....?


JAF, segunda-feira, 15 de Novembro de 2004

16.11.04
MAResia
Antes. MARta gostava de experimentar coisas diferentes mas nunca fora de esoterismos, de facto nunca se tinha sequer interessado, ao ponto de não saber distinguir entre os diferentes "conhecimentos" ditos "orientais". Ela tinha algum cepticismo em relação a esses espiritualismos, talvez a forma que conhecesse mais próxima deles fosse para ela "o optimismo".
Quando MARco lhe apareceu com os olhos brilhantes e um "tens que experimentar" ela acedeu curiosa sabendo que aquela conjunção de factores que vinham com o convite eram de confiança. Ser MARco a convidá-la era garantia de coisa boa.
Quando caminhou em direcção ao Reiki, MARta ia nervosa com medo que lhe descobrissem coisas más nela que ela nem sequer soubesse que tinha. Ia sem saber ao que ia, MARco acreditava que era importante ela não saber de antemão como funcionava, não criar expectativas. Até porque cada sessão de Reiki era diferente consoante a pessoa, quem desse o Reiki, o espaço onde acontece, o momento.

A sessão. MARia preparou a sala. MARta deitou-se no chão onde MARia lhe estendera um saco-cama. Aos pés tinha velas acendidas por MARia. A música que tocava era suave, pacificadora. MARia deitou-lhe por cima 3 cobertores dobrados e mais um nos pés. "VAi descontraindo", disse ela quando saíu da sala para se preparar.
MARta tentou descontrair, ouviu a música, tentou pôr-se confortável, bem.
Quando MARia voltou começaram, MARta não abriu os olhos. Sentiu a cabeça começar a estalar como bolinhas que subiam. Sentia o corpo todo, sentia-se quente e nada descontraída, pelo contrário sentia-se tensa. Relembrou coisas de quando era pequena, relembrou-se de pessoas amigas, dos olhos delas, dos pais. Teve recordações boas em cacho, depois recordações más em cacho. Houve uma altura em que teve momento de chorar. Teve fases de algum alívio mas grande parte do tempo estava quente e desconfortável. Sentia os pés, os braços, todo o seu corpo, tinha consciência dele; até sabia onde estava o seu cérebro. O corpo parecia separado da mente que recordava ou via imagens sem parar. A certa altura sentiu as mãos a levantarem, podia assim o quisesse impedi-las mas não queria. A música continuava por entre tudo o que ela era.
- Acabámos - disse MARia, - sentes-te bem?, disse com ar de quem sabia que a resposta era negativa.
- Não, sinto os braços com energia! Senti que aconteceu aqui imensa coisa mas coisa inexplicáveis, incompreensíveis.
MARia recomeçou mas desta vez tocando-lhe com as mãos. Nos cotovelos, nos ombros, na cabeça, no peito, nas pernas nos pés. MARta finalmente descontraíu. No fim falaram uma de cada vez sobre o que tinham sentido, lembrado, MARia falou muito sobre MARta, sobre quem tinha sentido ser MARta.
A dada pergunta MARta com vontade de responder sentiu que não conseguia.
- Não con-si-go - balbuciou.
- Queres chorar?
- Estava a tentar não o fazer.
Começa a tremer, a soluçar, impotente sobre o seu corpo, tentava respirar fundo sem conseguir. O corpo não lhe respondia e explodia em nervos. Esteve assim durante meia-hora, MARia recomeçou a tocá-la, a falar com ela, a acalmá-la, a fazer perguntas e deu-lhe dois cristais para as mãos. MARta foi acalmando e soube quando tinha acabado a sessão, abriu os olhos por ela mesma.

Depois. Abraçou com muita força MARia, tinham sido muito intímas no que tinham vivido. Tentou regressar devagarinho a si. Saíu de lá em pulgas para contar a MARco. A sensação de alívio que tinha no peito, as conversas que tinha tido, as sensações. Sentia que tinha largado um peso enorme, que tinha revolvido todo o seu passado no fundo mais profundo, em zonas que não sabia que existiam. Resolvido problemas que tinha, que ela desconhecia. Contou-lhe tudo, clamou como era "impressionante", "incrível" vezes sem conta. Mostrou-lhe o livro que MARia lhe tinha emprestado: "Mãos de Luz". Trocaram beijos.

Agora. MARta tem contado aos amigos mais próximos empolgada e palavrosa onde foi e o que viu. Como se tentasse encontrar neles uma resposta para tão importante viagem. Os amigos, por sua vez, entusiasmam-se, sem conseguirem perceber se entendem ou nem por isso tamanha descrição MARta tem medo que alguma coisa naquela mudança volte atrás. Hoje MARco ofereceu-lhe como prenda um poema pequeno de Sophia, que dizia,

"Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante."

