29.9.04
Para Caterina
"(...) não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito
(...)

De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
(...)

Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.

De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
(...)

De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.
(...)

- Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.

- Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.

- É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.


- Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.

- Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.

- Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.

- Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.


- E belo porque o novo
todo o velho contagia.

- Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.

- Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.

- Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva."


(Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto)

Saltou hoje para a vida promessa de 9 meses de preparo nosso, uma menina que desejamos pessoa. É para mim o nascimento com maior força que tive: é a minha sobrinha.
Puer natus est novis: nasceu-nos uma criança.

28.9.04
mais um cheirinho de alegria
"Para o cristianismo, a �tica n�o � uma colec��o de coisas proibidas. A �tica � uma express�o do que possu�mos como bem pr�prio, do patrim�nio que nos d� sentido, daquilo com o que estamos de acordo para a nossa vida."

(Monsenhor Marc Stenger)

27.9.04
o politicamente correcto � incorrecto?
"- Estou aqui a ver os jogos dos paral�mpicos enquanto passo a sala a aspirador." - disse ela quando entrei.
"- J� come�aram?" - perguntei eu ca�do de p�raquedas aqui na sociedade.
Responde ela com ar de toda a gente sabe que: "- J� est�o quase a acabar! S� ontem ganh�mos 5 medalhas, mas j� vamos em 8. Somos melhores nestes do que nos bons, quer dizer nestes com defici�ncia do que nos outros normais (com algum gaguejo e hesita��o � mistura)"

O di�logo escolhido n�o pretende ter nele mesmo demonstrar qualquer tipo de preconceito mas vincar o "com algum gaguejo e hesita��o � mistura".

H� uma data de assuntos em que � assim: temos medo de falar, escolhemos as palavras com cuidado e tacto com medo de dizermos alguma asneira. Tenho observado como h� uma aprendizagem para n�o sermos despudoradamente "preconceituosos"; sendo que, muitas vezes, nessa escolha meticulosa de palavras e express�es demonstramos racioc�nios viciados em preconceitos aprendidos desde pequenos. Sejam eles acerca dos deficientes, dos homossexuais, das mulheres, dos negros (reparem como n�o escrevi "pretos"), dos idosos ("velhos"), das descompensa��es sociais que atravessam as sociedades h� anos, s�culos.

post-scriptum: j� agora e a prop�sito de paral�mpicos (n�o deveria ser para-olimp�cos!?) o que � que quer dizer Boccia, algu�m me explica?

22.9.04
Dois filmes que marcam duas semanas




O primeiro: Pierrot le fou de Jean-Luc Godard. Anna Karina canta uma m�sica lind�ssima que j� me tinha sido apresentada:

J��changeons surtout pas de tels serments,
me connaisant, te connaissant,
gardons le sentiment que notre amour, au jour le jour,
que notre amour est un amour sans lendemain.

O segundo: La Meglio Giovent� de Marco Tullio Giordana. Com simplicidade e beleza. Com viol�ncia e loucura. "Tudo o que existe � belo".

Masculinidades/Feminilidades

(Ruth Bernhard)

Come�a hoje um encontro de tr�s dias com o tema Masculinidades/Feminilidades coordenado pela Professora Teresa Joaquim (uma senhora impressionante), e enquadrado nos Encontros da Arr�bida, organizados anualmente de Maio a Novembro, pela Funda��o Oriente, no paradis�aco convento na serra da Arr�bida. � para l� que vou cheio de curiosidade e aten��o, depois conto.

21.9.04
um ouvido atento
Numa visita a um centro de juventude num dos pa�ses do norte da Europa, um amigo meu africano ficou chocado. Perguntou aos l�deres do centro qual o maior problema com que lidavam: abandono escolar, pobreza, gravidez precoce, droga, desemprego? A resposta foi arrasadora: o maior problema � o suic�dio juvenil.

No dia 8 a Organiza��o Mundial de Sa�de (OMS) voltou a lan�ar o alerta: em 2001 o n�mero de suic�dios em todo o mundo superou o n�mero de mortes por homic�dio e situa��es de guerra.
O suic�dio n�o � uma fatalidade. Como factor de preven��o o relat�rio da OMS fala de auto-estima e "social connectedness". Criar la�os � a principal solu��o -- "especially with family and friends, having social support, being in a stable relationship, and religious or spiritual commitment." Regista-se ainda o sucesso das linhas de apoio an�nimas.

Em Coimbra, desde 1997, a Linha SOS Estudante escuta quem precisa de ser ouvido. Funciona em regime de voluntariado e atende todos os meses dezenas de pessoas. Na cidade da vida acad�mica, o principal motivo das chamadas � a solid�o.
O servi�o nasceu da constata��o de que entre a comunidade estudantil universit�ria a taxa de suic�dio era bastante elevada. Lan�aram esta linha para que o suic�dio deixe de ser tema tabu entre n�s. Ali lida-se com ele diariamente. Como dizem na sua p�gina, est�o presentes quando a situa��o se apresenta dif�cil, quando j� ningu�m quer saber, quando j� mais ningu�m ouve. E assim d�o outro destino � aus�ncia de amor.


