14.9.04
A irresponsabilidade de ter filhos neste tempo

Um filho � sempre um recome�o. Um filho � a maneira que temos de reiniciar o mundo.
Quando nasceste, e eu cortei o cord�o que te unia � tua m�e, murmurando baixinho, eu te inauguro, minha filha, bem-vinda � vida, eu sabia que havia homens, l� fora, a assassinar outros homens, ou a prepararem-se para assassinar outros homens; havia homens ocupados a adestrar adolescentes na arte da guerra (� como lhe chamam); havia homens concentrados na dif�cil tarefa de torturar prisioneiros, e outros tantos engendrando m�quinas destinadas a mutilar, a ferir e a matar inocentes.
"Acho uma irresponsabilidade ter filhos neste tempo", disse-me um amigo, numa tarde de sol resplandecente, e eu concordei, distra�do, ou talvez porque fizesse muito calor, e me seja sempre dif�cil encontrar argumentos quando a luz cai em excesso. Certas coisas, como se sabe, v�em-se melhor na escurid�o. Agora, no sil�ncio da noite, n�o me custa reconhecer que sim, que vivemos tempos cru�is - mas n�o o foram sempre? Existem hoje, ali�s, mais territ�rios a salvo da crueldade, e, sobretudo, da crueldade enquanto sistema, do que, e nem preciso recuar s�culos, no ano em que a minha m�e nasceu. A hist�ria da humanidade � uma hist�ria da crueldade; mas � tamb�m uma hist�ria contra a crueldade.
Houve um tempo em que havia no mundo mais torturadores do que poetas. Hoje, tenho a certeza, s�o mais os poetas do que os torturadores, embora - tamb�m sei disso - haja quem acumule fun��es. Gente com m�ltiplas aptid�es. Conheci alguns maus poetas que enquanto escreviam os seus maus poemas se revelaram bons torturadores.
Temos cometido crimes que nenhum verso redime. Mas - caramba! - tamb�m acrescent�mos beleza ao mundo. Penso em tudo aquilo que te quero mostrar, em todos os lugares que quero revisitar e descobrir contigo. Coisas simples, como o fulgor das tempestades, l�, no planalto, em meio ao verde exultante do capim. A curva de um ribeiro onde fui feliz na minha inf�ncia. Os ovos moles de Aveiro. Algumas can��es de Lhasa. Abdullah Ibrahim tocando (e cantando) "Ishmael". Uma buganv�lia, velha amiga minha, muito bela, que na primavera � a primeira a encher de cor o Jardim Tropical, em Lisboa. O p�r-do-sol no Arpoador. O Museu Picasso, em Barcelona. O sorriso do teu irm�o. O mar, um leve lago azul-anil, de Angra dos Reis. Saltar de asa-delta da Pedra Bonita. Ah!, e haveremos juntos de subir o Quanza, at� Massangano, e de descer o Nilo, desde Ondurman (ser� poss�vel?) at� ao Cairo, e o imenso Amazonas, desde Iquitos a Bel�m do Par�. Havemos de lan�ar papagaios ao vento e, mais tarde, talvez me possas ensinar a dan�ar os ritmos que ent�o estiverem na moda. S� uma mulher que me ame muito me conseguir� ensinar a dan�ar o que quer que seja.
Ao contr�rio do que dizia o meu amigo, naquela tarde de sol, mas sem esperan�a, ter filhos hoje � uma demonstra��o de responsabilidade. No instante em que te dei as boas vindas, �s 17 horas e 17 minutos de um domingo angolano, e segurei a tesoura e cortei o cord�o que te unia � m�e, foi tamb�m a mim que inaugurei. Um filho � sempre um recome�o. Um filho � a maneira que temos de reiniciar o mundo. Sofrer�s, eu sei, com a crueldade e a injusti�a dos homens. Em certas manh�s acordar�s sem �nimo. Talvez ent�o te questiones sobre os motivos porque te trouxemos aqui. Trouxemos-te (� o que sinto) para que nos ajudes a sermos melhores. Trouxemos-te porque te queremos melhor do que n�s.
Ver-te dormir, e como tu dormes minha filha, com que talento!, repousa-me (e regera-me) mais do que o meu pr�prio sono. Anseio por ouvir a tua primeira gargalhada. Sei que isso me far� ainda melhor. N�o conhe�o som mais iluminado do que a gargalhada de um beb�.
Bem vinda, pois, minha filha. Choveu h� pouco. O c�u est� limpo. O mundo est� agora a come�ar.


Jos� Eduardo Agualusa
P�blica, 8/8/04


Sebastiao Salgado
Yuracruz, Ecuador, 1998

Ontem, no Por outro lado, Carlos J. Pessoa falava da obsess�o do trabalho, do trabalho ser muito mais que um emprego... ser quase a vida toda. Disse que o nascimento dos filhos mudou tudo, que percebeu que h� coisas que de facto s�o muito mais importantes do que o teatro, que n�o h� nada mais belo do que o apetecer abra�ar um filho e ent�o abra�a-lo.
Os homens que falam de crian�as assim tamb�m trazem esperan�a ao mundo.



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