MARta era aquele poema. Palavras que entendeu e que a deixam sedenta em vontade de se deitar outra vez entregando-se ao experimentar sem compreender nas mãos de MARia.

Outra estória de incompreensão
"Um macaco passeava-se à beira de um rio, quando viu um peixe dentro de água. Como não conhecia aquele animal, pensou que estava a afogar-se. Conseguiu apanhá-lo e ficou muito contente quando o viu aos pulos, preso nos seus dedos, achando que aqueles saltos eram sinais de uma grande alegria por ter sido salvo. Pouco depois, quando o peixe parou de se mexer e o macaco percebeu que estava morto, comentou - que pena eu não ter chegado mais cedo!"

(Mia Couto)

a sétima lição
Chegaram ontem ao fim as lições de moral. Com um texto sobre a coerência, na edição extra da Terra da Alegria, a que chamei "Desfragmentação do Quotidiano". Termina com um texto da Maria de Lurdes Pintasilgo, já aqui citado. Podia resumir-se naquela célebre frase de Mahatma Ghandi:

«Nós devemos ser a mudança que queremos ver no mundo.»

Chega assim ao fim uma série de sete textos com títulos descaradamente roubados ao Luís Barbosa. Enquanto procuro inspiração para as próximas escritas, ficam os links para o conjunto:

A escuta | A história nunca pode ser travada | A complexidade | O lugar do Outro | Cidadania na Igreja | "As pedras hão-de gritar" | Desfragmentação do quotidiano


(e.e. cummings)

15.11.04
Perplexidades
história primeira: Uma mulher apresenta uma rouquidão pronunciada há uma série de meses. Vai a uma consulta no hospital. Depois de vários exames desconfia-se que esta mulher terá um tumor no mediastino. É absolutamente essencial um TAC para o confirmar. Como todos sabemos nesta doença corre-se contra o tempo num tratamento que queremos curativo. No hospital dizem que esta doente só poderá fazer o TAC daqui a 10 meses. O médico tem de enviar uma carta ao médico de família para que este faça a requisição deste exame, de forma a que esta doente o possa realizar num privado com participação do estado. Este médico de família pode ser seriamente repreendido pela administração do Centro de Saúde por pedir um exame para outro médico. Este médico pode-se recusar a pedir o referido TAC. Acontece mesmo. Assim, o médico do hospital terá de pedir o internamento desta doente para que possa então ter o seu TAC (ganha prioridade). Um internamento fica em dezenas de euros por dia. O estado paga ou então poderá pagar a vida desta mulher.

história segunta:
Um homem, testemunha de Jeová, entra nos cuidados intensivos de um hospital. Assina um papel a dizer que recusa qualquer transfusão de sangue. A situação agrava-se, o Sr. perde a consciência e só poderá viver com uma transfusão. Fala-se com a família que continua a recusar a transfusão. A equipa médica discute. Há opiniões diferentes. Fala-se com a administração do hospital que diz que a opção filosófica daquele hospital é: "não se deixa morrer ninguém à míngua de um tratamento eficaz", que num caso de vida ou morte, quando a pessoa não está consciente que a equipa médica pode optar por salvar a vida ao doente. Argumenta-se a previsão de autorização, isto é, que possivelmente o Sr. mudaria de opinião. Mais se discute, os alunos entram na discussão. A transfusão será feita. A família avisada.

história terceira: Uma mulher entra com um quadro de insuficiência hepática aguda. Prevendo-se que a situação piorará pede-se em S.O.S. um fígado para transplante. Passados uns dias consegue-se um e na avaliação pré operatória o médico verifica que a doente não reúne as condições necessárias ao transplante (não há falência renal, a Sr.ª está consciente.) É preciso dizer que ela estaria a passar à frente de muitas outras pessoas porque se trataria de uma urgência. Uma rapariga recebe o fígado. A primeira senhora vem a piorar uns dias mais tarde, pede-se de novo um fígado, agora já reunia as condições, mas ele não chega a tempo. O médico é levado a tribunal.


danaid, auguste rodin

histórias muitas do meu dia-a-dia. Não dando nenhuma resposta. O certo e o errado, o bom e o mau, a vida e a morte andam bem mais lado a lado do que poderia pensar.

Cair em tentação...


... escolher vir pela estrada de Monserrate que liga Colares a Sintra pela serra a ouvir a Antena 2.
Antiga e de curvas, proporcia-nos um festival de cores bonitas genialmente criadas por sol brincalhão que espreita por entre árvores a escolher bater nos castanhos avermelhados das folhas. Contornamos a Regaleira, passamos por Seteais, cumprimentamos os jardins de Monserrate, espreitamos a vista da capela da Eugaria e desenbocamos num Bach ou num Mozart reconciliador.

o silêncio perdura ...



