30.4.04
a liberdade acaba?
Já várias vezes parei na frase: a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros. Escrita, avisada, gritada ou escarrapachada em alguma cara zangada. Das várias vezes me soou mal. Lembra os autocarros cheios em dias de muito calor. As pessoas colam-se peganhentas, fazem-se encolhidas para não serem tocadas, suspendem a respiração ao cheiro do sovaco vizinho. Como se cada um de nós fosse uma ilha atrofiada pelos demais. Sei que muitos dizem esta expressão no sentido do respeito aos outros, mas não somos nós a continuação uns dos outros? Não é a nossa liberdade conseguida também com liberdade dos outros?
Há o risco das demasiadas regras, da perda da descontracção, da paranóia da saúde, ou da limpeza, ou da organização. Dizem tanto mal de Portugal (alguns com muita razão) mas eu por mim gosto de algum desembaraço que temos, gosto dos quintais e consigo achar graça a marquises feíssimas construídas por uma gente que pulsa, que dobra mas não racha, mãos e caras marcadas de sonhos arrancados ao chão.
Há uma BD muito gira do Quino em que um grupo de homens espeta numa praça "Aposta-se que não sabem o que é proibido!" e então, toda a gente à volta fica à rasca, sem saber mesmo, como se tudo pudesse de facto o ser!
Alguma libertinagem agrada-me!

Libertino: dissoluto; devasso; ímpio; s. m. livre pensador.



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