17.9.04
Cem anos da Sinagoga de Lisboa


A Sinagoga Shaar� Tikv� ("Portas da Esperan�a") de Lisboa esteve a comemorar o seu cent�simo anivers�rio. Alguns flashes:

"A Sinagoga de Lisboa poderia contar muitas hist�rias: hist�rias tristes e hist�rias alegres, mas acima de tudo ela � o espelho do s�culo, com os seus momentos tr�gicos mas, tamb�m, de esperan�a". (Esther Mucznik, Vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa)

�Creio que Portugal � um excelente exemplo porque, segundo sei pelos rabinos e pelo presidente da comunidade judaica, Portugal � um exemplo de compreens�o e de fraternidade entre as diferentes religi�es. Creio que podemos levar este exemplo tamb�m a outros pa�ses.� (o rabino-mor sefardita de Israel, Shlom� Mosh� Amar em discurso directo, da "SicOnline")

�A cerim�nia do centen�rio da Sinagoga de Lisboa, agora totalmente restaurada, na semana passada, passou quase despercebida do grande p�blico mas merece ser mais divulgada e reflectida por todos n�s. Quando os fantasmas da intoler�ncia religiosa grassam por todo o lado, particularmente ap�s o 11 de Setembro; quando esses fantasmas se materializam em guerras ou em bombas no dia-a-dia das pessoas, como vemos na Palestina, em Israel, no Afeganist�o, no Iraque, na Indon�sia, em Madride por quase todos os cantos do mundo, uma cerim�nia verdadeiramente ecum�nica ocorreu em Lisboa e n�o merece infelizmente dos meios de comunica��o social o relevo de uma grande not�cia.� ("P�blico" de ontem, sec��o dos leitores)

erotismo na b�blia [corrigido]
"o que n�o significa, por outro lado, que n�o fosse bem vinda uma outra vis�o da sexualidade humana por parte da Igreja".
(Filipe Alves na Terra da Alegria)

Entre os textos sagrados das v�rias religi�es, h� um que inclui um livro inteiro com um c�ntico nupcial -- a B�blia. Com uma dica do Jos�, descobri que o "Baghavad Git�", dos hindus, tem passagens er�ticas ainda mais expl�citas. Quando ler, prometo fazer uns recortes. Para j� fica o in�cio do C�ntico dos C�nticos:

Di�logo apaixonado
1 1C�ntico dos c�nticos, que � de Salom�o.

Ela
2Que ele me beije com beijos da sua boca!
Melhores s�o as tuas car�cias que o vinho,
3ao olfacto s�o agrad�veis os teus perfumes;
a tua fama � odor que se difunde.
Por isso te amam as donzelas.
4*Arrasta-me atr�s de ti. Corramos!
Fa�a-me entrar o rei em seus aposentos.
Folgaremos e alegrar-nos-emos contigo;
mais do que o vinho celebraremos teus amores.
Com raz�o elas te amam.

5*Sou morena, mas formosa,
mulheres de Jerusal�m,
como as tendas de Quedar,
como os tecidos de Salom�o.
6N�o estranheis eu ser morena:
foi o sol que me queimou.
Comigo se indignaram os filhos de minha m�e,
puseram-me de guarda �s vinhas;
e a minha pr�pria vinha n�o guardei.
7Avisa-me tu, amado do meu cora��o:
aonde levas o rebanho a apascentar?
Onde o recolhes ao meio-dia?
Que eu n�o tenha de vaguear oculta,
atr�s dos rebanhos dos teus companheiros.

Ele
8Se n�o tens disso conhecimento,
� mais bela das mulheres,
sai no encal�o do rebanho
e apascenta as tuas cabrinhas
junto �s cabanas dos pastores.

9*A uma �gua entre os carros do Fara�
eu te comparo, � minha amiga.
10Formosas s�o as tuas faces entre os brincos,
e o teu pesco�o com os colares!
11Para ti faremos arrecadas de ouro
com incrusta��es de prata.

Ela
12Enquanto o rei est� em seu div�,
o meu nardo d� o seu perfume.
13Uma bolsinha de mirra � o meu amado para mim,
que repousa entre os meus seios;
14*um cacho de alfena � o meu amado para mim,
das vinhas de En-Gu�di.

Ele
15Ah! Como �s bela, minha amiga!
Como s�o lindos os teus olhos de pomba!

Ela
16Ah! Como � belo o meu amado!
E como � doce,
como � verdejante o nosso leito!
17Cedros s�o as vigas da nossa casa,
e os ciprestes, o nosso tecto.

