28.8.04
Carta a meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya
N�o sei, meus filhos, que mundo ser� o vosso.
� poss�vel, porque tudo � poss�vel, que ele seja
aquele que eu desejo para v�s. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que adv�m
de nada haver que n�o seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por v�s.
E � poss�vel que n�o seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo � poss�vel,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pare�a a liberdade e a justi�a,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedica��o � honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
n�o tem conta o n�mero dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de �nico,
de ins�lito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente � secular justi�a,
para que os liquidasse �com suma piedade e sem efus�o de sangue.�
Por serem fi�is a um deus, a um pensamento,
a uma p�tria, uma esperan�a, ou muito apenas
� fome irrespond�vel que lhes ro�a as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados t�o anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas n�o restasse mem�ria.
�s vezes, por serem de uma ra�a, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que n�o tinham cometido ou n�o tinham consci�ncia
de haver cometido. Mas tamb�m aconteceu
e acontece que n�o foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por �nvios caminhos quais se diz que s�o �nvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este hero�smo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
h� mais de um s�culo e que por violenta e injusta
ofendeu o cora��o de um pintor chamado Goya,
que tinha um cora��o muito grande, cheio de f�ria
e de amor. Mas isto nada �, meus filhos.
Apenas um epis�dio, um epis�dio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou n�o sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum s�men
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ningu�m
vale mais que uma vida ou a alegria de t�-la.
� isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que h�o-de falar-vos tanto
n�o � sen�o essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez algu�m
est� menos vivo ou sofre ou morre
para que um s� de v�s resista um pouco mais
� morte que � de todos e vir�.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ningu�m, sem terror, sem ambi��o,
e sobretudo sem desapego ou indiferen�a,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta ang�stia, um dia
- mesmo que o t�dio de um mundo feliz vos persiga -
n�o h�o-de ser em v�o. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos s�culos
de opress�o e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsol�vel.
Ser�o ou n�o em v�o? Mas, mesmo que o n�o sejam,
quem ressuscita esses milh�es, quem restitui
n�o s� a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Ju�zo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que n�o viveram, aquele objecto
que n�o fru�ram, aquele gesto
de amor, que fariam �amanh�.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre t�-lo com cuidado, como coisa
que n�o � nossa, que nos � cedida
para a guardarmos respeitosamente
em mem�ria do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros n�o amaram porque lho roubaram.

(Jorge de Sena, dia 25 de Junho de 1959)

Chegado do campo de Pin�quios do Mocamfe na Horta das Rosas (Ervedal, Avis) na Barragem do Maranh�o com a barba crescida e o cabelo grande e encaracolado de despenteado, j� com um belo banho quente tomado em banheira, partilho convosco um texto que me tinha sido dado numa noite de Natal e que foi proposto por n�s (equipa estreante de direc��o de que a in�s tamb�m fez parte) numa reuni�o de anima��o. S�o t�o bons estes campos.



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