17.7.04
o grito dos velhos
Dois velhos judeus, sentados num banco de jardim... Poderiam ser o palha�o rico e o palha�o pobre, ou Arlequim e Pierrot, ou Vladimir e Estragon � espera de Godot... Mas, sem deixarem de ser um pouco de cada um destes pares de personagens, Nat e Midge s�o, sobretudo, Dom Quixote e Sancho Pan�a, nas suas tens�es, na sua complementaridade, no seu jogo perante o mundo, nas contradi��es de que se faz o seu e o nosso carrocel da vida.�
� assim que nos s�o apresentados os dois velhos que conversam no banco de jardim do Central Park por Jo�o Maria Andr�, encenador dos Bonifrates que levam � cena "Eu n�o sou o Rappaport" de Herb Gardner.
Podia contar-vos o que faziam estes dois velhos antes da reforma que os p�s naquele jardim. Mas de pouco valeria. Como diz Nat, "passei toda a vida a ser a mesma pessoa, porque n�o hei-de ser outras cem agora!?". E ao longo da pe�a ele � mesmo outras cem personagens, consoante a necessidade da conversa, consoante a necessidade de aldrabar o interlocutor, consoante as voltas que sejam precisas para tornar mais humanas as vidas que passam pelo parque. Diz-nos este D. Quixote a conversas tantas: "a gente serve-se da personalidade que d� mais jeito na ocasi�o".
Conto-vos apenas uma das cenas, em que Nat d� a volta a Danford, um jovem presidente do seu condom�nio, que pretende despedir (e despejar) Midge. Diz ele para Danford:
Desculpe, os projectores est�o virados para si porque t�m mesmo que estar. � que voc� � invulgarmente vulgar, e h� tantos como voc� hoje em dia. Voc�s coleccionam mob�lia antiga, carros antigos, quadros antigos, tudo o que � antigo e velho menos gente velha. Os velhos s�o m�s recorda��es, falam de mais. Mesmo calados, dizem demais, parecem-se com o futuro e disso n�o querem voc�s saber. Mas quem � esta gente, estes velhadas, esta ra�a estranha, n�o t�m nada a ver comigo, metam-nos ao p� dos da sua laia, num edif�cio, numa cidade, metam-nos num s�tio qualquer. (inclina-se para Danford) Seus idiotas, voc�s n�o sabem? Um dia, tamb�m voc�s se v�o juntar a esta tribo esquisita. Sim, Sr. Presidente, voc� vai mesmo envelhecer; lemanto muito ter que lhe dar a not�cia. E se agora tem medo, quando chegar a altura vai ter � terror.
O problema n�o � a vida ser muito curta, � ela ser muito longa; por isso � melhor ter-se uma pol�tica. Aqui estamos n�s. Olhe bem. N�s somos o cartaz de an�ncio das "pr�ximas atrac��es". E enquanto voc�s tiverem medo disto, h�o-de ter medo de n�s, h�o-de querer esconder-nos ou obrigar a que nos escondamos de voc�s. Voc�s s�o perigosos.
(agarra-lhe o bra�o com veem�ncia) Estupores t�o tolos! N�o percebem? Os velhos s�o sobreviventes, h� qualquer coisa que eles sabem, n�o olhem para eles como gente que se deixou ficar at� tarde s� para vos estragar a festa. Os velhos, os muito velhos, s�o aut�nticos milagres como o s�o os rec�m nascidos; a beira do fim � t�o preciosa como a beira do princ�pio.
Do que voc�s gostavam era que o Carter [Midge] fosse simp�tico e querido e estivesse caladinho e que se pusesse a andar. Mas n�o p�e. N�o p�e, que eu n�o deixo. Digam-lhe que � lento ou que � est�pido - pronto - mas se lhe dizem que � in�til, isso j� � pecado, um pecado contra a vida, � fazer um aborto pelo outro lado.



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