(tradu��o da Difusora B�blica)

os anivers�rios e as desculpas
Aqui por estes lados as leituras blogosf�ricas n�o t�m sido muito ass�duas. E confesso que ainda n�o encaixei bem esta coisa de dar os parab�ns aos blogs que fazem anos (nem de agradecer aos que nos linkam, mas isso fica para outra)...
Para nos irmos redimindo, aqui ficam os parab�ns atrasados ao Jos� e ao seu excelente Guia, que tem sido um �ptimo companheiro de cavaqueira.

esse esquerdalho!
Kofi Anan sobre a interven��o militar no Iraque, em entrevista � BBC:

Q: Are you bothered that the US is becoming an unrestrainable, unilateral superpower?
A: Well, I think over the last year, we've all gone through lots of painful lessons. I'm talking about since the war in Iraq. I think there has been lessons for the US and there has been lessons for the UN and other member states and I think in the end everybody is concluding that it is best to work together with our allies and through the UN to deal with some of these issues. And I hope we do not see another Iraq-type operation for a long time.
Q: Done without UN approval - or without clearer UN approval?
A: Without UN approval and much broader support from the international community.
Q: I wanted to ask you that - do you think that the resolution that was passed on Iraq before the war did actually give legal authority to do what was done?
A: Well, I'm one of those who believe that there should have been a second resolution because the Security Council indicated that if Iraq did not comply there will be consequences. But then it was up to the Security Council to approve or determine what those consequences should be.
Q: So you don't think there was legal authority for the war?
A: I have stated clearly that it was not in conformity with the Security Council - with the UN Charter.
Q: It was illegal?
A: Yes, if you wish.
Q: It was illegal?
A: Yes, I have indicated it is not in conformity with the UN Charter, from our point of view and from the Charter point of view it was illegal.

15.9.04
De se lhes tirar o chap�

Soube pelo Causa Nossa que a jornalista Ana Sousa Dias recebeu o Grande Pr�mio Gazeta pelo Clube de Jornalistas porque "o registo s�brio, calmo e contido da entrevistadora prende o telespectador e dignifica o jornalismo�. Aqui pelo blog j� temos demonstrado o nosso apre�o pelas entrevistas "Por Outro Lado"; o meu programa preferido, sou f�! A escolha dos entrevistados tem sido de se lhe tirar o chap�u com conversas muito agrad�veis que nos relembram sempre que h� Gente com G grande, de qualidade e Portuguesa; s�o sempre um �ptimo tema para posts!

Outro dos pr�mios (Gazeta de M�rito) foi para Carlos Fino pelo acompanhamento da guerra no Iraque; o profissionalismo e a dedica��o v�-se em cada pe�a a que ele se dedica! � dos jornalistas que me lembro de h� mais tempo ver no activo!

Jos� Maria Belo pelo Enchamos Tudo de Futuros em Sintra.

De volta � Alegria
Deixei passar a minha contribui��o de segunda-feira para a Terra da Alegria, sem um cheirinho de publicidade. Aqui vai ela:

"Insisto na minha convic��o: � necess�rio n�o confundir as vagas com o oceano ou o movimento das mar�s com as profundezas submarinas."
(�mile Poulat, O� va le christianisme)

14.9.04
Na primeira pessoa
Rainman encanta-me como se faz com as serpentes. Gosto imenso deste filme, acho que o podia ver vezes sem conta. J� n�o o via h� uns bons 8/10 anos, lembro-me que era um dos poucos bons filmes do pobre clube de v�deo de bairro aqui mais perto, que entretanto desapareceu, trocou de lugar e reapareceu no antigo lugar.
N�o me lembrava de in�meras cenas e consegui entrar no filme como se o visse pela primeira vez, gostei tanto como da lembran�a do gosto que me lembrava ter dele.

Impressionante o Dustin Hoffman, a postura hirta, o olhar vazio, as iras; que maravilha deve ter sido preparar-se para o filme, que desafio ao actor, ao homem. S� os mais atentos descobrem Tom Cruise e o seu rico papel por detr�s do Dustin Hoffman que se ultrapassa a si mesmo num "faz de conta" genial.

No "Por outro lado" de ontem o Carlos J. Pessoa falava tamb�m de "um labirinto onde plantamos alecrim": A descoberta de um eu na cria��o que fazemos, nas coisas em que nos envolvemos. Sinto-me envolvido neste filme, como se me descobrisse a mim na dificuldade daqueles dois irm�os em serem e relacionarem-se e o alecrim e o seu cheiro parece-me ser a vontade de continuar a escrever numa primeira pessoa que tantas vezes me chateia.
Adoro a evolu��o daquelas duas personagens, a envolv�ncia e o investimento no criar uma rela��o de irm�os (manos!), a descoberta que v�o fazendo dessa rela��o, e o que o Carlos J. Pessoa chama de atmosfera de gente em que vivemos fervilhando em ideias e experi�ncias e onde como que intuitivamente vamos sendo. Nesse jogo da vida e das pessoas �s vezes sinto medo, mas quando me esque�o dele e assumo que o "risco � bom" torna-se grand�ssimo c� andar.

