14.7.04
Pintasilgo
Nuns mais do que noutros, h� em todos n�s um conjunto de gestos, de inflex�es, de pausas, de olhares, de sorrisos, de formas de alisar os cabelos, de maneiras de estar e agir que criam uma atmosfera, um modo de cortar a neblina, de avan�ar por entre os corpos e as vozes. Algo de indefin�vel, marca e tatuagem, cor da pr�pria respira��o - uma cifra pessoal que tra�a o lugar do indecifr�vel. � isso que n�o se repete. � isso que desaparece definitivamente quando algu�m morre. � isso que vai migrar para uma esp�cie de mundo imaterial onde se acumulam n�o propriamente os corpos, nem sequer as almas, mas esses n�s enigm�ticos onde tudo se une, se acorda e desacorda, ao longo de um destino corporal e metaf�sico.

Maria de Lourdes Pintasilgo acreditava em Deus. Nela esta convic��o tinha uma energia esplendorosa, porque atravessava o deserto de todas as d�vidas. Muitas vezes, em debates no Graal, vi-a conceder quase tudo o que era a argumenta��o contr�ria, mas nunca vacilava na derradeira certeza: Deus existe como o indiz�vel que �, anterior a tudo o que se possa dizer sobre o que existe e n�o existe. E neste plano a sua f� era uma verdadeira fortaleza - inexpugn�vel. E fazia parte dessa cifra individual que se enrola pacientemente em torno de um nome.

Maria de Lourdes Pintasilgo acreditava na pol�tica. Facto tanto mais espantoso quanto vivemos tempos em que � moda dizer-se que n�o se acredita nem na pol�tica nem nos pol�ticos, porque s�o todos uns corruptos, que s� pensam nos seus interesses. Ela n�o ignorava que em parte isso � verdade (basta ler os jornais, e o que c� chega � uma estreita fatia da realidade), mas tinha a convic��o inabal�vel de que existe um grupo de pessoas generosas que s�o movidas pela ideia de tornar o mundo melhor. E que isso passa por cuidar do outro - numa acep��o extremamente rica da palavra "cuidado" -, quer aquele que est� ao nosso lado, quer aquele que vive nos mundos esquecidos do que outrora se chamava o Terceiro Mundo (e para os quais ela chamou obstinadamente a aten��o).

Maria de Lourdes Pintasilgo acreditava na poesia e no pensamento. Ler, reflectir, eram para ela elevadas actividades que levavam cada um ao limite de si pr�prio e permitiam o encontro improv�vel em que a comunidade se sustenta. No vel�rio na Bas�lica da Estrela eram muitos os que vinham dizer tudo o que deviam �quela mulher. Nada em especial, a n�o ser a esperan�a. Nada de concreto, a n�o ser a dignidade. Mas sobretudo um modo de estar, de falar, de erguer a voz da indigna��o, de expandir a c�lera em rela��o � mis�ria do mundo. Que de repente desaparecia - para onde foi?

Maria de Lourdes Pintasilgo dizia-me por vezes que acreditar no poss�vel n�o � nada que mere�a registo - s� vale a pena acreditar que o imposs�vel � poss�vel. Se isso lhe dava um toque de idealismo que nada tinha a ver com o pragmatismo dos tecnocr�ticos, podemos dizer que � verdade. Era tamb�m o que nos trazia uma imagem exemplar em que a vida e a justi�a tinham sempre raz�o. Por isso ela continuar� a exigir de n�s pr�prios que sejamos capazes de ir t�o longe (se poss�vel...) como ela foi - e para sempre continuar� a ir.

(Eduardo Prado de Coelho no P�blico de ontem)



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