Igreja de Santa Maria (Marco de Canavezes)
1990-1996
Álvaro Siza

14.11.04
o mundo em sua casa
A Intercultura-AFS é uma Associação de Voluntariado Jovem sem fins lucrativos. Não tem filiações partidárias, religiosas ou outras e tem estatuto de Instituição de Utilidade Pública. Tem como objectivos contribuir para a Paz e Compreensão entre os Povos através de intercâmbios de jovens e famílias, para uma Aprendizagem Intercultural e Educação Global.

O programa "AFS – Famílias de Acolhimento" dinamiza experiências de Intercâmbio em que um jovem estudante vem viver, durante um ano, semestre ou trimestre lectivo para o nosso país, fica numa família de acolhimento e estuda numa escola secundária. O estudante deverá ser integrado como um membro da família. Partilhará das alegrias e problemas familiares, dos privilégios e responsabilidades como todos os membros da família.
Anualmente a Intercultura-AFS recebe muitos estudantes, com idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos, provenientes dos mais variados países. Este programa permite às família de acolhimento um contacto com uma nova cultura, outra língua e outra forma de pensar e estar.
As Famílias que queiram participar nesta experiência Intercultural devem contactar o escritório em Lisboa entre as 9h30 e as 18h. A escolha do estudante é sempre feita pela família de acolhimento.

Aí está uma boa oportunidade para aprender o acolhimento e a vivência da aprendizagem intercultural! Um grande desafio ao alcance de qualquer família — integrar uma pessoa com uma cultura e experiência de vida muito diferentes das nossas. Em tempos de intolerâncias e extremismos, a nossa capacidade de acolher o diferente é sem dúvida um testemunho profético.

13.11.04
post de dia 11
No dia 11 o Quase em Português fez um ano. Mais um aniversário que vale a pena comemorar! Um abraço e um copo de Porto para o Lutz.

Mais uma nota: não perder os posts recentes evocando os dias da queda do Muro de Berlim.



post de dia 10
Um post em atraso, para anunciar a última edição da Terra da Alegria onde se fala do Amor e de como ele é subversivo, dos almoços grátis e da Criação, dos mártires e da sua serenidade, da Igreja e de como ela lida com a riqueza, da Comunidade de Taizé o no 27º Encontro Europeu de Jovens.

11.11.04
poesia de amigo
"Deus,
Mar,
coisa bela,
hoje fiz um amigo:
nasci, morri
e voltei a nascer.
e o tempo por um instante
por uma troca de olhares
tornou-se cego"

"Amigo,
que hei-de deixar aqui nesta hora,
agora que me vou embora,
que te vais,
que hás-de ler aí sozinho no cais,
deitado na margem,
sentado na cama,
Se não o contrário de lama,
o simples "boa viagem"?!

Sim, responde o amigo,
que vou comigo contigo..."

Escrita à solta


Sempre gostei de escrever, quando tive de escolher o curso a fazer e por entre dúvidas e dúvidas o Jornalismo foi uma das ideias que me passou pela cabeça, e teve quase corpo... dizimada em cinzas por alguém jornalista que também anda por aí no mundo dos Blogues me ter confirmado a ideia de que no mundo da comunicação social não bastava ser bom, sem cunhas promíscuas não se fazia carreira por ali. Com certeza que esta pessoa já nem se lembra de ter dito isto, nem sabe a importância que teve na altura: as palavras têm estas forças de dizer, de pensar, é preciso cuidado com elas, tratá-las com carinho.
Hoje, gostando de escrever como dantes, percebo, no encanto que ainda tenho pelo mundo do jornalismo, que o gostar de escrever, muito provavelmente, não seria no jornalismo que o saciaria, (embora talvez havendo formas de jornalismo que o fizessem).
No curso que escolhi, pensei sempre que para lá de todo o gozo que me poderia dar o mundo das ciências sociais e de trabalhar com gentes (premissa importante), ainda havia o grande desafio de escrever sobre elas, de conceber gente forte a quem a vida custou, de relatar o anónimo. Sem saber muito bem como, a vida me tem guiado por caminhos em que isso existe, em que é bom poder estar onde estou. No estágio que agora estou a fazer tenho encontrado todos os dias histórias que contar.
Quando eu for grande... quando eu for grande quero ainda ter este prazer de dar bocadinhos de mim por palavras, de me reinventar em escritas, de encontrar os outros nelas; mas isso são outros blogs!