A irresponsabilidade de ter filhos neste tempo

Um filho � sempre um recome�o. Um filho � a maneira que temos de reiniciar o mundo.
Quando nasceste, e eu cortei o cord�o que te unia � tua m�e, murmurando baixinho, eu te inauguro, minha filha, bem-vinda � vida, eu sabia que havia homens, l� fora, a assassinar outros homens, ou a prepararem-se para assassinar outros homens; havia homens ocupados a adestrar adolescentes na arte da guerra (� como lhe chamam); havia homens concentrados na dif�cil tarefa de torturar prisioneiros, e outros tantos engendrando m�quinas destinadas a mutilar, a ferir e a matar inocentes.
"Acho uma irresponsabilidade ter filhos neste tempo", disse-me um amigo, numa tarde de sol resplandecente, e eu concordei, distra�do, ou talvez porque fizesse muito calor, e me seja sempre dif�cil encontrar argumentos quando a luz cai em excesso. Certas coisas, como se sabe, v�em-se melhor na escurid�o. Agora, no sil�ncio da noite, n�o me custa reconhecer que sim, que vivemos tempos cru�is - mas n�o o foram sempre? Existem hoje, ali�s, mais territ�rios a salvo da crueldade, e, sobretudo, da crueldade enquanto sistema, do que, e nem preciso recuar s�culos, no ano em que a minha m�e nasceu. A hist�ria da humanidade � uma hist�ria da crueldade; mas � tamb�m uma hist�ria contra a crueldade.
Houve um tempo em que havia no mundo mais torturadores do que poetas. Hoje, tenho a certeza, s�o mais os poetas do que os torturadores, embora - tamb�m sei disso - haja quem acumule fun��es. Gente com m�ltiplas aptid�es. Conheci alguns maus poetas que enquanto escreviam os seus maus poemas se revelaram bons torturadores.
Temos cometido crimes que nenhum verso redime. Mas - caramba! - tamb�m acrescent�mos beleza ao mundo. Penso em tudo aquilo que te quero mostrar, em todos os lugares que quero revisitar e descobrir contigo. Coisas simples, como o fulgor das tempestades, l�, no planalto, em meio ao verde exultante do capim. A curva de um ribeiro onde fui feliz na minha inf�ncia. Os ovos moles de Aveiro. Algumas can��es de Lhasa. Abdullah Ibrahim tocando (e cantando) "Ishmael". Uma buganv�lia, velha amiga minha, muito bela, que na primavera � a primeira a encher de cor o Jardim Tropical, em Lisboa. O p�r-do-sol no Arpoador. O Museu Picasso, em Barcelona. O sorriso do teu irm�o. O mar, um leve lago azul-anil, de Angra dos Reis. Saltar de asa-delta da Pedra Bonita. Ah!, e haveremos juntos de subir o Quanza, at� Massangano, e de descer o Nilo, desde Ondurman (ser� poss�vel?) at� ao Cairo, e o imenso Amazonas, desde Iquitos a Bel�m do Par�. Havemos de lan�ar papagaios ao vento e, mais tarde, talvez me possas ensinar a dan�ar os ritmos que ent�o estiverem na moda. S� uma mulher que me ame muito me conseguir� ensinar a dan�ar o que quer que seja.
Ao contr�rio do que dizia o meu amigo, naquela tarde de sol, mas sem esperan�a, ter filhos hoje � uma demonstra��o de responsabilidade. No instante em que te dei as boas vindas, �s 17 horas e 17 minutos de um domingo angolano, e segurei a tesoura e cortei o cord�o que te unia � m�e, foi tamb�m a mim que inaugurei. Um filho � sempre um recome�o. Um filho � a maneira que temos de reiniciar o mundo. Sofrer�s, eu sei, com a crueldade e a injusti�a dos homens. Em certas manh�s acordar�s sem �nimo. Talvez ent�o te questiones sobre os motivos porque te trouxemos aqui. Trouxemos-te (� o que sinto) para que nos ajudes a sermos melhores. Trouxemos-te porque te queremos melhor do que n�s.
Ver-te dormir, e como tu dormes minha filha, com que talento!, repousa-me (e regera-me) mais do que o meu pr�prio sono. Anseio por ouvir a tua primeira gargalhada. Sei que isso me far� ainda melhor. N�o conhe�o som mais iluminado do que a gargalhada de um beb�.
Bem vinda, pois, minha filha. Choveu h� pouco. O c�u est� limpo. O mundo est� agora a come�ar.


Jos� Eduardo Agualusa
P�blica, 8/8/04


Sebastiao Salgado
Yuracruz, Ecuador, 1998

Ontem, no Por outro lado, Carlos J. Pessoa falava da obsess�o do trabalho, do trabalho ser muito mais que um emprego... ser quase a vida toda. Disse que o nascimento dos filhos mudou tudo, que percebeu que h� coisas que de facto s�o muito mais importantes do que o teatro, que n�o h� nada mais belo do que o apetecer abra�ar um filho e ent�o abra�a-lo.
Os homens que falam de crian�as assim tamb�m trazem esperan�a ao mundo.

