20.10.04
Antes
Antes.
Antes do ritmo inebriante daquela sala, antes daquelas vozes e daqueles instrumentos.
Antes dos p�s descal�os que rasavam o ar cortando-o, ora muit�ssimo lentos ora inacreditavelmente r�pidos.
Antes daquela aud�cia.
Antes do riso, da vontade de voltar aquela sala e fazer parte daquela roda-capoeira, onde todos t�m lugar no centro.
Antes. Antes disso.
Esperava sozinha no carro que s� me conseguia trazer uma m�sica boa mas roufenha, roufenha como s� um r�dio sem antena consegue.
Esperava sozinha. Olhei pela janela do passageiro de tr�s, a do lado esquerdo. E ali. No jardim da igreja onde brinquei tantas vezes (e onde nunca mais voltei), agora aberto � cidade j� sem as veda��es, eles passeavam.
O jardim, com o campo de basket e com os baloi�os, tamb�m eles muito melhorados, estava iluminado. N�o muito. Como nos filmes americanos. Ali n�o jogava ningu�m. Eles passeavam (des)cansados.
Uma mulher loira, alta, atenta.
Um homem ainda mais alto, um pouco curvado, muito novo e de olhar longe. Brincava com um cavalinho fazendo-o repetir o mesmo movimento, sempre o mesmo.
Uma crian�a. A mais loira dos tr�s. Brincava como as crian�as fazem, quase caindo para tr�s no baloi�o, subindo o escorrega ao contr�rio� sempre sob o olhar da m�e que com ela ia falando.
De dentro do carro, pela janela, eu senti-me no cinema a ver um filme mudo sem conseguir distrac��o.
Jardim iluminado, n�o muito, aquele casal imigrante passeava no s�tio que a cidade lhes d�. Num pequeno jardim de igreja terminam o seu dia.
Entraram no carro atr�s de mim e quando os segui pelo retrovisor o homem, parecendo querer impedir-me de continuar, ligou os far�is e nada mais vi. Nada mais vi. Guardei naquele sil�ncio aquela cena de filme.



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