Na rádio


Não ando numa fase especialmente melancólica e nostálgica da minha vida, mas estas coisas vêm ter comigo quais borboletas bamboleantes aos beijos e eu escrevo-as aqui. Podia não escrever, mas... Foi assim, estava num carro de rádio roufenho com k7 velhota cheia de gravações por cima de gravações e de repente, "Hey! eu conheço este som, xiiii, que saudades, MAMONAS ASSASSINAS!!! Aquele álbum entusiasmante de brincadeira musical que eu sabia de cor." E pronto, faço aqui uma homenagem com esta serenata de embevecer: "Uma Arlinda Mulher". Esperemos que continuem divertidos onde quer que existam...

«Te encontrei toda remelenta e estronchada num bar entregue às bebidas
Te cortei os cabelos do sovaco e as unhas do pé e te chamei de querida
Te ensinei todos os autos-reverse da vida e o momento da translação que faz a terra girar
Te falei que era importante competir, mas te mato de pancada se você não ganhar
Você foi agora a coisa mais importante que já me aconteceu neste momento em toda minha vida
Um paradoxo de pretérito do imperfeito, complexo com a teoria da relatividade
Num momento crucial um sábio soube saber que o sabiá sabia assobiar
E quem amafagafar os mafagafinhos, bom amafagafigador será
Te falei que o pediatra é o doutor responsável pela saúde dos pés
O zoísta cuida dos zóio e os oculista, Deus me livre, nunca vão mexer no meu
Pois pra mim você é uma besta mitológica com o cabelo pixaim parecida com a Medusa
Eu disse isso pra rimar com a soma dos quadrados dos catetos é igual à porra da hipotenusa
Você foi agora a coisa mais importante que aconteceu neste momento até hoje em toda minha vida
Um paradoxo de pretérito do imperfeito, complexo com a teoria da relatividade
Num momento crucial um sábio soube saber que o sabiá sabia assobiar
E quem amafagafar os mafagafinhos, bom amafagafigador será
Eu fundei a associação internacional de proteção às borboletas do Afeganistão
Te provei por B mais C que as meninas dos teus olhos não têm menstruação
Dar um prato de trigo pra dois tigres e ver os bichos brigando é legal que só
Pois no tira e põe, deixa ficar da vida serei sempre seu escravo de jó
Logo agora que você estava quase entendendo o que eu estou falando
A canção está acabando e o creuzebek está abaixando alí o volume
E você não entende nada mesmo porque quando você estiver em sua casa nesse momento
A música vai estar baixinha e você não vai entender nem sei porque eu
tô falando um monte de besteira ja que isso tudo é,
Porra, vamos parar com iscabichhá rapaz!
Eu não aguento isso! Tá demais, e ta da doendo minha garganta
Eu tive que fazer alí, gargarejo com vinagre, soltei um peido aqui dentro...
Creuzebek: Caralho!
Está fedido o ambiente, meu deus estou dormente
Pelo amor de Deus pare com esta porra!
»

9.11.04
a tese do rearmamento da Europa
Com a vitória de Bush nas eleições americanas, a necessidade de rearmamento da europa é uma das ideias que têm sido apregoadas, inclusivé pelo director do "Le Monde". É uma ideia disparatada e inaceitável, Luís Salgado de Matos explica porquê (sublinhado meu):

«A vitória de Bush tem sido demonizada. O Daily Mirror, um jornal londrino, fazia dela título de primeira página: «Como pode haver 59.054.087 pessoas tão estúpidas?» Os europeus explicam-na pelo moralismo. O que significa: quem vota moralista é diferente de nós e inferior a nós. A explicação é lamentável - é bom acreditar em valores - e falsa: o voto dos evangelistas não aumentou e o eleitorado norte-americano não se tornou mais intolerante face aos gays, às mães solteiras, ao aborto.
Bush ganhou porque não houve mais atentados nos EUA, a riqueza individual americana atingiu o mais alto nível de sempre, o desemprego estabilizou - e Presidente candidato está meio eleito. [O americano médio, como o europeu, está-se a marimbar para o défice!]
Os meios de comunicação social europeus ocultam estes factos - e mentem ao dizerem que os yankees foram derrotados no Iraque. O ataque foi errado mas os americanos venceram. E sabem-no.
A questão central não é se Bush é bom. É se somos aliados dos EUA. Por mau que Bush seja, não os desfigurou ao ponto de os transformar em território inimigo. Temos que aceitar os nossos aliados como são. Se discordamos deles, devemos apresentar-lhes contra-propostas, em vez de os bombardearmos com insinuações e insultos malévolos.
(...) O director do diário parisiense ["Le Monde"] escreve o que muitos pensam: a União Europeia (UE) não conta por ser fraca. Se nos armarmos, o mundo em geral e Washington em particular respeitar-nos-ão.
A tese do rearmamento é inaceitável. Este rearmamento ou falharia ou teria êxito. Se falhasse, teria sido dinheiro mal gasto que teria agravado os ressentimentos. Este falhanço é o mais provável. (...) Só teria êxito se a Europa persuadisse os Eua que poderia destruí-los. Mas então estaríamos à beira da guerra.
Os autores daquelas brincadeiras perigosas querem transformar um bem - a UE pacífica - num mal - a UE agressiva. Esquecem o paradoxo central da força armada: só é útil se for verosímil a sua utilidade. A França em 1939 tinha armas para dissuadir a Alemanha. Mas esta sabia que a França não as usaria. E não usou. E não dissuadiu. Por isso a Alemanha invadiu a França. Era a Segunda Guerra Mundial.
Disseram-nos que a Europa uniu-se para evitar uma nova guerra entre a França e a Alemanha. Percebemos mal? Ter-nos-ão dito que a UE foi feita para permitir à França e à Alemanha fazerem uma nova guerra aos Estados Unidos?
Queremos a Europa ou queremos a terceira tentativa de suicídio da Europa?
»