13.9.04
Um ano em cheio
O que � que tem o barnab� que � diferente dos outros?


GESTOS DE MUDAN�A


Parab�ns atrasados mas muito sinceros!

10.9.04
leituras de Ver�o III
Sempre gostei de filmes de terror. Ali�s, o cinema foi sempre coisa do diabo, como muito bem viram santos padres, do tempo em que os havia. Quando o comboio dos Lumi�re chegava � gare de Ciotat, a assist�ncia n�o batia palmas, mas desandava a correr, para n�o ser esmagada pelo impar�vel avan�o da m�quina. Mais tarde, desataram a fugir os que ouviam rugir, pela primeira vez, o le�o da Metro, convencidos que o animal n�o demorava a saltar-lhes em cima. Nunca gostou de cinema quem n�o gosta do escuro. E de ter medo. Como dizia a publicidade de um dos �ltimos grandes filmes de terror -- The Fly de David Cronenberg (1986), um dos raros casos em que o remake ultrapassou o original -- �Be afraid, be very afraid.�

(da recolha das cr�nicas de Jo�o B�rnard da Costa no "Independente" -- Os filmes da minha vida, os meus filmes da vida)

leituras de Ver�o II
ES - Talvez as pessoas fiquem assustadas mas, para que cres�am bem... Deviam pecar, pelo menos, de oito em oito horas!
SMS - Est� a brincar, certo?
ES - N�o. Estou a tentar dizer que o desejo � um amor � primeira vista. O desejo n�o � pecado! � uma forma de nos deixarmos tocar, � primeira vista, pelas pessoas bonitas que passam por n�s.
(...)
SMS - E onde fica o respeito, a lealdade para com a nossa "cara-metade"?
ES - Quando se gosta muito de algu�m, n�o se faz um voto de castidade com a vida. Gostar de outra pessoa torna-nos mais sens�veis � beleza: dentro de n�s pr�prios, dentro de quem gostamos e � nossa volta. "Peca-se" mais. E � bom que possamos dizer que pecar (desta maneira) nos vira do avesso. Mas d� sol, por dentro. Obriga-nos a p�r as pessoas de quem gostamos em d�vida. N�o nos deixa que "adorme�amos em servi�o" e empurra-nos para quest�es que nos ensinaram a proibir. Como por exemplo: Que ganhos me trouxe a pessoa com quem estou? Tornou-me melhor, ensinou-me a ser mais bonito, trouxe-me mais vida? Ou, pelo contr�rio, mesmo sem querer, levou-me a "deitar fora" tudo aquilo que me arejava a cabe�a e tornava o meu cora��o mais bonito?
SMS - Mas n�o ser� que pecamos apenas quando o desinteresse por aquela pessoa j� se instalou irremediavelmente? N�o � desconfort�vel pecarmos -- mesmo que s� por pensamentos -- tendo, ao lado, o escolhido ou a escolhida?
ES - Pecar (visto desta maneira) � "t�o natural como a sede" e -- sim -- � desconfort�vel, porque os remorsos fazem um formigueiro no cora��o, mas s�o as melhores vitaminas de uma rela��o. Visto assim, pecar � dizer "gosto de ti"... duas vezes.


(do livro O melhor do mundo, que re�ne as 100 edi��es do programa hom�nimo de Eduardo S� e S�nia Morais Santos na Antena 1)

9.9.04
a prop�sito do terrorismo
A 18 de Abril o "P�blico" percorreu "os antros mais obscuros do islamismo radical londrino" � procura do l�der espiritual da jihad brit�nica. E publicou uma terr�vel conversa com Omar Bakri Mohammed, te�rico da Al-Quaeda na Europa. N�o pude deixar de me lembrar dessa assombrosa entrevista quando tive not�cia da trag�dia na Oss�tia do Norte que marcou este Ver�o. N�o pela liga��o � Al-Quaeda (que ainda est� por provar), mas pelas palavra do monstruoso intelectual: "O terror � a linguagem do s�culo XXI".
Se o 11 de Setembro j� nos tinha assustado, o atentado de Madrid, em Mar�o, e os �ltimos acontecimentos parecem vir dar raz�o �quele terr�vel progn�stico. Nos tempos dif�ceis em que vivemos, � grande a tenta��o para meter tudo no mesmo saco e dizer simplesmente que "com terroristas n�o se negoceia". Por�m, exactamente em nome da l�gica contr�ria ao terror, � necess�rio mais coragem do que ficar-se pelo "we will get you" de Bush. Como disse Teresa de Sousa num artigo brilhante, no "P�blico" de ter�a-feira:

