20.10.04
� bem feito
�� bem feito. Os sinais estavam l�. As novelas. As intermin�veis e desconchavadas novelas em que todas crian�as frequentam col�gios da Linha e s�o louras e precocemente parolas. As Lux e as Flash. O telejornal da TVI. O futebol�s e a sua mir�ade de constela��es e estrelas, as maiores, as menores e as an�s, os dirigentes, os agentes, os jogadores, as transfer�ncias e os treinadores de bancada e de caf�.

O 24 Horas e as suas manchetes sangu�neas e colunas rosa-choque. Os tr�s di�rios desportivos. Os Big Brother's e as chusmas de indigentes que revelaram, geraram e adularam. Os caciques locais.

Felgueiras. Marco de Canaveses. A justi�a, apoucada e achincalhada. A Alexandra Solnado e as conversas de Jesus com a cabritinha. As absten��es, galopantes. A pol�tica, trauliteira e lapuz. Os improp�rios lan�ados a esmo, pelos carroceiros e pelas az�molas que habitam o Parlamento e as autarquias deste pa�s de norte a sul. Os deputados que o s�o porque dominam as concelhias. O triunfo da demagogia, a vit�ria f�cil do populismo.

A farsa da Madeira, esse espect�culo pornogr�fico instalado h� anos na Casa Vigia, onde perora um senhor anti-democrata e fascista, adulado por um dos dois maiores partidos portugueses.

A lenta agonia da Cultura. A asfixia da Ci�ncia. A sangria, continuada, mortal, dos nossos melhores homens e mulheres, em demanda de melhores pa�ses, de outras institui��es que os animem, que os reconhe�am. A invas�o obscena do bet�o em tudo o que � Parque Natural, zona protegida, Rede Natura, arriba f�ssil, rio selvagem, orla costeira.

As oportunidades perdidas. O Alqueva. Os fundos de Coes�o. O Fundo Social Europeu. Os subs�dios � agricultura dados de m�o beijada a pessoas que n�o sabem distinguir um c�o de uma ovelha. Os jipes. Os condom�nios privados. Os montes no Alentejo. As f�rias no Brasil e as festas no Algarve. Os milhares que provam, provado, o ad�gio que diz que quem cabritos vende e cabras n�o tem, de algum lado lhe vem.

Os Ferraris do Vale do Ave. Os processos que prescreveram. Os jornais, as r�dios, as revistas, as televis�es que est�o na m�o de apenas tr�s grandes grupos econ�micos. As campanhas eleitorais, pagas a peso de ouro, a troco n�o se sabe bem do qu�. As negociatas. As promessas. As mentiras. Os impostos que iriam descer e afinal sobem. O emprego que iria subir e afinal desce. O IVA que j� foi a 17% e agora � a 19%.

O Santana Lopes que passou do Sporting para a Figueira, da Figueira para Lisboa e de todas as vezes foi eleito. Democraticamente. E que foi al�ado a n�mero dois do PSD estando, por esse facto, na linha de sucess�o para o cargo de primeiro-ministro.

E, quando tudo isso aconteceu, onde est�vamos n�s ?

Na praia ? No caf� ? Na Ler Devagar, a folhear Heidegger ? Em Londres, a admirar Buckingham Palace ?

N�o sei onde est�vamos. Sei, apenas, que est�vamos calados. E � por isso que � bem feito.

Demitimo-nos do dever de falar, de esclarecer, de protestar, de votar. E, se alguns, poucos, falavam, muitos assobiavam para o ar, como se n�o fosse nada connosco. Era sempre com eles, com os pol�ticos. E est�vamos errados: a pol�tica � nossa. A pol�tica somos n�s que a devemos fazer, participando, votando, reclamando, exigindo.

Abstivemo-nos e as coisas aconteceram. Os factos surgiram e ficaram impunes. Os acontecimentos seguiram o seu curso, o barco singrou desgovernado, com os incapazes ao leme e os arrivistas a bater palmas. Agora que o impens�vel se acastela no horizonte, assim ficamos, aflitos, o cora��o nas m�os, a perguntarmo-nos: como foi poss�vel ? Como ser� poss�vel ?

E mais aflitos ainda ficamos porque sabemos: � poss�vel. Pode acontecer.

Pode acontecer que Paulo Portas e Santana Lopes, dois parasitas do poder, dois demagogos, dois populistas, se enquistem em S�o Bento. Mesmo as elei��es antecipadas, a ocorrer, poder�o n�o o impedir. Mais : as elei��es poder�o at� ser o impulso que necessita essa associa��o simbi�tica contra-natura para se declarar vitoriosa. Bastam uma fotografias nas revistas do cora��o, uns beijinhos nalgumas feiras, uns �sculos nalgumas recep��es, tr�s ou quatro discursos ocos, cheios de sonoridade e de impacto televisivo, a aura de salvadores da p�tria e dos bons costumes, e l� vai o povinho do futebol, dos morangos com a��car e do 24 horas a correr �s urnas, ungir o Sr. Feliz e o Sr. Contente com os louros do poder.

E, mesmo que n�o aconte�am elei��es, a cartilha est� igualmente tra�ada. Os impostos a cair. As festas para o povo pagas com o er�rio p�blico, esse er�rio minguante que � custa de tanto e de tantos foi custosamente aforrado nos dois �ltimos anos. As promo��es em catadupa, os Institutos Estatais criados por decreto, para promover os novos boys e criar novos empregos ef�meros. Os gastos � tripa forra para contentar taxistas, sindicatos, peixeiras, comerciantes, fun��o p�blica.

Os saneamentos. A ostraciza��o dos cr�ticos, dos descontentes, dos que se manifestam.

Tudo isto pode acontecer. N�o s� por dois anos, mas tamb�m por quatro. Ou mais. At� que o dinheiro se acabe ou at� que vague o cargo de Presidente de qualquer coisa. Que at� pode ser o do Pa�s, que a malta nem se importa muito. "

Afinal, os povos cobardes s� t�m aquilo que merecem !.... �


(texto de autor desconhecido recebido por e-mail com o nome �Pacheco Pereira no seu melhor�)



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