Conferências do Centro de Reflexão Cristã
SETE PECADOS SOCIAIS - SETE SINAIS DE ESPERANÇA

Fraude Fiscal/Responsabilidade Tributária
9 Novembro 2004 (3ª feira), 18:30 h
José Silva Lopes
José Luís Saldanha Sanches
Moderador: Ulisses Garrido

Exclusão Social/Integração Humana
30 Novembro 2004 (3ª feira), 18:30 h
P.e Agostinho Jardim
Helena Cidade Moura
Moderador: José Pedro Castanheira

Local: Auditório do Centro Nacional de Cultura
Largo do Picadeiro, nº 10-1º. Lisboa.
(Metro: Baixa-Chiado)

(entrada livre)

Berlim - 9 de Novembro 1989




"Terrível! Esta fronteira de pedra ergue-se... ofende os que desejam ir para onde lhes aprouver
não para um túmulo de massa
um povo de pensadores."

Volker Braun, 1965


47 quilómetros de perímetro
4 metros de altura
28 anos de vergonha...

8.11.04
Cores do Mundo


8 de Novembro de 1989
Faz hoje 15 anos que pela primeira vez na História dos EUA, um negro, Douglas Wilder, democrata, é eleito governador de um estado (Virginia).

Contudo ela se move
Apesar do cenário dos próximos quatro anos ser assustador, a Terra move-se. E a Terra também. Conta com um texto sábio do Marco Oliveira, que faz falta ler a muitos escritores e comentadores que fazem dos blogs espaço de guerra e insulto em vez de espaço de discussão e procura de verdade. Eu continuo a falar das coisas da fé, na sexta das sete lições de moral. Hoje o texto chama-se "As pedras hão-de gritar" e é sobre isto:

«Os cristãos não se distinguem das outras pessoas nem pela pátria, nem pela língua, nem por um género de vida especial; seguem os costumes da terra, quer no modo de vestir, quer nos alimentos que tomam, quer noutros usos; mas a sua maneira de viver é sempre admirável aos olhos de todos. Habitam a sua pátria, mas vivem como que de passagem; em tudo participam como os outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátria. Toda a terra estrangeira é sua pátria e toda a pátria lhes é estrangeira. Obedecem às leis estabelecidas, mas pelo seu modo de vida superam as leis.»
(Carta a Diogneto)

Uma Clonagem à Colonizador
Pensar em culturas e povos implica desconfiar da nossa própria perspectiva sobre quem pensamos. A abrangência de qualquer um desses conceitos a isso obriga. Os “Americanos” e a “América” não são a mesma coisa. Talvez me esteja a sentir “anti-americano” e esta ressalva inicial é fruto desse sentimento.

Quando olhamos para o outro lado do mar, vemos um enorme continente disfarçado de país, megapotência que dita as velocidades a que corre o “globo” para tentar acompanhar esse império "fim da história". Falamos nos Estados Unidos da América do Norte enquanto o "país desenvolvido, que vai à frente e que vai impondo aos poucos e poucos um mercado, um consumo, uma economia". Ouvimos como argumento recorrente "nos Estados Unidos faz-se assim", sendo que esse "assim" a partir daí não pode ter discussão, torna-se “lei científica”.

O conjunto dos Estados Unidos parecem à primeira vista ter condições parecidas à Europa (outro conceito de desconfiar) em termos de desenvolvimento, tecnologia, instituições, economia, etc. Para uma pessoa mais desatenta ou um gajo ainda por viajar, como eu, os hábitos e costumes, formas de pensar não seriam tão diferentes quanto isso.

Quando olhamos mais de perto e com mais atenção percebemos que são tão diferentes como os resultados de uma eleição, a escolha de um líder. Descendentes da cultura Europeia Cristã, os americanos do norte ficaram órfãos da história quando lá chegaram pela emigração e exterminaram os índios que lá viviam; europeus, asiáticos, americanos do sul, africanos, todos lá se misturaram sem uma História comum. No entanto, sentem-se filhos de uma Europa bem mais antiga, herdeiros ancestrais nas barbas europeias ou talvez prefiram negar isso numa perspectiva que o Sr. Freud pode explicar.