N�o h� bom nem mau terrorismo, nem h� justifica��o para ele em nenhuma circunst�ncia. Mas n�o querer olhar as suas causas � condenarmo-nos a ficar � sua merc�. � preciso libertarmo-nos da ret�rica da "guerra ao terror" de George W. Bush ou da fria "realpolitik" de Jacques Chirac. � preciso examinar tanto as causas como os efeitos do terror global. Perceber que isso n�o � desculp�-lo mas um passo fundamental para combat�-lo. O caminho errado � aceitar tudo em nome desse combate.
"A vit�ria [sobre o terrorismo] depender� do valor, da decis�o e do empenho em defendermos aquilo que � valioso para n�s e os EUA fazem bem em record�-lo", escrevia h� dias no "Guardian" o historiador brit�nico Timothy Garton-Ash, a prop�sito da import�ncia para o mundo da vit�ria de John Kerry em Novembro. E acrescentava: "Isso depender� de servi�os secretos eficientes e de duro trabalho policial. Mas sobretudo, de que se enfrentem as causas pol�ticas e econ�micas do terrorismo, para poder secar os p�ntanos em que se criam os mosquitos da Al-Qaeda." E tamb�m da nossa capacidade em mostrar as vantagens das nossa sociedades livres. No Iraque como na Tchetch�nia.


Fica ainda o link para o artigo de Timothy Garton-Ash intitulado "The world election".

leituras de Ver�o I
O balan�o de 2000 anos de cristianisno, por Umberto Eco:

Se eu for crente, acharei sublime que Deus tenha pedido ao seu pr�prio filho para se sacrificar pela salva��o de todos os homens. � essa a especifidade do cristianismo -- e n�o o facto de o cristianismo primitivo ter passado sete ou oito s�culos a discutir se Cristo era dotado de uma natureza unicamente humana ou unicamente divina, ou de ambas, e quantas pessoas vontadesele incarnava... Tudo isso se nos afigura como jogos teol�gicos completamente in�teis, mas o desafio reside precisamente em apreciar este mist�rio: como, de que maneira, p�de Deus fazer isso por n�s? Mas, se eu considerar que Deus n�o existe, ent�o a quest�o tornar-se-� ainda mais sublime: com efeito, tenho de me perguntar como � que uma parte da humanidade teve bastante imagina��o para inventar um deus feito homem, que aceitou deixar-se morrer por amor da humanidade. Que tenha sido poss�vel que a humanidade concebesse uma ideia t�o sublime, t�o paradoxal, sobre a qual se constr�i uma enorme intimidade com a divindade, leva-me a sentir enorme estima por ela. � certo que esta humanidade fez coisas horr�veis, mas soube inventar isto! Mesmo que Deus n�o exista, ela soube inventar um romance extraordin�rio.

(do livro O fim dos tempos, conversas com Stephen Jay Gould, Jean Delumeau, Jean-Claude Carri�re, Umberto Eco, edi��es Terramar)

hino da alegria
Havia um tempo em que eu n�o gostava da alegria. Os alegres que a pregavam eram mais patetas do que alegres genu�nos. Depois foi o tempo de aprender a rir (porque tudo � mesmo imenso). E veio a alegria.

A alegria triste
a alegria em riste
a alegria solit�ria
a alegria viosion�ria
a alegria militante
a alegria desconcertante
a alegria das gargalhadas
a alegria de erquer enchadas
a alegria que se constr�i
a alegria que d�i
a alegria extasiante
a alegria entusiasmante
a alegria insegura
a alegria em desmesura
a alegria das ins�nias
a alegria sem cerim�nias
a alegria da aventura
a alegria da gente dura
a alegria desengon�ada
a alegria partilhada.

(Benidorm, Agosto'04)

Regresso ao futuro
C� estamos de volta, depois uma longa pausa na escrita, apenas interrompida com uma anedota (in)consequente e com a morte de Henri Cartier Bresson.
Neste Agosto, passaram por c� festivais de Ver�o, campos de f�rias, poesia e alguns gritos. Tudo a um bom ritmo de f�rias, com posts semana-sim-semana-n�o. Sobretudo pela m�o do bo�mio Z� Maria, que j� jurou ser mais do que uma vida de festivais e bo�mia. Quem nos dera sermos todos um pouco mais bo�mios do que somos...
Apareceram ainda alguns visitantes novos que nos comentaram e a quem damos as boas vindas � cavaqueira.

8.9.04
dan�as


Em reviravoltas de arruma��o pelo quarto foram saltando textos, voaram quatro batendo as asas at� aqui ao blog: v�m limpos de tanto p�, contentes de terem sido redescobertos e com o gosto de me terem sido oferecidos.
um post scriptum: Corre na m� l�ngua do blog que eu n�o sou mais que uma vida bo�mia de festivais e avantes. � falso!

