29.9.04
Para Caterina
"(...) não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito
(...)

De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
(...)

Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
(...)

De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.
(...)

- Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.

- Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.

- É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.


- Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.

- Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.

- Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.

- Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.


- E belo porque o novo
todo o velho contagia.

- Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.

- Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.

- Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva."


(Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto)

Saltou hoje para a vida promessa de 9 meses de preparo nosso, uma menina que desejamos pessoa. É para mim o nascimento com maior força que tive: é a minha sobrinha.
Puer natus est novis: nasceu-nos uma criança.



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