Congregam-se por isso à volta do conceito de nação, da bandeira das listas e estrelas, da American Way of Life, “o sonho americano” da “terra das oportunidades”, de simbolismos que se tornem sentimento de pertença.

Miguel Sousa Tavares explica muito bem no Público de 6ª feira a passagem desta componente democrática americana a uma moral das virtudes conservadora e castradora que elege Bush e que boicotou Clinton às custas de um escândalo sexual. Um Bush, menos pecador, conseguiu destruir todo o trabalho de um Clinton que não soube negar as tentações do desejo diabólico.

Mas que eleição viram na passada semana os eleitores no Estados Unidos que nós não vimos? Uma amiga minha que vive nos states diz que é incrível a pouca informação que têm os americanos do norte do resto do mundo lá fora, e eu pergunto-me "que informação têm eles do mundo lá de dentro?”

A eleição que os americanos viram tem que ser outra, alguma coisa nos escapa naquela escolha. Como é possível!? - perguntamos nós - Então não é óbvio para muitos de direita e todos os de esquerda e centro que Bush não serve como Presidente, que é um burro como raramente encontramos, que está acompanhado por gente facínora, gente que vê petróleo em vez de pessoas. Não basta ver duas ou três imagens de Bush no Farenheit 9/11? Não basta estar atento à política externa de invasão de um país do petróleo em busca de armas de destruição maciça inexistentes, que passa por cima das Nações Unidas, e das gentes que moram nesta terra? Não basta ter olhos na cara?

Isto leva-me a uma teoria da conspiração (ou talvez não): Há controlos da informação, dos meios de Comunicação Social (por cá temos na agenda do dia este assunto), há novas formas de fascismo, novas formas de embalar um mesmo produto mau. E novas formas de anti-vírus que ainda temos por encontrar.

A frase da senhora da TSF que diz que prefere que vão matar longe os filhos dos outros a que estejam a matar os dela diz muito, os Americanos foram votar assustados (ver o novo filme de Wim Wenders “A Terra da Abundância”). Assustados não pelo tremendo Bush e seus efeitos horríveis no mundo de hoje e de amanhã (ver o artigo esmagador de Vasco Pulido Valente no Público de 6ª feira), assustados não pela guerra que nem saberemos que repercussões irá ter, quem foi votar eram Americanos assustados por poderem ficar indefesos sem o chefe militar pistoleiro.

Vamos ter assim mais 4 anos um mundo governado por guerreiros cowboys que "querem civilizar" como nos tempos passados dos colonos, num tempo de futuros de clones do consumo, em que o sul vai sustentando a economia "desenvolvida" do norte atrofiada por essa mesma economia que alimenta. É um momento mau para o mundo esta escolha mas em que, como diz o Zé Filipe, é preciso encontrar novas formas de "consenso mínimo entre a humanidade"... mas permitam-me um desabafo: “que humanidade tão desumana é esta de que fazemos parte!?”

(Correcção: um amigo meu atento e bom leitor sussurou-me ao ouvido que não se escreve "coloniador", a palavra correcta é "colonizador", bem dito seja ele)

5.11.04
KING KONG


Sinopse do filme King Kong (EUA 1933)

"Um realizador ousado, Carl Denham está a planear uma viagem a África para fazer um filme nunca visto. Mas, para isso, precisa de contratar uma actriz para o papel principal. Consegue uma rapariga modesta e bonita que leva consigo, nunca contando realmente o tema do filme. É apenas quando chegam à ilha onde os nativos veneram um gorila gigantesco e a quem oferecem mulheres, que a situação se complica."King Kong" é um dos maiores clássicos do cinema fantástico."

Não foi este o filme que passou nas televisões na madrugada de terça para quarta?
SEMPRE GOSTEI DOS CLÁSSICOS!

4.11.04
Mundos de hoje
Apesar de apetecer mesmo, não é na Lua que encontraremos soluções. Que mundo nos espera, depois da vitória clara de George W. Bush nas presidenciais americanas?

Importa mesmo perguntar: como construír um consenso mínimo entre a Humanidade que permita "salvar a Terra, resgatar os excluídos e dar sentido às lutas dos que buscam vida e liberdade"?


(Steve Bell)

3.11.04
Mundos de Ontem
Acordei no meio de um sonho incrível... um tal de Kerry corria para a vitória numa prova de 100 metros barreiras.... esfreguei os olhos e acordei!
Bush vai na frente na Florida, Ohio e Novo Mexico!
Já não me vou deitar...
Vou acabar por cozer um fato de astronauta que tenho estado a preparar por estes dias....