Cucurrucuc� Paloma
Dicen que por las noches
no m�s se le iba en puro llorar;
dicen que no com�a,
no m�s se le iba en puro tomar.
Juran que el mismo cielo
se estremec�a al o�r su llanto,
c�mo sufri� por ella,
y hasta en su muerte la fue llamando:

Ay, ay, ay, ay, ay cantaba,
ay, ay, ay, ay, ay gem�a,
Ay, ay, ay, ay, ay cantaba,
de pasi�n mortal mor�a.

Que una paloma triste
muy de ma�ana le va a cantar
a la casita sola
con sus puertitas de par en par;
juran que esa paloma
no es otra cosa m�s que su alma,
que todav�a espera
a que regrese la desdichada.

Cucurrucuc�... paloma,
cucurrucuc�... no llores.
Las piedras jam�s, paloma,
�qu� van a saber de amores?
Cucurrucuc�, cucurrucuc�,
cucurrucuc�, cucurrucuc�,
cucurrucuc�, paloma, ya no le llores


(Tom�s M�ndez(?)

Para mim, para ti e para os outros
Uma n�spera
estava na cama deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

Chegou a velha
e disse:
"olha uma n�spera
e z�s, comeu-a

� o que acontece
�s n�speras
que ficam deitadas
caladas
a ver
o que acontece


(M�rio Henriques Leiria)

Mais comunismo e cristianismo
Homem, abre os olhos
e ver�s
em cada outro Homem
um irm�o!
Homem,
As Paix�es que te consomem
n�o s�o boas, nem m�s
s�o a tua condi��o
A Paz, por�m, s� a ter�s,
quando o P�o que os outros comem
Homem
for igual ao teu P�o!!!


(M�rio Viegas)

a tua presen�
Pela flor pelo vento pelo fogo,
Pela estrela da noite t�o l�mpida e serena
Pelo n�car do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presen�a incerta
Tua presen�a fant�stica e liberta


(Sophia de Mello Breyner Andersen, Obra Po�tica I, p. 359)

7.9.04
Filha da Putice:
"Portugal n�o vai enviar ajuda para a Oss�tia do Norte
(Falta de pedido formal e dificuldades econ�micas do pa�s)

O Governo portugu�s n�o vai enviar ajuda �s v�timas do sequestro na Oss�tia do Norte. O primeiro-ministro baseia a sua decis�o na falta de um pedido oficial das autoridades russas e nas dificuldades econ�micas de Portugal.

Numa altura em que as primeiras ajudas m�dicas come�am a chegar � Oss�tia do Norte, destinadas �s v�timas do sequestro numa escola de Beslan, o Executivo de Lisboa fez saber, atrav�s do gabinete do primeiro-ministro, que n�o ir� enviar apoio porque n�o existe qualquer pedido de ajuda por parte da representa��o russa em Portugal.

Ali�s, a embaixada da R�ssia em Lisboa j� fez saber que n�o vai formular um pedido oficial porque toda a ajuda que o pa�s est� a receber partiu da iniciativa de outros pa�ses, como a It�lia.

Tamb�m o Minist�rio dos Neg�cios Estrangeiros confirmou � r�dio TSF que n�o h� quaisquer preparativos para enviar ajuda, devido � inexist�ncia de um pedido oficial de Moscovo. A assessoria do gabinete do ministro Ant�nio Monteiro n�o deixa de sublinhar tamb�m que as condi��es econ�micas em Portugal limitam cada vez mais a ajuda ao exterior.

(...) Al�m das mensagens de apoio e solidariedade, pa�ses como a It�lia, Alemanha, Espanha ou Noruega ofereceram ainda ajuda atrav�s de material m�dico e apoio financeiro."

"P�blico UH

AT� AQUI J� ESTAMOS NA CAUDA DA EUROPA!?

Os putos
"Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O c�u no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperan�a
Um pardal de cal��es, astuto
E a for�a de ser crian�a
Contra a for�a dum chui, que � bruto.

Parecem bandos de pardais � solta
Os putos, os putos
S�o como �ndios, capit�es da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
� a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
S�o os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na m�o
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que n�o
Se a porrada vier n�o deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pi�o na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor."


...porque no p�s-Avante me apeteceu relembrar o Ary dos Santos!

