18.5.04
Da Teresa
Homens que s�o como lugares mal situados
Homens que s�o como casas saqueadas
Que s�o como s�tios fora dos mapas
Como pedras fora do ch�o
Como crian�as �rf�s
Homens agitados sem b�ssola onde repousem

Homens que s�o como fronteiras invadidas
Que s�o como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que s�o como a nega��o das estrat�gias
Que s�o como os esconderijos dos contrabadistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que s�o como danos irrepar�veis
Homens que s�o sobreviventes vivos
Homens que s�o s�tios desviados
Do lugar

Homens que s�o como projectos de casas
Em suas varandas, inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intemp�ries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados � espera
De um companheiro poss�vel para o di�logo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens t�o impreparados t�o desprevenidos
Para se receber

Homens � chuva com as m�os nos olhos
Imaginando rel�mpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
T�o impreparados t�o desprevenidos
T�o confusos � espera de um sistema solar
Onde seja poss�vel uma sombra maior

Homens que trabalham sob a l�mpada
Da morte
Que escavam nessa luz para ver quem ilumina
A fonte dos seus dias

Homens muito dobrados pelo pensamento
Que v�m devagar como quem corre
As persianas
Para ver no escuro a primeira nascente

Homens que escavam dia ap�s dia o pensamento
Que trabalham na sombra da copa cerebral
Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas
Homens todos brancos que abrem a cabe�a
� procura dessa pedra definida

Homens de cabe�a aberta exposta ao pensamento
Livre. Que v�m devagar abrir
Um lugar onde amanhe�a.
Homens que se sentam para ver uma manh�
Que escavam um lugar
Para a sa�da

N�o levantemos os homens que se sentam � sa�da
Porque se movem em seus carreiros interiores
Equilibram com dificuldade uma ideia
Qualquer coisa muito n�tida, semelhante
A uma folha vazia
E p�em ninhos nas �rvores para se libertarem
Da gaiola terr�vel, invis�vel muitas vezes
De t�o dura
N�o nos aproximemos dos homens que p�em as m�os nas grades
Que encostam a cabe�a aos ferros
Sem outras m�os onde agarrar as m�os
Sem outra cabe�a onde encostar o cora��o
N�o lhes toquemos sen�o com materiais secretos
Do amor.
N�o lhes pe�amos para entrar
Porque a sua for�a � para fora e a sua espera
� a f� inabal�vel no mist�rio que inclina
Os homens para dentro
N�o os levantemos
Nem nos sentemos ao lado deles. Sentemo-nos
No lado oposto, onde eles podem vir para erquer-nos
A qualquer instante


(Homens que s�o como lugares mal situados, Daniel Faria in Poesia, 2003)



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