VOU VIVER PARA A LUA!

2.11.04
cem crónicas na Casa Encantada
Continuando na onda dos parabéns atrasados, aqui vão os ditos à "Casa Encantada" de João Bérnard das Costa que comemorou a centésima crónica na sexta-feira passada (não há link porque o texto não apareceu na página do "Público"). Mesmo sem ler toda a imprensa nacional, tenho poucas dúvidas em dizer que são as melhores crónicas nela publicadas.
Na Casa desta semana, recorda-se o início desses textos -- a primeira crónica chamada "Ao Que Venho", que rezava assim: "Ao que venho é guiar-vos para imagens e memórias cá de mim, puxadas de onde tiver que ser para onde me apetecer que seja. Terei por companheiros os que já tiveram os apetecimentos ou os que passarem a ter porque apeteceram o que lhes dei a provar."
Eu faço parte dos que passaram a ter estes apetecimentos pelas crónicas obscuras da Casa Encantada. Obscuras mas ofuscantemente luminosas. Por isso o melhor adjectivo é capaz de ser mesmo noctilúcido para o autor e o feminino para as crónicas — escuro como a noite, lúcido como a clareza do dia, ou apenas lúcido em conversas nocturnas.



O centésimo texto começa precisamente com um elogio da noite à mistura com as habituais obscuridades. Continuando os festejos da centésima crónica, Bérnard da Costa faz um "raccord" entre os tempos políticos dos idos de 2002 e os imprevistos políticos dos nossos dias. E depois fala de cinema, como que numa prenda entregue a si mesmo — um bolo para quem fez "voluntário jejum e voluntária abstinência" da sala escura.
Fala então do último filme de M. Shyamalan, "The Village". São de lá as imagens que aqui deixo. A cadeira no alpendre em que Ivy Walker e Lucius Hunt "declaram amor ao pôr do sol, ela por palavras e ele por olhares, até ser o contrário, e depois outra vez o contrário". A sineta para dar o alerta da visita "daqueles de quem não se pode falar". E no fim a própria Ivy, a improvável heroína, que não vendo viu mais que qualquer outro.



Estava eu dizer que no fim da sua crónica, o João (se "afinal de contas há cem noites que dormimos juntos" posso tratá-lo por tu) fala de "The Village" e de "aqueles de quem não se pode falar". Não vou citar, para não estragar o filme a quem ainda não viu. Mentira: «A pergunta que me ficou quando, em corte abrupto, a imagem passa ao negro, no final, deixando a fábula suspensa, é a pergunta sobre o verso e o reverso das figuras de evasão. Se o inferno não nos metesse tanto medo, o paraíso seria tão desejado? Ou — voltando ao princípio, jã não do filme mas destes textos — por que razão inventei eu uma casa encantada e crónicas como esta? Vejam o filme e depois conversamos. Não podemos falar "deles". Mas, se pudéssemos, de quem falaríamos afinal? Inventamos para nossa defesa ou defendemo-nos inventando? Em cem crónicas não falei de outra coisa, se bem me entenderam ou se eu bem os entendi.»


A Igreja de amanhã
Aqui fica a apresentação da minha crónica de ontem na Terra da Alegria. Chama-se "Cidadania na Igreja". A jeito de introdução deixo um texto de Karl Rahner que tem o mesmo título deste post — "A Igreja de amanhã":

