31.5.04
Menino Jesus
Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer � Terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do c�u.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
(...)

Um dia que Deus estava a dormir
E o Esp�rito Santo andava a voar,
Ele foi � caixa dos milagres e roubou tr�s.
Com o primeiro fez que ningu�m soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que h� no c�u e serve de modelo �s outras.

Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
� uma crian�a bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao bra�o direito,
Chapinha nas po�as de �gua,
Colhe flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos c�es.
E, porque sabe que elas n�o gostam
E que toda a gente acha gra�a,
Corre atr�s das raparigas
Que v�o em ranchos pelas estradas
Com bilhas �s cabe�as
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que h� nas flores.
Mostra-me como as pedras s�o engra�adas
Quando a gente as tem na m�o
E olha devagar para elas
(...)

Damo-nos t�o bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com acordo �ntimo
Como a m�o direita e a esquerda

Ao anoitecer brincamos as cinco predinhas
No degrau da porta de casa
Graves como conv�m a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deix�-la cair no ch�o.

Depois eu conto-lhe hist�rias das coisas s� dos homens
E ele sorri, porque tudo � incr�vel.
Ri dos reis e dos que n�o s�o reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos com�rcios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta �quela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno at� ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E �s vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
P�e uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono
(...)

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a crian�a, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me hist�rias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E d�-me sonhos teus para eu brincar

(de Alberto Caeiro, retirado do cd "Rosa dos Ventos - o show encantado" onde Maria Beth�nia o recita excepcionalmente)



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