6.9.04
Avante

O PCP nunca foi o meu partido de elei��o. � um partido de excelentes ideais mas sem din�mica e adequa��o aos novos tempos e, neste momento, um partido sem o l�der que Cunhal foi; ao Carvalhas falta-lhe carisma, chegar �s pessoas. Um partido que soa sempre a "foi". E agora, com o aparecimento do Bloco Esquerda Caviar Intelectual�ide (mas que, me, vai cativando cada vez mais) sentem-se cada vez mais teimosos no que defendem, t�o teimosos que raramente conversam. Talvez lhes falte algum marketing, alguma cor...
O Comunismo no seu estado puro � t�o belo como um cristianismo, acho que ningu�m o nega. Neles dois acho que seria Comunista Crist�o. Algo de m�gico na utopia de criar um mundo melhor, que agrade a mais gente, em que estejamos mais pr�ximos uns dos outros.
Nos �ltimos tr�s anos tenho ido sempre acampar � festa do Avante e quem j� dan�ou ou viu de longe no alto dan�ar a Carvalhesa sabe bem o que significa l� ir. De alguma forma ali o esp�rito dos ideais e utopias que o comunismo puro quis/quer/querer� est�o l� numa forma de estar e partilhar. E � sem d�vida um partido que est� pr�ximo das gentes (o seu trabalho nas freguesias, por exemplo, tem sido de enorme sabedoria), agrada-me as palmadinhas nas costas com um "camarada" � mistura. Ali h� gente que tem vontade de mudar e ali fico sempre com uma d�vida: o que falta aos PC's para recuperarem das ditaduras de esquerda com todo o mal que criaram � humanidade e ao pr�prio comunismo?



(imagens da primeira festa do Avante em 1976, ainda se ouvem os tambores...)

3.9.04
Oss�tia do Norte: come�ou opera��o para resgatar ref�ns
E morte de pessoas continua a servir para a luta de causas.
Tchetchenos? Inguches? Causas que perdem dignidade pelo absurdo de alguns.
E o terror volta a fazer luto.
At� quando?


Keith Carter
Goldfish, 1998

1.9.04
m-e-r-d-a!

Voltei de f�rias cheio de vontade de ir ao cinema. Andei por Lisboa com v�rias hip�teses: "O Regresso", "A pequena Lili" ou qualquer coisa mais leve: um Chaplin era fixe! Acabei por n�o ter tempo. Como o Cascaishopping � bem mais perto e dentro da falta de qualidade a que nos habituou a Lusomundo resolvi arriscar de novo o Harry Potter.
Sou daqueles que tem lido os livros todos, saem e eu leio de uma assentada, sou f�. Ca� outra vez na esparrela, os filmes do Harry Potter s�o uma merda. Porque � que s�o todos t�o pobrezinhos!? com a hist�ria a ficar mais curta e sem nexo, incompleta; os pormenores deliciosos perdem-se todos; as personagen tornam-se banais; e o imagin�rio � destru�do num sopro. Felizmente tenho ali uns v�deos do Chaplin, vou v�-los ainda de pijama.

Seja como for
Fa�a o que quiser
Viva o que vier
Seja onde estiver
Fa�a o que puder
Viva como der
Sinta o que vier
Seja o que quiser
Fa�a o que fizer
Pegue o que puder
Viva onde estiver
Seja como for, Amor.


(cantado pelos Cl� no �lbum Rosa Carne, escrito por Arnaldo Antunes)

India Song - um filme de Marguerite Duras


A primeira coisa que montei foi a m�sica, o som chegou depois, por isso o filme foi musical antes de ser falado, o que nunca acontece porque a m�sica � a �ltima coisa a ser colada. O filme � logo no in�cio um moderato cantabile, sem jogos de palavras, e depois um vivace no meio e no fim um andante intermin�vel. (notas de india song)

O trabalho mais moroso foi o das vozes. Mais do que a montagem - a montagem das imagens. Gravei sons por todo o lado: em igrejas, lugares muito ruidosos, em caves, corredores, na minha casa, um pouco por todo o lado... Sempre fui muito sens�vel �s vozes ouvidas por acaso, fragmentadas, em lugares p�blicos, em caf�s, nos p�tios dos pr�dios, muito alta, das crian�as que brincam, das pessoas que falam, mesmo s� por um instante. Em Paris abro as janelas no Ver�o. Fa�o-o frequentemente. Para ouvir estes rumores.
INDIA SONG � um filme em parte - 80% - surdo e cego: n�o vemos ou vemos muito mal. E n�o ouvimos ou ouvimos muito mal. H� vozes que emergem. Desta desordem. Desta noite. Desta surdez. S�o muito raras. Mas quando as ouvimos, � uma festa! (entrevista - Dominique Noguez)



Dizem que com este filme Duras quis "fazer o cinema que pensava que estava nos seus livros, e que ningu�m tinha conseguido fazer".

Em Janeiro aproveitei um sess�o especial aqui em Coimbra e fui ver este filme. N�o ia nada preparada para o que ali aconteceu. Vi professores meus e muitas outras pessoas desistirem daquela tela. Fiquei at� ao fim, a �ltima meia hora foi quase insuport�vel. Sa� certa das imagens lind�ssimas, notando muito mais na m�sica do que o costume... ainda hoje a oi�o... mas sem saber o que pensar.
Um amigo, uma das pessoas mais inteligentes que conhe�o, disse-me mais tarde que tinha visto este filme h� 30 anos em Paris e n�o tinha percebido rigorosamente nada. Voltou a v�-lo h� poucos anos e gostou muito. Talvez eu venha a repetir este filme daqui a 30 anos...

LISBOA

�vila
Sala 1
14h30, 17h, 19h30, 22h



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