«Vou-me permitir uma pequena fantasia e colocar-me, em imaginação, na situação dum católico dos tempos futuros, pouco importa se esta descrição se realiza dentro de vinte, trinta ou cem anos. Não se trata duma profecia, mas dum SONHO.
Nesses tempos futuros, e com uma densidade variável, as paróquias, as comunidades cristãs estarão espalhadas pelo mundo inteiro. Mas essas comunidades serão em toda a parte "o pequeno rebanho", porque a população mundial cresce mais depressa do que os cristãos.
As pessoas já não serão cristãs pela simples força do hábito, da tradição, da história ou da ordem estabelecida. Ainda menos, pelo facto de a fé impregnar universalmente a sociedade. Pelo contrário, se exceptuarmos a influência exercida pelos pais cristãos, o ambiente familiar, ou os pequenos grupos restritos, as pessoas já não serão capazes de ser cristãs se não for graças a uma fé verdadeiramente pessoal que sem cessar deverão fazer crescer.
A Igreja teré entrado, pela vontade do Senhor, Mestre da história, num tempo novo. Em todos os domínios será reduzida às únicas forças da fé e da santidade, não poderá contar quase nada com o prestígio duma instituição puramente exterior. Não seré já a instituição que formará os corações, mas os corações que farão subsistir a instituição. Estes cristãos considerar-se-ão, portanto, como irmãos e irmãs, porque na construção da Igreja, cada um, quer exerça ou não função ministerial, se estimará como servo de todos os outros. O que exercer a autoridade aceitará respeitosamente a obediência de seus irmãos. Não será somente verdadeiro em teoria, mas poder-se-á verificar no grande dia que, na Igreja, todos os cargos, todas as dignidades são serviços gratuitos sem nenhum sinal exterior de superioridade à maneira do mundo. A função não se revestirá de fausto e brilho, será apenas mais livre no seu exercício. Talvez mesmo não mais haverá destas dignidades no sentido em que se entendem sobre a terra. Um muito pequeno rebanho, unido fraternalmente na mesma fé, na mesma esperança e na mesma caridade, tal será a IGREJA DE AMANHÃ...
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1.11.04
"É esta a esplêndida loucura do mundo" II
Mulheres on-line, 1 de Novembro de 2004
Julgamento de uma mulher pelo uso de substâncias abortivas
Amanhã, pelas 14 horas, inicia-se mais um julgamento de uma mulher pelo uso de substâncias abortivas, desta vez em Lisboa, no Tribunal Administrativo, à Rua Pinheiro Chagas. A mulher que se sentará no banco dos réus tinha apenas 17 anos quando foi denunciada por um enfermeiro do Hospital onde procurou auxílio.
Este caso é mais um exemplo das situações que se vão conhecendo de mulheres que utilizam substâncias abortivas, muitas vezes em desespero de causa e sem aconselhamento médico, levando-nos a considerar que é necessário acabar com o tabu e o preconceito em torno da pílula abortiva e exigir a sua comercialização e distribuição, por prescrição médica e nos Serviços Públicos de Saúde. A pílula abortiva RU-486 é um instrumento de combate ao flagelo do aborto clandestino, contribuindo para uma maior informação da população sobre estas matérias e permitindo a interrupção voluntária da gravidez com menos riscos para a saúde da mulher e mais garantias de defesa da sua vida privada.
Diversas organizações internacionais já alertaram para os perigos do aborto não seguro, tendo a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento do Cairo enunciado que “… todos os governos são impelidos a lidarem com o impacto do aborto não seguro na saúde como sendo uma principal preocupação de saúde pública”. A saúde sexual e reprodutiva dos adolescentes é também uma preocupação expressa no Programa de Acção do Cairo: “… informação e serviços devem ser disponibilizados aos adolescentes para ajudá-los a compreender a sua sexualidade e protegê-los de gravidezes indesejadas…”.
Em vez de perseguir mulheres, incluindo por ingestão de substâncias abortivas, dever-se-ão iniciar processos de debate e a adopção da pílula abortiva como nova alternativa, já utilizada em muitos países.
Independentemente de se provar ou não a acusação a esta jovem, reiteramos as exigências da petição «Romper Silêncios e Cumplicidades – Pleno Exercício dos Direitos Sexuais e Reprodutivos», que continua aberta à subscrição de todas e todos em Mulheres On Line.

"É esta a esplêndida loucura do mundo"
GLOUCESTER
Estes últimos eclipses não são de bom augúrio. Embora os fenómenos da natureza sejam explicáveis, nem por isso deixam de nos afectar: o amor esfria, a amizade desfaz-se, os irmãos desunem-se. Nas cidades há motins, nos campos discórdias; nos palácios traição, e os laços entre pai e filho quebrados. Este patife corresponde à profecia: o filho revolta-se contra o pai; o rei infringe as leis da natureza; o pai vira-se contra a filha. Já assistimos a tudo. Conspirações, falsidade, traição e toda a espécie de desastrosas desordens se abatem sobre as nossas cabeças perseguindo-nos no túmulo. Descobri esse vilão, Edmund; nada perdereis com isso. O nobre e leal Kent foi desterrado! O seu crime foi a honestidade! Como é estranho.

Sai

EDMUND
É esta a esplêndida loucura do mundo: quando sofremos as consequências dos nossos excessos, atribuímos a culpa ao Sol, à Lua, às estrelas, como se os astros fossem responsáveis pelas nossas loucuras; como se os céus nos obrigassem a sermos patifes, ladrões e traidores; como se a conjunção dos planetas fizesse de nós bêbedos, mentirosos e adúlteros; como se todos os males que sobre nós se abatem fossem uma maldição dos deuses. Que estupenda evasão, acusar as estrelas dos nossos costumes dissolutos! Fui concebido sob a cauda do Dragão e vim ao mundo sob a Ursa Maior, sou portanto violento e devasso! Que absurdo! Teria sido o que sou mesmo que a estrela mais benfazeja tivesse brilhado no firmamento no momento da minha concepção.

(in Rei Lear de Shakespeare, 1605)

Como homenagem às eleições nos EUA.



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